Nunca chove na Filadélfia
Enquanto viaja pela Filadélfia, Reacher (Alan Ritchson) encontra uma mulher agitada em um metrô. Ele suspeita que ela pode ter uma bomba, mas ela revela ter apenas uma arma e quando Reacher se aproxima a mulher se suicida. Reacher é tratado como suspeito de assassinar a mulher e levado para uma delegacia na cidade. Agentes da CIA aparecem na delegacia questionando se a mulher deu um pen drive a Reacher. Se sentindo culpado por não ter ajudado a mulher e desconfiado de que haja uma conspiração para encobrir algo, Reacher decide investigar o caso e provar a própria inocência.
Como de costume, a narrativa é muito boa em manejar a intriga, apresentando diferentes suspeitos, cada um escondendo coisas de Reacher e nos dando motivos para desconfiar do que pode estar acontecendo. A temporada cria um constante clima de paranoia por conta das diferentes equipes seguindo Reacher, de agentes do governo a mercenários, criando a impressão de que ele é um alvo constante e nunca está seguro.
Ao longo da temporada ele é auxiliado por Tamara (Sydelle Noel), uma policial da Filadélfia desiludida com a corrupção ao seu redor, e por Jacob (Christopher Rodriguez Marquette), irmão da mulher que se suicidou na frente de Reacher e policial de uma cidade pequena. Eles obviamente estão em uma situação além de suas próprias capacidades, mas a narrativa ao menos dá a eles momentos em que conseguem mostrar seu valor e também lhes dá algum arco próprio. O de Tamara é sair da apatia e recuperar a confiança, enquanto que Jacob lida com a morte da irmã e do sobrinho buscando encontrar os responsáveis. São motivações bem típicas nesse tipo de história, mas que convencem pelo trabalho dos atores principalmente pelo modo que Tamara e Jacob se conectam por serem pessoas comuns enredadas em uma conspiração muito além de suas habilidades e passam a contar um com o outro.
Imperialismo em evidência
Inicialmente pensei que a trama traria um olhar crítico para o modo como os Estados Unidos instigaram e colaboraram com ditaduras sangrentas ao redor do mundo ao trazer as duas mulheres indonésias, Lila (Agnez Mo) e Anisha (Anggun), mas logo isso é desfeito e cai no velho olhar de que estrangeiros são sim perigosos e tudo que os EUA fazem tem alguma justificativa. Mesmo o deputado ex-militar John Sampson (Marc Blucas), que ajudou a colocar no poder a ditadura Indonésia e treinou seus soldados para perseguir o próprio povo é tratado apenas como um soldado que cumpriu seu dever e o fato de que ele não estava ciente dos experimentos antiéticos com armas biológicas que o governo dos EUA fez no país são suficientes para que a trama o trate como alguém totalmente inocente e não como um cúmplice de uma ditadura sangrenta.
Na verdade, em meio a tantas conspirações mirabolantes e pessoas sobrevivendo a ferimentos que matariam a maioria das pessoas, o aspecto menos crível dessa temporada é o deputado conservador e militarista tão dotado de escrúpulos que seria capaz de arriscar a própria carreira e até sacrificar a própria vida em prol da coisa certa. Basta olhar para o ambiente político dos EUA hoje para ver que alguém assim é mais irreal do que uma pessoa ser arremessada do quinto andar, cair de costas e sair andando normalmente. Uma visão ingênua (para dizer o mínimo) do contexto político do país similar ao que aconteceu na segunda temporada de Detetive Alex Cross. As histórias do Jack Reacher, seja nos livros, nos filmes com o Tom Cruise ou na série sempre tiveram um viés relativamente conservador, mas aqui sua romantização do militarismo estadunidense é tão exagerada e acrítica que fica meio ridículo.
Por outro lado, a série continua competente na ação, explorando bem a engenhosidade de Reacher em lidar com ameaças mais numerosas e sua brutalidade em combate, como na cena em que puxa a cabeça de um inimigo através das grades de uma cela, arrancando a orelha do sujeito, ou quando faz um elevador descer sobre a cabeça de um oponente caído. O confronto do final de temporada leva o protagonista ao limite ao enfrentar um prédio cheio de mercenários e na intensa luta envolvendo Lila e Anisha, na qual as duas lutam em conjunto para superar a vantagem física de Reacher. Por mais que Reacher seja do tamanho de uma geladeira de duas portas a série nunca o trata como invencível, sendo capaz de criar um senso de urgência conforme os confrontos o deixam debilitado e vão diminuindo sua capacidade de combate, ampliando o senso de perigo e obrigando o personagem a usar a cabeça.
É por conta desse manejo eficiente
da ação e da intriga que a quarta temporada de Reacher continua a envolver, ainda que seu olhar superficial sobre
questões políticas atrapalhe a narrativa.
Nota: 6/10
Trailer

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