terça-feira, 29 de setembro de 2026

Crítica – Digger

 

Análise Crítica – Digger

Review – Digger
Eu tenho uma relação de altos e baixos com o diretor Alejandro Iñarritu. Se por um lado aprecio e energia e a encenação cuidadosa de produções como Birdman (2015), por outro me incomodo com seus arroubos de autoindulgência que resultam em produções como Bardo (2023) que se acham mais espertas do que realmente são. Esse Digger me chamou atenção por tirar Tom Cruise de sua zona de conforto. Por anos o astro esteve preso em filmes de ação (como Missão Impossível e Jack Reacher)  em que repetia a mesma persona e Digger era uma chance de fazer algo diferente e explorar o potencial que o ator demonstrara em produções como Magnólia (1999), Colateral (2004) ou até mesmo em Trovão Tropical (2008).

Senhores do caos

A narrativa é focada em Digger Rockwell (Tom Cruise) magnata do petróleo que recebe de seus funcionários a notícia que suas operações na Groelândia causaram a separação de uma geleira que periga destruir a Europa. Digger notifica o caquético presidente Compson (John Goodman), mas entre fazer a coisa certa e agarrar uma oportunidade de maiores lucros, Digger opta por continuar ganhando dinheiro.

Tom Cruise traz sua energia habitual a Digger, um homem bruto, tosco, vulgar e ególatra que não aceita ser contrariado e tenta moldar a realidade para atender a seus interesses. Há algo de exagero e de caricatural em sua composição, mas são escolhas que soam propositais dentro do clima de sátira que o filme propõe, ainda mais depois que certos desdobramentos revelam diferentes camadas de realidade na narrativa e elementos de metalinguagem. Cruise transita com naturalidade entre as diferentes personas contidas em seu protagonista, entregando a performance mais interessante em muito tempo. O presidente vivido por John Goodman é um sujeito instável, histriônico, não muito esperto e quase com o pé na cova, mal conseguindo se manter desperto em certas ocasiões e cagando nas próprias calças (não muito diferente do atual presidente dos EUA se certos boatos estiverem corretos). É um personagem que opera em paradoxo, já que apesar de ir em direção ao exagero e ao caricatural é tão próximo de certas figuras da arena pública contemporânea que perde seu poder de sátira.

Muito do humor vem de reconhecermos o absurdo de figuras tão ineptas estarem ditando os rumos da humanidade e que o mesmo acontece no mundo real. É difícil não rir de nervoso quando Digger e seu principal cientista tentam convencer o presidente da ameaça que a geleira à deriva representa apenas para ser confrontando pelo olhar beócio de um gabinete presidencial formado por um bando homens brancos velhos caquéticos. É difícil não rir do puro absurdo de certas situações, como a cena em que um moribundo presidente, que mal consegue ler o texto diante dele, ordena um bombardeio a um iceberg com bombas contendo frases como “foda-se a natureza”, embora a realidade em que vivemos dilui um pouco a implausibilidade desse absurdo considerando que o atual presidente dos EUA já sugeriu usar bombas atômicas para tentar parar furacões (o que não funcionaria, importante explicar).

Na verdade o filme em si reflete sobre a produção recente de filmes de alto orçamento que se propõem a satirizar temas como a mudança climática ou a ascensão do autoritarismo. Há uma guinada na trama que insere uma história dentro da história e nesses momentos a narrativa parece pegar o espectador pela mão e começa a mastigar seus temas de modo excessivamente didático, como se não confiasse no público ou considerasse sua construção narrativa tão complexa (não é) que seria difícil de entender ou acompanhar.

É uma pena, porque o filme levanta questões interessantes em várias frentes. Ele pondera como mantemos no poder figuras que se importam mais com seus próprios lucros do que com o coletivo, sujeitos minúsculos, despreparados e ignorantes. Aponta, no entanto, a conivência de várias instâncias com essas figuras, que se beneficiam das ações desses sujeitos e partilham seus lucros sem sujar as mãos diretamente. Traz ainda uma ponderação sobre como personalizar os problemas da sociedade em uma única figura, como se estivéssemos malhando um judas, é uma maneira simplória de olhar para a questão.

Metalinguagem loquaz

Ao inserir cenas que mostram uma história dentro da história, o filme perde parte de sua força. Primeiro pelo já citado modo como o filme mastiga sua mensagem. Segundo porque insere algumas subtramas que fazem pouca diferença. O sumiço da filha do protagonista acrescenta pouco à narrativa e parece estar ali apenas pela revelação da identidade do personagem esquisito interpretado por Jesse Plemons (que como sempre é muito bom em fazer sujeitinhos bizarros).

Há nessa metalinguagem um grau de autoindulgência de Iñarritu, como se ele não conseguisse se conter em nos mostrar como ele constrói sua encenação com efeitos práticos, gruas e truques de perspectiva. Sim, é tudo muito bem construído e tecnicamente impressionante, mas ao chamar atenção para esses mecanismos de modo tão explícito soa como se ele estivesse desesperado para que percebêssemos sua competência. É mais interessante quando o filme não chama tanta atenção para sua construção dramatúrgica, como o modo que incorpora ruídos ambientes, como sons de relógio, de toques de celular ou de goteiras na música criando uma sinfonia caótica que transmite a instabilidade constante na qual os personagens estão situados.

A apresentação de um segundo nível de realidade leva a algumas reviravoltas razoavelmente previsíveis e uma tentativa de crítica que não se efetiva por completo. Ao longo da trama vemos o filme apresentar considerações sobre os problemas de uma sátira sem nuance, que visa uma catarse pelo riso sem, no entanto, estimular o pensamento crítico do espectador. É fácil entender de onde Iñarritu tira essas ideias, considerando a produção de filmes como Não Olhe Para Cima (2021) ou as últimas temporadas de The Boys que se contentam em apontar o óbvio e rebaixar certas figuras públicas sem trazer qualquer reflexão que ajude o espectador a entender e agir sobre os problemas satirizados.

A imagem final das pessoas saindo do teatro depois de rirem catarticamente de Digger para caminharem em meio a ruínas distópicas que parecem saídas diretamente de 1984 (com direto a uma orwelliana pichação dizendo “submissão é liberdade”) mostra como esse tipo de sátira simplória apenas facilita a manutenção do estado das coisas ao invés de instigar as pessoas a conclamarem por mudança. Parece um desfecho sombrio, feito para mandar o público para casa com um gosto amargo na boca e refletir sobre isso, no entanto, também levanta a pergunta: o que Iñarritu faz de tão diferente aqui para se colocar acima do tipo de sátira feita por poderosos para dar a ilusão de subversão? Afinal estamos falando de um filme de mais de 100 milhões de dólares financiado por um grande conglomerado midiático (a Warner Bros, que por sinal está para ser comprada por aliados do atual presidente dos EUA) e que termina apontando um problema para produzir uma catarse de maneira similar ao que ele critica.

Mais que isso, a ideia de que a sátira só tem valor se produzir uma mudança no mundo real parece apontar para uma visão utilitarista da arte, como se tivesse obrigação de servir para alguma coisa. Nesse caso deveríamos pensar que Doutor Fantástico (1964), produção à qual Digger é bastante tributário, fracassou porque não incutiu na sociedade o sentimento anti guerra pretendido por Kubrick? É culpa do artista se sua obra não muda o mundo a despeito dele ter essas ambições ou não? São questões interessantes e que o filme não tem qualquer interesse de responder, caindo na armadilha de repetir exatamente aquilo que critica ao oferecer um desfecho que impacta ao apontar um problema de maneira superficial sem agregar um pensamento crítico a ele. Como a audiência de dentro do filme, provavelmente sairemos da sala de cinema para nossa distopia cotidiana sem nada que nos faça querer mudar nossa realidade, apenas confortados por termos rido durante duas horas dos homens brancos toscos que destruíram (e ainda destroem) nosso planeta.

A impressão é que Iñarritu tentou fazer uma espécie de Doutor Fantástico (1964) das mudanças climáticas, mas Digger se perde na certeza da própria genialidade ficando com muito pouco a dizer a despeito de conseguir oferecer algumas boas performances, momentos divertidos e uma intrincada construção visual.

 

Nota: 6/10


Trailer

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