quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Crítica – Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe

 

Análise Crítica – Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe

Review – Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe
Na história da Odisseia, em voga nos últimos tempos por conta do filme do Christopher Nolan, bruxa Circe mantem Ulisses (ou Odisseu, dependendo da tradução) em sua ilha ao transformar seus soldados em animais. Ela também é responsável por colocá-lo de volta em seu caminho ao apontar ele na direção de um oráculo. A bruxa é, portanto, um obstáculo e um guia ao personagem e essa dualidade é evocada em Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe na figura de Gigi Andalucia e na relação dela com Hathaway Noa.

Balada do jovem soldado

Depois dos eventos do primeiro filme em que descobrimos que Hathaway Noa é Mafty Navue Erin, líder de um movimento contrário à Federação e no qual ele recuperou o Xi Gundam, agora Hatahway começa sua cruzada contra o governo ao planejar um ataque contra uma conferência na Austrália. Enquanto isso, Gigi usa suas habilidades newtype para ver o futuro e manejar tanto Hathaway quanto o oficial Kenneth Sleg para o que ela quer.

É curioso como muita gente se referiu ao primeiro filme e a esse daqui como um Gundam que fala de política, sendo que a franquia sempre foi sobre política, mas que não conhecia muito achava que era só sobre robôs gigantes saindo na porrada. Sim, Hathaway é mais um thriller político, mas nada de suas discussões políticas é inédito. Na verdade, muito do que acontece aqui dialoga com várias ideias presentes em várias séries do Século Universal (a continuidade da série original) ao ponto em que é difícil acompanhar tudo que acontece se você não tem familiaridade com outras narrativas do Século Universal, dá série original passando por Zeta Gundam, Char’s Counterattack ou Gundam Unicorn. Com isso, não é um filme muito acessível para novatos.

A força está no seu comentário sobre a corrupção do poder e como a Federação da Terra, com seu poder unificado sobre os planetas e as colônias continua cultivando desigualdades mesmo depois que eventos como a rebelião de Char (em Char’s Counterattack) e a busca pela Caixa de Laplace (em Gundam Unicorn) mostraram a importância da cooperação mútua. É uma estrutura de poder fundamentalmente corrupta na qual quem está no topo não quer abrir mão de seus privilégios. Mesmo a Terra tendo sido recuperada, o planeta virou um balneário para os ricos e continua a ser explorada. A humanidade não aprendeu nada e Hathaway quer mostrar isso, lembrando que a expansão para o espaço talvez seja melhor do que manter as colônias trabalhando para sustentar a opulência de poucos.

Hathaway é um personagem fascinante por conta de suas várias contradições. Ele é tratado como um herói de guerra, mas sua única morte durante a batalha da rebelião de Char foi fogo amigo. Ele lidera uma revolução, mas sua proximidade com Gigi o faz pensar em outras possibilidades de futuro. Ele tem razão nas críticas que faz ao governo, no entanto, é movido mais por ressentimentos pessoais do que apenas por ideais.

Marcas do passado

Todos esses conflitos culminam na batalha final entre ele e o Gundam Alyzeus pilotado por Lane Aim. Quando Hathaway destrói a unidade de voo do inimigo e revela a versão de produção em massa do Nu Gundam dentro dele, Hathaway tem um episódio de estresse pós-traumático que o lembra da batalha em Char’s Counterattack e dos vários traumas que carrega por conta disso, da relação com o pai e com Amuro Ray.

A batalha é intensa tanto pelo poder de destruição dos dois Gundams quanto pelo turbilhão de emoções em Hathaway. Mais do que em confronto com Lane, Hathaway está em conflito com ele mesmo. Ele viveu à sombra da grandeza do pai, Bright Noa, e de Amuro, nunca fazendo jus aos feitos deles. Ao mesmo tempo, Hathaway ressente os dois porque nunca usaram o destaque e liderança que exerciam para transformar as coisas, por mais que vissem a corrupção da Federaçao eles sempre tentavam consertar o sistema de dentro ao invés de pô-lo abaixo. Ele odeia Char por tê-lo afastado de Quess, por quem era apaixonado, mas acabou politicamente mais próximo de Char do que qualquer outra pessoa e ressente a si mesmo por isso. Não é à toa que em sua conversa com Amuro (que não fica claro se é um lance newtype e ele está mesmo conversando com a consciência de Amuro ou se é tudo na cabeça dele) Hathaway ouve de Amuro que ele adotou a mesma ideologia daquele que tirou Quess dele. Tudo isso, porém, só impacta se você tiver conhecimento prévio desse universo. Eu tive que pausar o filme e passar uns vinte minutos resumindo o Século Universal para minha esposa para ela entender o que eram todas aquelas pessoas e eventos referenciados.

A paixão mal resolvida por Quess (que nunca foi tão interessada assim nele, demonstrando mais interesse em Amuro ou Char) é, talvez o que conecta Hathaway a Gigi. O sentimento que ele tem por ela é simultaneamente um risco e uma possibilidade de libertação. Ela o distrai de sua cruzada e o faz perder o foco, muitas vezes desviando de sua missão por conta dela, Por outro lado, viver o romance com Gigi talvez poderia resolver muito de sua instabilidade emocional e representa a possibilidade de uma vida de paz ao invés de tentar conduzir uma revolução para lidar com sua culpa e outros sentimentos mal resolvidos. Tê-la ao seu lado poderia ajudar Hathaway a ver outras possibilidades de futuro ou até usar as habilidades dela para guiar sua revolução na direção correta. Por isso o paralelo com a bruxa Circe funciona tão bem.

Apesar dos méritos, o filme sofre com alguns problemas de ritmo, principalmente na metade. A impressão é que o miolo anda em círculos repetindo ideias que já conhecemos, tanto no lado de Gigi, conforme acompanhamos seu cotidiano de luxo que mostra como a elite da Terra vive, quando do lado de Hathaway que fica indo de uma discussão operacional para outra. O primeiro filme fluía melhor enquanto esse aqui parece mais longo do que realmente é.

Apesar de problemas de ritmo e de ser pouco acessível para quem não conhece muito de Gundam, Gundam Hathaway: The Sorcery of Nymph Circe apresenta um competente drama político que confronta décadas de construção de universo e de personagens.

 

Nota: 7/10


Trailer

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