Criaturas à solta
A trama se passa em uma pequena cidade portuária na Coreia do Sul. Um dia animais começam a aparecer mortos nos arredores da cidade e o chefe de polícia local, Beom Seok (Hwang Jung-min) desconfia de predadores selvagens, mas quando o centro da cidade é atacado, ele se depara com uma ameaça monstruosa. Junto da assistente Sung Ae (Hoyeon), Beom e alguns caçadores locais tentam conter a ameaça.
O primeiro ato é uma longa perseguição pelas ruas da cidade enquanto Beom tenta alcançar a criatura e entender o que está acontecendo. O filme oculta seu monstro por quase uma hora, construindo sua ameaça e poder pelas ruínas e corpos dilacerados que a criatura deixa em seu caminho, bem como através de carros e outros objetos pesados arremessados como se não fossem nada.
É bem evidente que a polícia e os demais habitantes estão despreparados para lidar com a ameaça, atirando a esmo ao perceberem qualquer movimento e atingindo inocentes no processo. Há um senso de movimento constante conforme a câmera acompanha os personagens enquanto correm a pé ou de carro pelas ruas da cidade tentando encontrar a criatura. A câmera está sempre em movimento, mas mantem a estabilidade, evitando aquela estética chacoalhante de muitos blockbusters. Os planos longos valorizam os sets, majoritariamente práticos que ilustram o alcance e a violência da destruição causada pela criatura. A direção sustenta as cenas de ação mesmo quando as criaturas aparecem completamente sob a luz, denunciando as limitações da computação gráfica do filme.
Só depois de uma hora de filme é que vemos o ser bizarro que ataca a cidade e durante o confronto derradeiro com o monstro, a trama dá os primeiros indícios de que aquele pode não ser um invasor sanguinário na medida que Beom vê a face assustada da criatura. Dizer mais a respeito do que acontece seria estragar a experiência de quem vai assistir.
Humanidade monstruosa
Como falei, não há muito em termos narrativos durante boa parte do filme, mas é possível perceber que o tema central é a selvageria humana. Apesar das várias criaturas que aparecem no filme, a carnificina é sempre iniciada pelas ações dos humanos, que atacam primeiro e tratam automaticamente como ameaça esses estranhos seres. Muito do que motiva essas criaturas é mais inferido do que explicitamente dito, nos deixando perceber que eles não tem motivações hostis até serem atacados pelos humanos.
O que segue é um brutal confronto na floresta entre as criaturas e um grupo de caçadores acompanhado por uma longa perseguição no terço final em que um dos seres assume uma forma quadrupede e persegue uma viatura policial. As cenas de ação são repletas de tensão e adrenalina conforme os personagens lutam para sobreviver e muitos são brutalmente eliminados pelos inimigos.
Apesar da tensão, o filme também tem vários momentos de humor explorando como esses indivíduos comuns lidam com essas circunstâncias extraordinárias. Algumas delas exploram como essas pessoas estão longe de serem heróis de ação mesmo quando conseguem sobreviver, a exemplo do personagem que é derrubado de um carro em movimento ao bater em uma placa depois de aparentemente ter eliminado uma das criaturas com um lança-granadas.
Quando pensamos que o filme está acabando, a narrativa volta a surpreender nos minutos finais ao mostrar uma imensa nave espacial em chamas e ao finalmente traduzir a conversa das criaturas entre si. É um momento que finalmente explicita que as intenções deles não eram hostis em relação ao nosso planeta, mas que apresenta um novo conflito que não é resolvido porque o filme simplesmente acaba. É decepcionante porque não soa como um desfecho acompanhado de um gancho para continuação, o filme simplesmente decide parar de contar a história sem oferecer um senso satisfatório de conclusão. Teria sido melhor encerrar com os personagens comemorando a aparente vitória depois de sobreviverem à perseguição, sendo interrompidos pela visão da enorme nave colidindo com uma montanha. Assim teríamos ao menos o fechamento de um ciclo e pista de uma nova ameaça no horizonte ao invés de apresentar um monte de conceitos nos últimos segundos sem desenvolver nenhum deles e empurrar tudo para um segundo filme que talvez nunca seja feito.
Mesmo não conseguindo amarrar tão
bem suas ideias no final, Hope: O
Primeiro Impacto ao menos consegue entregar uma experiência intensa e cheia
de personalidade, sendo uma das produções mais diferentes que vi esse ano.
Nota: 8/10
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