Futuro reverso
A narrativa se passa em 2093. Kuve (Ibrahim Joseph) viaja ao reino de Umata na costa da África para fazer um documentário sobre os efeitos de uma guerra ocorrida em 2070 que culminou com o lugar banindo a tecnologia para tentar resolver a depressão causada pela dependência tecnológica, se reestruturando em reinos retrofuturistas. Lá ele conhece Mumbi (Shandra Apondi) e a recruta para ajudar com seu documentário. Mumbi desafia Kuve a fazer um filme sem usar IA e aos poucos os dois vão se apaixonando, mas Mumbi está prometida em casamento para um príncipe de um reino vizinho.
Inicialmente Kuve se surpreende que as pessoas que vivem nesse reino sem tecnologia não são tristes como esperava e começa a editar as imagens que capta para dar a impressão de que os sujeitos filmados são de fato mais tristes, tentando forçar a realidade filmada à sua visão de mundo ao invés de estar aberto à realidade que se apresenta a ele. Considerando que o personagem vem do que seria o equivalente à Suíça nesse universo, seria possível entender também que o ímpeto de Kuve em registrar Umata como um lugar retrógrado em que todo mundo é triste serve como uma crítica jocosa ao modo como o norte global muitas vezes registra o continente africano e o enxerga meramente como um lugar atrasado de gente que vítima desse atraso.
Também reflete sobre o papel da IA na produção artística, com Mumbi provocando Kuve sobre a IA só ser capaz de repetir o que já foi feito, não sendo capaz de originalidade ou de captar as nuances ou os pequenos momentos da vida que dão singularidade. A personagem guia Kuve a perceber o que falta em seu cinema e torna compreensível o motivo deles se apaixonarem. Kuve aprende a ver o mundo de outro modo com Mumbi e ela aprende com ele como usar o cinema e o poder que isso exerce.
Por outro lado, não deixa de ser paradoxal que o filme critique IA, mas ainda assim use elementos gerados por IA na composição de seu universo, algo similar ao que aconteceu no recente filme brasileiro Futuro Futuro, o que resulta em algum grau de contradição entre a construção fílmica e sua mensagem. Aqui as paisagens retrofuturistas misturam uso de IA com outras técnicas mais tradicionais como rotoscopia ou uso de chroma key, com paisagens reais do Quênia o que provavelmente contribui para que os reinos que o filme retrata tenham alguma personalidade própria ao invés de parecerem o típico chorume de IA.
Romance e memória
Conforme a trama progride, a narrativa passa a ser também sobre o romance entre Kuve e Mumbi e como eles estão fadados a se separarem. Quando se reencontram anos depois Kuve é um cineasta renomado ao redor do mundo e Mumbi é uma princesa casada com o príncipe Prince (Samson Waithaka). O reencontro faz Mumbi e Kuve perceberem o quanto é forte a conexão entre eles, mas isso obviamente gera problemas para ela e seu ciumento marido. Kuve mais uma vez tenta usar o cinema para se aproximar dela, mas dessa vez as coisas podem não funcionar da mesma forma que quando os dois eram jovens.
O desfecho do filme se torna uma ponderação do cinema como um repositório de memórias e um documento das vidas das pessoas registradas pela câmera. Ele questiona como as imagens podem ser usadas para falar sobre vida de alguém e refletir quem uma pessoa era. São ideias que se conectam com a vivência pessoal do diretor, o suíço-queniano Damien Hauser, que fez o filme depois de perder o irmão mais novo. O final pondera justamente como as imagens do cinema podem funcionar nessa interseção entre luto e memória, entre a recuperação do passado e interpretação disso para o futuro.
Como outros temas que o filme
trata, nem tudo se amarra harmonicamente na trama, mas não deixam de ser ponderações
sensíveis sobre nossa relação com a arte. O resultado é uma bricolagem de gêneros
e ideias que por vezes podem não ser completamente bem estruturadas, mas tem
carisma e sentimento suficiente para nos envolver.


Nenhum comentário:
Postar um comentário