quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Crítica – Por Detrás das Palmeiras

 

Análise Crítica – Por Detrás das Palmeiras

Review – Por Detrás das Palmeiras
Triângulos amorosos, bem como conflitos de classe e etnia são uma constante no cinema. A produção marroquina Por Detrás das Palmeiras mistura drama e suspense para narrar uma história sobre abismos que separam as pessoas, como eles podem ser intransponíveis e uma crença do contrário resultar em tragédia.

Relações de poder

A narrativa se passa em Marrakesh, capital do Marrocos. Mehdi (Driss Ramdi) trabalha com o pai em seu negócio de construção e está prestando serviço para uma família de franceses quando conhece Marie (Sara Giraudau), a filha dos donos da propriedade. Marie parece se interessar por ele, mas Mehdi namora a muçulmana Salma (Nadia Kounda). Salma se recusa a fazer sexo com Mehdi, dizendo que só podem fazer isso depois que se casarem. Como Marie demonstra interesse nele, Mehdi vai para cama com ela. O protagonista tenta terminar o relacionamento com Salma, dizendo que não consegue mais esperar para terem intimidade, então Salma decide transar com ele mesmo não estando casados. Ainda assim, Mehdi deixa Salma de lado e continua a passar tempo com Marie apreciando seu estilo de vida de classe alta e a possibilidade dela conseguir um emprego para ele na prestigiosa empresa de um amigo da família. As coisas se complicam quando Salma o procura e diz que está grávida dele.

A questão de classe já aparece no primeiro encontro com Marie. Mehdi está dentro de uma piscina vazia quando Marie e os pais chegam, eles olham Mehdi de cima enquanto ele está em um buraco abaixo dos franceses. Mais adiante, Mehdi e Marie se beijam na piscina, mas ela está sentada na beira enquanto ele está em pé dentro da piscina, mais uma vez colocando os dois em desnível, algo similar ao que Bong Joon-Ho fez anos atrás em Parasita (2019). Esses elementos visuais já dão uma pista de que não importa o que o protagonista faça, ele sempre estará abaixo de Marie e sua família, alguém de uma casta inferior sempre visto de cima, nunca como igual e o erro de Mehdi é não perceber isso. 

Na verdade, Mehdi comete vários erros, ficando cheio de si por estar namorando uma garota rica, negligenciando o trabalho com o pai e maltratando Salma mesmo que ela tenha feito um grande sacrifício por Mehdi acreditando que ele de fato a amava. Quando Salma o informa da gravidez o protagonista ainda tem a audácia de questionar se era mesmo dele. Assoberbado pela perspectiva de ascensão social, o protagonista sacrifica tudo que tinha crendo que poderia ter uma vida mansa ao lado de Marie, alguém que Mehdi vê como uma garota tola e facilmente manipulável.

Marie, por sua vez, não é inocente, ela sabe que os pais não aceitariam a relação com alguém que eles veem como “inferior” e que não poderiam dar a Marie o padrão de vida com o qual ela estava acostumada. Ela tampouco se mostra disposta a ir contra os pais e abrir mão da vida de herdeira que leva, então fica evidente a decisão que ela irá tomar caso seja forçada a escolher. O que torna tudo mais sombrio é até onde Mehdi está disposto a ir para silenciar Salma em relação à gravidez. A cena em uma clínica clandestina de aborto é extremamente angustiante não apenas pelo procedimento em si, mas pelo fato de Salma estar ali forçada, contra a sua vontade e suas crenças, além das consequências trágicas ao fim de tudo. Nunca vemos o que acontece, apenas ouvimos a voz severa da mulher responsável pelo procedimento e os gemidos de Salma, mas é o suficiente para me fazer me contorcer em agonia na poltrona. A impossibilidade de recorrer a um hospital, considerando que aborto é um crime, torna tudo que acontece depois ainda mais doloroso, já que Salma não queria nada daquilo, revelando o aborto clandestino como um problema de saúde pública.

O final mostra como Mehdi e Marie nunca foram de fato iguais. Ela pode simplesmente voltar para a França, seguir com sua vida de luxo e deixar para trás Mehdi e toda investigação criminal envolvendo Salma. Mehdi por sua vez, está ainda pior do que começou, tendo sacrificado uma mulher que o amava e agora precisará enfrentar as consequências do que fez, ciente de que todo o prospecto de ascender socialmente fora uma ilusão. Marie ou sua família só o viam como uma mera distração exótica, como evidenciado na cena em que a mãe de Marie o agarra e menciona o efeito que ele tem nas mulheres, alguém que poderia ser descartado no primeiro sinal de problema, não muito diferente do que Mehdi fez com Salma.

Por Detrás das Palmeiras mistura suspense e melodrama para evidenciar as estruturas de poder coloniais que ainda guiam as relações no Marrocos e criam várias desigualdades de gênero, classe e etnia.

 

Esse texto faz parte de nossa cobertura da Mostra de Cinemas Africanos 2026.

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