O Rio de Janeiro passou por diferentes “ciclos” de criminalidade, do controle de bicheiros, passando pelas facções de tráfico nos morros aos milicianos que usam o poder enquanto policiais para fins corruptos se tornando tão criminosos quanto os anteriores. A Vida de Cada Um explora essa mudança na paisagem criminal do Rio de Janeiro enquadrada pela conturbada relação de pai e filha.
República de milícias
A narrativa é protagonizada por Flávia (Bianca Comparato), ela vive em um morro do Rio de Janeiro junto com o namorado e trabalha em uma concessionária que cujo dono tem ligações do com o jogo do bicho. Cansada do baixo salário e de batalhar constantemente ela entra em contato com um dos policiais que trabalhava para o pai dela na tentativa de montar um esquema de distribuição de drogas usando o patrão da concessionária. O pai de Flávia é Macedo (Caco Ciocler), um policial corrupto que se tornou líder de uma milícia e enriqueceu muito às custas disso, mas no passado Flávia rompeu relações com ele.
A trama se divide em dois tempos, com o presente mostrando Flávia tentando montar seu esquema de distribuição de drogas, enquanto no passado acompanhamos a juventude dela e vemos a ascensão de Macedo como miliciano, a relação bruta que ele tinha com os filhos e o custo da vida de crimes sobre ele. É uma tentativa de sintetizar a ascensão das milícias no Rio de Janeiro e como isso impacta no cotidiano, na política e em outras esferas da vida, mas como o filme compreende um longo período de tempo, indo do fim da década de oitenta até meados dos anos de 2010, isso significa que o filme passa muito rápido por várias questões, produzindo um relato relativamente simplório da ascensão das milícias.
Se sai melhor na construção da relação conturbada entre Flávia e Macedo, mostrando como a convivência com os crimes do pai a fez normalizar todo aquele universo e o modo como as ações dele criaram uma distância entre os dois. O ressentimento de Flávia com o pai inclusive a deixa cega para os vários aspectos em que ela é igual a ele e está repetindo a trajetória que o pai fez e que tanto lhe trouxe sofrimento no passado.
Temporalidade abrupta
Falando na amplitude de tempo que o filme cobre, chega um ponto em que a narrativa decide colocar o pé no acelerador e começa a fazer longos saltos temporais, primeiro pulando dois anos, de 2014 para 2016, e depois disso fica a impressão de que cada cena se passa vários meses de distância uma da outra. Isso faz o filme soar bastante episódico e coloca vários eventos importantes para a narrativa para acontecerem fora de cena, com diálogos tendo que explicar certos desdobramentos ao invés de mostrá-los. A impressão é de uma narrativa pensada para uma duração maior ou até para uma série, que precisou ser condensada nas duas horas do filme e dá a impressão de que estamos vendo uma versão resumida de uma narrativa maior.
Esse senso de fragmentação é agravado pela montagem, com cortes abruptos entre uma cena e outra que não conseguem dar um senso de unidade ou coesão para esses vários segmentos. Mesmo que a intenção tenha sido a do choque entre imagens ou de criar paralelos (como na cena de Macedo torturando um ex-aliado e corta para Flávia sendo atacada pela mulher do torturado) não funcionam como deviam pelo modo como o filme transita entre uma cena e outra.
Ao contar sobre a ascensão das milícias e sua disseminação pelas estruturas de poder do Rio, o filme inevitavelmente traça paralelos com o mundo real e a política brasileira dos últimos anos, mas falta um pouco de sutileza nesses paralelos, quase como se o filme não confiasse no espectador para entender a quem ou ao quê a narrativa se refere. Afinal, acompanhamos a ascensão e eventual queda de um militar bruto, anacrônico e corrupto, que deixa um herdeiro político em Flávia (um nome que não parece escolhido por acaso), que se candidata por um partido conservador de número 17 ali por volta de 2018. Ao localizar nessa figura específica, o filme também simplifica toda uma dinâmica de poder muito mais complexa que deixa de lado o fato de que essa figura é o sintoma de uma doença maior, não a doença em si.
É uma pena que A Vida de Cada Um não consiga dar conta
do que tenta empreender, já que apesar da construção da problemática relação de
pai e filha sustentada pelas performances de Caco Ciocler e Bianca Comparato a
reflexão sobre crime e corrupção no Rio soa muito superficial e fragmentada
para ter a contundência que o filme desejava.
Esse texto faz parte de nossa cobertura do XXI Panorama Coisa de Cinema


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