terça-feira, 20 de outubro de 2026

Crítica – Anniversary: Mudança Radical

 

Crítica – Anniversary: Mudança Radical

Review – Anniversary: Mudança Radical
Como chegamos a esse ponto em que vários países vivem um momento de ascensão da extrema-direita? Não é como se não houvessem sinais, mas durante muito tempo eles foram ignorados ou não foram levados a sério como uma verdadeira ameaça. Anniversary: Mudança Radical pondera exatamente sobre como o fascismo cozinha as pessoas em banho maria até ser tarde demais.

Divisão familiar

A trama é focada em Ellen (Diane Lane) uma professora universitária casada com Paul (Kyle Chandler, de Lanternas). No aniversário de 25 anos de casados, seu filho caçula, Josh (Dylan O’Brien), chega em casa com a nova namorada Elizabeth (Phoebe Dyvenor). Liz foi aluna de Ellen e nesse período defendeu ideias fascistas de unir o país ao adotar um sistema de partido único e ejetando a maioria das garantias democráticas. Ellen fica assustada com alguém assim estar tão próxima do filho, principalmente por Liz parecer interessada em usar os contatos de Josh no universo editorial para publicar suas ideias. O tempo passa e o livro de Liz é publicado, se tornando um sucesso e ganhando seguidores.

O filme explora como esse tipo de ideologia se apresenta com certa desfaçatez, nunca dizendo que dissenso é inaceitável ou que não tolera questionamentos, é sempre enquadrado sob um viés positivo, de promover união, de acabar com divisões internas e melhorar a vida de todo mundo. Liz incorpora isso com uma postura sonsa, sempre provocando a sogra e as cunhadas com suas ideias radicais, mas se fazendo de coitada sempre que é rechaçada como se eles fossem os intolerantes e não ela. Phoebe Dyvenor é tão boa e tão verdadeira em se fazer de vítima a despeito de ser ela quem prega um regime autocrático que é difícil não ficar com raiva de sua personagem. Dylan O’Brien é igualmente detestável conforme Josh se torna cada vez mais confortável com os ideais fascistas da esposa e o poder que passa a exercer.

O foco é o microcosmo da família e não nas movimentações políticas maiores ao redor do país, mostrando como a família é dividida aos poucos. As ideias de Liz e Josh criam conflitos com as irmãs Anna (Madeline Brewer, de O Conto da Aia) e Birdie (Mckenna Grace), sem mencionar que Liz amplia seu domínio sobre Josh ao explorar suas frustrações e ressentimentos por ser um artista medíocre e subestimado pela família. Essas discussões familiares são bem desconfortáveis, principalmente pelo modo como o filme dilata os silêncios e nos deixa marinar nelas, não usando nem música nesses momentos. São momentos que impactam pelo modo como podemos relacionar com o nosso cotidiano, sendo provável que muitos de nós já tenhamos experimentado situações assim nos últimos anos.

Política distante

Não deixa de ser curioso, no entanto, que um filme tão sobre política faça tanto esforço para evadir de qualquer discussão real sobre a política. Em uma das primeiras cenas Ellen diz que não é de direita ou esquerda, se vendo como livre pensadora, embora sua postura progressista deixe claro que ela provavelmente votou nos Democratas nas últimas eleições presidenciais. É como se o filme tivesse medo de melindrar parte da audiência ao colocar a personagem para assumir explicitamente um lado, principalmente por ser um comentário sobre a política contemporânea nos EUA e nesse momento o fascismo tem uma filiação política e partidária muito clara por lá.

Eu entendo que o foco é na erosão das relações familiares e como o fascismo explora pequenas frustrações e ressentimentos para criar divisão e quebrar o ânimo das pessoas, mas ainda assim a construção da ascensão desse autoritarismo precisa soar crível e isso não acontece aqui. Como, por exemplo, Liz consegue que sua mensagem alcance um amplo espectro da população independente de raça, gênero ou classe quando há um viés claramente autoritário nelas. É estranho também que o discurso de união é muito abstrato quando historicamente essa união se constrói em cima de um inimigo comum (independente desse inimigo ser real ou não).

É estranho também que apesar de estar no epicentro do regime e ter muito poder nas mãos, Josh não tenha qualquer controle sobre como as autoridades tratam seus pais, sendo que regimes autoritários e fascistas costumam andar de mãos dadas com a corrupção. Sim, é compreensível que ele mantenha a perseguição contra Anna por ressentimento pela irmã ser uma artista que tinha sucesso, talvez seja possível pensar que o tratamento aos pais se dê na mesma chave, mas nesse caso o filme não explicita isso. É como se a produção explorasse apenas uma ideia abstrata de fascismo, completamente divorciada da prática real de como essas estruturas de poder operam e isso enfraquece a mensagem que a narrativa visa contar.

Outro problema é que alguns personagens não tem o devido tempo de tela para desenvolver seus conflitos. Se, por um lado, é crível como um artista medíocre e frustrado como Josh vai aderir ao fascismo para finalmente ter o poder e reconhecimento que tanto almejou, por outro o a guinada da irmã Cynthia (Zoey Deutch) de advogada idealista para uma niilista paralisada por depressão não soa plenamente convincente.

Em meu tempo com o filme e enquanto pensava no que escrever o recente Digger me veio bastante à mente já que esse filme tem muito do que Iñarritú critica em Digger sobre sátiras e distopias contemporâneas. É um filme que aponta o problema e traz uma catarse fácil ao explorar essas fraturas familiares, mas falha em construir um pensamento crítico capaz de trazer uma reflexão que guie a ação, em parte por deixar pouco à interpretação do espectador e por guiar seu entendimento a todo momento (algo que Digger também faz). É diferente, por exemplo, do que fez Jafar Panahi no excelente Foi Apenas um Acidente (2025), no qual muito fica aberto à interpretação do espectador, deixando que ele reflita e se posicione a respeito do que assistiu.

Anniversary: Mudança Radical parte de uma premissa interessante e constrói alguns momentos eficientes de tensão sustentados pelo elenco competente, no entanto, é estranho que algo que se pretende a um thriller político pareça tão avesso a encarar a prática política por trás das ideias que trabalha e termina em um retrato relativamente superficial sobre a ascensão do autoritarismo.

 

Nota: 5/10


Trailer

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