Alimentação coletiva
O documentário foca em três mulheres responsáveis pela cozinha solidária do MTST na periferia de Brasília: Socorro, Jurailde e Bizza. Acompanhamos o cotidiano delas na cozinha enquanto se preparam para servir um número grande de pessoas no dia da posse de Lula em janeiro de 2023. Somado ao cotidiano na cozinha e da preparação para o evento, o documentário conta as histórias pessoais dessas mulheres e também das tensões em Brasília por conta de movimentos golpistas que não aceitavam o resultado das eleições de 2022.
Vemos o trabalho que há em produzir refeições gratuitas para um número grande de gente, o esforço coletivo dentro da cozinha e toda a logística necessária para conseguir um espaço e transportar ingredientes. Senti falta, no entanto, que o documentário explorasse mais como eles conseguem a comida, como tudo é financiado (a cartela final responde parte disso ao dizer que passaram integrar políticas públicas, mas muito pouco é mencionado sobre como era feito antes disso) e como seria possível para alguém interessado contribuir.
O mais interessante é o tempo que o documentário se dedica a ouvir as histórias das mulheres que trabalham na cozinha e as constrói como personagens com múltiplas facetas, que nunca são reduzidas ao seu trabalho ou à sua participação na luta por moradia. Aprendemos sobre sua formação política, suas trajetórias pessoais, relações familiares e seu cotidiano. É um retrato de participantes do MTST com mais nuance que qualquer discurso da mídia tradicional sobre o movimento.
Ouvimos de uma delas que o senso de insatisfação a fez votar em Bolsonaro em 2018 e como aos poucos ela foi aprendendo mais sobre o funcionamento do Estado, das politicas públicas e as muitas variáveis que envolvem os vários níveis de desigualdade no Brasil. É uma fala que contribui para entender como discursos reacionários mobilizam as camadas mais humildes ao explorar seu senso de revolta pela inação de poderes públicos em relação a suas demandas, mesmo que não pretendam melhorar a vida dessas pessoas. Outra entrevistada narra como divide suas responsabilidades entre o MTST e a igreja evangélica da qual faz parte, quebrando a generalização da população evangélica como inerentemente conservadora ou reacionária.
Em muitos momentos, porém, o documentário parece desviar do seu foco na cozinha solidária para falar mais sobre a posse de Lula e as várias tensões em Brasília nos dias que a antecederam, como se o documentário fosse sobre isso e não sobre uma ação da cozinha no contexto da posse. Claro, é compreensível o peso simbólico que essa posse representa para o movimento e como as ameaças de bomba e outras complicações podem reverberar na ação da cozinha solidária, mas em muitos momentos o documentário parece estar falando apenas da posse e dessas complicações, não necessariamente do MTST. Ocasionalmente a montagem constrói oposições no plano imagético ao cortar de imagens de casas de tijolo sem reboco ou casebres de madeira para as formas modernas e angulosas dos prédios públicos em Brasília, uma evidência das desigualdades ainda persistentes e como há ainda muita luta pela frente.
Não Existe Almoço Grátis faz um registro importante do trabalho
social feito pelo MTST e das pessoas que cuidam de sua cozinha solidária,
embora às vezes perca o foco do que é seu objeto principal.
Nota: 7/10
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