Encarando a perda
A narrativa é protagonizada por Madalena (Noá Bonoba). Grávida de oito meses, ela acabou de perder o pai e decide honrá-lo terminando seu último filme, uma ficção científica B. Ela decide filmar logo, antes que seu bebê nasça para não precisar lidar com a correria de uma produção com um recém-nascido. O problema é que muitas coisas fogem de seu controle e as filmagens são tomadas por caos quando o diretor, Davi (Marcus Curvelo), ex-marido de Madalena, desaparece. Ela traz Oswaldo (Tavinho Teixeira), amigo de seu falecido pai, para assumir o filme, mas Oswaldo parece ter ideias próprias para o filme, saindo do roteiro e irritando Madalena.
Madalena parece constantemente tomada por uma raiva contida, sempre borbulhando sob a sua superfície e que ela mal consegue disfarçar. O modo como ela prolonga o “r” ao encerrar uma conversa com Oswaldo com um “por favor” a faz soar como se estivesse rosnando para o diretor. O fato da personagem precisar tomar as rédeas e dirigir o filme ela mesma funciona de maneira simbólica para que ela lide diretamente com esses últimos vestígios do pai ao invés de delegar isso para outra pessoa. Os vários obstáculos da produção e a dificuldade de levar o filme a cabo no pouco tempo que ela tem antes do parto são como se ela precisasse terminar o filme e elaborar seu luto antes de poder lidar com o nascimento do filho.
É uma ideia de ciclo constante. O luto precisa ser resolvido e o filme terminado para que ela consiga encontrar paz para começar um novo capítulo de sua vida com o nascimento do filho. As coisas estão sempre terminando e dando lugar a novos começos. Em meio a isso está também ela redescobrir o que a fez se interessar por cinema e o senso de comunidade que ela constrói com sua equipe.
Um parto de filme
A narrativa olha com humor para o caos de um set de filmagem, especialmente um de baixo orçamento e com equipe limitada. Qualquer pessoa que já trabalhou em um set vai se identificar com muitas situações cômicas presentes no filme, como na cena em que o diretor se revolta com o técnico de som sinalizando para cortar quando um som alto externo estraga uma tomada ou o momento em que Oswaldo pede a Natasha (Nataly Rocha, de Motel Destino) para identificar a fonte do som alto e pedir para a pessoa desligar, extraindo de Natasha a resposta “mas isso é função do platô”.
As brigas entre Madalena e Oswaldo também rendem diálogos engraçadíssimos, como o momento em que Oswaldo se compara a Stanley Kubrick e Madalena retruca com “Kubrick não enfiou um braço inteiro dentro do cu em cima dum paredão”. A revelação do que aconteceu com Davi e seu inesperado retorno é outro momento divertido por conta das personalidades pitorescas que habitam o universo narrativo. Na verdade, o humor e o caos constante na produção do filme dentro do filme por vezes dão a impressão de que o luto da protagonista fica um pouco em segundo plano.
Isso não significa que o filme não tenha momentos eficientes de drama, como na cena de Madalena com as cinzas do pai próxima ao final ou a cena do parto que reforça o senso de comunidade com a equipe de filmagem que, apesar de tudo, funciona como uma família ou sistema de suporte para a protagonista.
Excêntrico e bem humorado, Morte e Vida Madalena reflete sobre
nossa relação com perdas, com recomeços e com a arte.
Nota: 7/10
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