sexta-feira, 20 de março de 2026

Crítica – Detetive Alex Cross: Segunda Temporada

 

Análise Crítica – Detetive Alex Cross: Segunda Temporada

Review – Detetive Alex Cross: Segunda Temporada
Quando escrevi sobre a primeira temporada de Detetive Alex Cross mencionei como a série executava bem sua trama de mistério, embora não saísse muito do que é esperado pelo gênero. A série ainda sofria com o modo como tentava observar as instituições policiais, com suas tentativas de crítica, sempre esbarrando em um endosso dessas instituições. A segunda temporada tenta resolver algumas dessas questões, mas nem sempre funciona.

Vingança em série

Alex Cross (Aldis Hodge) ganhou ainda mais notoriedade depois dos eventos da temporada anterior quando ajudou a prender um serial killer que vivia nos mais altos escalões do poder. Agora ele é novamente solicitado pelo FBI para ajudar em mais um caso de assassino em série, dessa vez com alvos direcionados para pessoas ao redor do empresário Lance (Matthew Lilard), dono de uma empresa que está para lançar um programa capaz de resolver problemas em plantações no mundo inteiro. De início as autoridades pensam que é uma tentativa de derrubar a iniciativa revolucionária da empresa, mas Alex logo percebe que quem está por trás disso, Luz (Jeanine Mason), na verdade está em busca por vingança em relação aos negócios escusos de Lance, envolvido na exploração da mão de obra de imigrantes em regime análogo à escravidão, tráfico de pessoas e tráfico sexual. Ao mesmo tempo Alex desconfia que Kayla (Alona Tal), seu contato no FBI, parece mais interessada em avançar na carreira do que em alcançar a verdade.

Essa nova ameaça traz uma nova dinâmica para o trabalho de Alex. Afinal na primeira temporada ele lidava com um assassino sádico cujos atos de violência serviam o próprio prazer e aqui é alguém movida por um sentimento justo, ainda que com meios questionáveis. A pessoa que ele precisa proteger, por outro lado, é alguém que Alex sabe que não presta e esconde segredos ocultos e a narrativa consegue produzir tensão a partir dessa encruzilhada moral do personagem entre seu compromisso com o dever (proteger Lance) e seu compromisso com o que é certo (impedir Luz, mas também fazer Lance responder pelo que fez).

Luz é uma oponente interessante justamente por forçar Cross a observar o mundo com alguma nuance moral e também pelo modo como ela metodicamente analisa seus alvos para explorar suas fraquezas, sendo uma matadora eficiente que consegue pegar as autoridades desprevenidas. Em alguns momentos, no entanto, a trama parece deixar as coisas fáceis demais para ela, como na cena em que ela mata um sujeito durante uma festa de casamento fortemente vigiado pelo FBI. É difícil crer que diante de uma ameaça real e imediata os agentes iam ficar posicionados todos fora do salão de festa, ao invés de ter um monte de gente armada espalhada pelo salão. Quando todo mundo corre para dentro depois de Luz matar o alvo é quase como se eles quisessem fracassar. Cheguei até a pensar que teríamos a revelação que a assassina tinha aliados na agência, mas não, eles só foram inexplicavelmente burros.

Conforme a narrativa avança, as escolhas de Luz soam tão justificadas frente a tudo que ela e outras pessoas passaram nas mãos de Lance, bem como o modo que ele conseguiu silenciar as autoridades ao longo dos anos, que é difícil não dar razão a ela. Quando isso acontece a série recorre a um expediente típico de Hollywood sempre que o vilão começa a fazer sentido demais, que é colocá-lo para cometer um ato desnecessário de crueldade (aqui Luz mata um aliado devotado a ela) só para gerar repulsa no espectador e evitar inspirar a noção que matar ricos que usam seu dinheiro e influência para cometer crimes e saírem impunes é uma boa escolha.

Quem precisa de polícia?

Como na primeira temporada, a série tenta apontar as desigualdades e estruturas de poder que agem para proteger pessoas como Lance, refletindo como forças de segurança, judiciário e autoridades de Estado existem mais para proteger as posses dos ricos do que para promover a justiça. Durante boa parte da temporada, porém, a série continua o malabarismo retórico do primeiro ano, de reconhecer como essas estruturas são falhas e corrompidas em sua própria estrutura de funcionamento, mas tentando defendê-las como o único meio possível (principalmente para não ter que dar qualquer grau de razão a Luz). Sempre que chega perto demais de concluir que não é possível fazer justiça dentro desse sistema, a série recua.

As tramoias de bastidores e o modo como o alto escalão das autoridades age para proteger os próprios interesses ao invés da justiça é algo que chega a incomodar até o corrupto Bobby Trey (Bobby Ray Gill), que se revolta ao como Kayla o estava usando para ocultar sujeira do FBI e o modo como eles usavam veteranos de guerra em experimentos letais. O momento em Trey exprime seu asco ao ver as imagens do soldado morrendo ajuda a dar mais camadas ao personagem e mostra como até mesmo alguém tão vil consegue ter algum limite moral enquanto pessoas em posição de poder não tem nenhum.

O final tenta mais uma vez tensionar as convicções morais de Alex com a realidade das forças de segurança, fazendo o personagem perceber que confiar na sua comunidade e em aliados próximos é mais útil do que em estruturas pouco interessadas em fazer o que é certo. O problema é que o último episódio executa isso da maneira mais estúpida possível. Considerando que ninguém sabia que Luz tinha deixado com ele um pen drive com provas contra Lance e que o FBI já tinha se mostrado pouco confiável, porque ele decide ir até a agência com o drive achando que seria ouvido? Porque ele não fez cópias disso e deixou com aliados ou enviou para a imprensa caso o FBI tentasse tomar à força as provas de sua posse e sumir com elas?

É o como se Cross, sempre um sujeito arguto e à frente dos seus adversários, ficasse burro por pura conveniência do roteiro e para poder criar algumas cenas de ação durante o último episódio. As coisas pioram quando a solução do problema vem do senador interpretado por Josh Peck, que aceita as provas de Alex e leva tudo a público. É uma péssima escolha por várias maneiras. Primeiro que todo o arco da temporada era o personagem aprender que as instituições não são confiáveis e ao colocar um representante do poder constituído para ser quem resolve tudo, a narrativa mina essa construção temática. Segundo que, considerando a paisagem política dos Estados Unidos hoje, em que nem mesmo a oposição se mobiliza para enfrentar as ilegalidades do governo, a ideia de um senador, herdeiro de uma família rica que prosperou sendo cúmplice dos crimes de Lance, teria tutano moral suficiente para destruir o legado da própria família e arriscar a carreira política só para fazer o que é certo é tão pouco crível que soa mais como algo de fantasia ou ficção científica. Se Cross sacasse um sabre de luz e usasse superpoderes para enfrentar o FBI seria mais verossímil do que um senador com senso de moralidade.

Faria mais sentido se Cross tivesse mandado os arquivos para múltiplos veículos de imprensa ou jogasse tudo na internet para o público ver, com a pressão desses agentes externos ao poder estatal levando à derrubada de Lance. Ao menos no final Cross finalmente chega à óbvia conclusão que seu trabalho como policial e seu senso de retidão moral caminham em direções opostas e deixa a polícia. Demorou, tropeçou no caminho, mas ao menos alcançou a constatação que a série tenta atrapalhadamente fazer desde seu ano de estreia. Agora é ver como isso irá repercutir nas próximas histórias do personagem.

 

Nota: 6/10


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