Encontros no fim do mundo
A trama se passa em 2012, ano em que houve, no mundo real, um incêndio na Estação Antártica Comandante Ferraz. Pesquisadores e militares passam meses isolados na estação e a narrativa começa quando uma nova leva de pessoas chega para trabalhar no local e entre eles está a jovem cientista Inês (Marina Ruy Barbosa). Depois de uma festa de confraternização Inês é encontrada desacordada do lado de fora da base e a médica Marina (Leandra Leal) encontra indícios de estupro na jovem. A subcomandante Elizabeth (Andrea Beltrão) assume a investigação por não confiar no comandante Barros (Antonio Calloni), cuja conduta tem se tornado cada vez mais errática nos últimos tempos.
É uma trama típica de investigação, com um crime acontecendo em um ambiente confinado e uma investigadora que precisa interrogar suspeitos um a um até descobrir o culpado. O primeiro problema do filme é como ele é inconsistente na condução do mistério. Se por um lado ele consegue plantar elementos que servirão para justificar algumas reviravoltas mais a frente, como o motivo da conduta de Barros ou a origem de Santiago (Henrique Barreira), por outro lado apresenta muitos elementos pouco convincentes. A despeito do exterior da base ser monitorado por câmeras, Elizabeth só lembra de consultar as imagens mais de um dia depois da investigação já ter começado, o que não faz muito sentido.
Algumas ações de personagens parecem acontecer mais para reforçar o mistério ou ampliar as suspeitas sobre algum personagem do que como escolhas orgânicas daqueles indivíduos. Não há, por exemplo, uma motivação convincente para que Inês tenha tentado dar em cima de Vicente (Lázaro Ramos) no seu primeiro dia na estação, principalmente pela recepção pouco amistosa que teve, sendo hostilizada ou subestimada pelos colegas homens, além de ter visto que Vicente tinha uma relação problemática com a médica Marina. A ação de Inês parece acontecer mais para ampliar as suspeitas sobre Vicente (um suspeito tão óbvio que fica evidente que é um despiste) do que como algo que faz sentido para a personagem.
Incomoda também o modo amador com o qual Elizabeth lida com a investigação apesar da trama estabelecê-la como uma oficial experiente. Sim, ela não é uma detetive, mas é difícil crer que oficiais destacados para comandar uma base, ainda mais uma base remota, não tenham conhecimento de qualquer protocolo ou procedimento formal para lidar com crimes cometidos dentro da base e precisem fazer tudo com um improviso que certamente favoreceria o criminoso sair impune.
Crime delicado
Mesmo quando o texto falha, Andrea Beltrão é sempre competente ao nos apresentar a compaixão e senso de justiça de Elizabeth, nos fazendo perceber os conflitos internos da personagem mesmo quando ela está em silêncio. Ela é auxiliada por outras boas performances, como a de Leandra Leal como uma médica que lida com suas próprias questões de abuso, Antonio Calloni como um comandante que guarda para si suas fragilidades, colocando em risco o resto da base, e Lázaro Ramos como um homem física e psicologicamente abusivo, mas que tem tanta certeza da própria retidão moral e de ser um “bom homem” que nunca assume a responsabilidade pelo que faz. Ele é um sujeito detestável, mas nunca caricato, sendo o tipo de macho escroto que todo mundo já teve contato alguma vez. Marina Ruy Barbosa, por outro lado, sempre soa um tom acima do resto das interpretações e parece estar em um filme diferente do resto do elenco.
O modo como filme trata a questão do abuso muitas vezes cai em diálogos excessivamente didáticos, que soa como se o filme estivesse palestrando para o espectador ao invés de interações naturais dos personagens. Esse tom expositivo permeia muito dos diálogos, com os personagens constantemente dizendo o que pensam ou como se sentem ao invés de apresentarem isso em suas ações. O fato da trama se passar em 2012 acaba fazendo pouca diferença além da alusão ao incêndio real que aconteceu na base.
O modo como filme analisa a questão do abuso parece tratar a questão a apenas os atos diretos de violência como o estupro a Inês ou as agressões de Vicente a Marina, passando por alto para as estruturas de poder e cumplicidade masculina que facilitam que isso aconteça ou formas mais sutis de assédio. É curioso, por exemplo, como as condutas de Vicente e Viriato (Adélio Lima) de irem bater na porta de Inês depois dela ido se deitar e provavelmente estar inconsciente de bêbada (além de ser alguém de patente inferior à deles) não são apresentadas como algo passível de ação disciplinar. Uma vez que eles são descartados como suspeitos, essa conduta não é mais analisada.
O resultado é um tratamento
simplório a respeito das questões de abuso e violência contra a mulher,
embalado por uma trama de mistério irregular a despeito de um trabalho dedicado
de boa parte do elenco.
Nota: 4/10
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