sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Crítica – O Afinador

 

Análise Crítica – O Afinador

Review – O Afinador
Um afinador de pianos que usa sua capacidade auditiva para arrombar cofres é uma ideia tão bacana que me pergunto porque ninguém pensou em um filme assim antes deste O Afinador. Apesar da premissa envolver roubo, a história é menos estruturada ao redor de grandes assaltos cheios de tensão ou adrenalina e mais em um senso de realismo cotidiano.

Escuta atenta

O filme é protagonizado por Niki (Leo Woodall), um jovem afinador de pianos que trabalha como aprendiz do veterano Harry (Dustin Hoffman). Niki tem uma hipersensibilidade auditiva, usando protetores auriculares o tempo todo, mas sua capacidade facilita seu trabalho como afinador. Um dia, trabalhando no piano de um ricaço, ele vê os seguranças do local tentando penetrar no cofre. Os suspeitos apenas dizem que estão movendo os itens do cliente para um lugar mais seguro, mas Niki não acredita na conversa. Ele, no entanto, decide usar sua audição para abrir o cofre por se incomodar com o barulho que os ladrões estão fazendo. O líder do grupo se surpreende com o talento de Niki e deixa seu cartão com ele. Quando Harry é internado por problemas de saúde e a esposa dele, Marla (Tovah Feldshuh, de Crazy Ex-Girlfriend), fica sem ter como pagar as despesas médicas, Niki decide aceitar a oferta dos ladrões e se torna um arrombador de cofres.

Chama atenção o naturalismo com o qual tudo é filmado. Não é como se fosse um thriller explosivo, cheio de momentos planos mirabolantes cuja tensão vem de ver todas as variáveis do plano dando certo ou não. Aqui há um interesse no cotidiano de Niki, em entender quem ele é, o que o motiva e mesmo quando ele se envolve com crimes é tudo bastante pé no chão, com ele acompanhando um grupo de gângsteres que tem uma empresa de segurança e usam isso para roubar seus clientes. Niki simplesmente entra, abre os cofres e recebe a parte dele.

A tensão emerge da corrida contra o tempo, de abrir o cofre e sair antes que os donos da casa voltem e o filme faz um bom trabalho de criar obstáculos criveis para o progresso do protagonista. Por conta de sua sensibilidade auditiva, o processo de Niki é atrapalhado pelos membros da gangue assistindo vídeos no celular, por sons de animais e até por aviões que sobrevoam um imóvel constantemente. Assim, o filme dota essas cenas de um senso de urgência sem abrir mão do senso de realismo e cotidianidade que constrói para a narrativa.

Esse senso de realismo se dá também através dos diálogos. Muito do passado de Niki ou a relação dele com Harry e a esposa é mais inferido pelas ações dos personagens do que por diálogos expositivos com longas explicações. Mesmo quando Niki fala sobre seu problema auditivo com a namorada, a pianista Ruthie (Havana Rose Liu de Bottoms), ele menciona por alto o que aconteceu, mais próximo de como alguém contaria no mundo real ao invés de uma longa e detalhada explicação para alguém com quem começou a se relacionar. É um filme que confia no espectador para prestar atenção e entender as dinâmicas que estão em jogo, o que é cada vez mais raro em uma era em que filmes são pensados para serem assistidos enquanto as pessoas mexem nos celulares e colocam cada vez mais diálogos explicando a trama ou o que os personagens pensam e sentem.

Como muito da história gira em torno da capacidade auditiva do protagonista, o som é um elemento proeminente na produção e é usado para nos colocar em muitos momentos no “ponto de escuta” de Niki. Como o protagonista passa o tempo todo com protetores auriculares, sua percepção de ruídos é abafada. A escolha mais óbvia para fazer isso seria construir uma paisagem sonora em que os sons ao redor soassem diminuídos, mas manter isso ao longo do filme seria esquisito, prejudicaria a inteligibilidade dos diálogos e provavelmente faria uma parcela dos espectadores acharem que tem algo errado com o som do cinema ou de sua tv.

Ao invés disso, o que o filme faz é exacerbar os sons e ruídos ambientes, colocando-os mais altos do que realmente são de modo a transmitir como Niki os percebe. Nos momentos em ele está sem qualquer proteção, o som fica ainda mais alto, cheio de efeitos de distorção e microfonia para nos dar a sensação de algo estourando os ouvidos do protagonista. Em outros momentos, quando Niki coloca os protetores maiores, há um abafamento do áudio para mostrar a diferença entre os diferentes equipamentos que ele usa.

O clímax tem algumas coincidências convenientes envolvendo a namorada de Niki e um dos itens que ele roubou para tentar aumentar os riscos nos quais o protagonista se envolve. Ao menos consegue entregar um desfecho satisfatório ao encerrar com a ironia do protagonista ter a audição piorada depois de sofrer um ataque e isso resolver sua hipersensibilidade auditiva.

Entregando um thriller mais sóbrio, O Afinador tem um trabalho atento na construção de sua paisagem sonora e no senso de realismo do seu universo ficcional.

 

Nota: 7/10


Trailer

Nenhum comentário: