Indústria cíclica
A narrativa é protagonizada por Kris (Hannah Einbinder) uma jovem diretora independente contratada para produzir um reboot da franquia de terror Acampamento Miasma. Os executivos do estúdio esperam que ela, uma diretora preocupada com representatividade, crie uma nova história de origem para o assassino Little Death (Jack Haven), colocando-o como uma figura trágica e afastando as acusações de transfobia da franquia original. Kris busca a atriz Billy Presley (Gillian Anderson) que atuou no filme original e evitou as continuações, mas o estúdio se opõe a trazer uma atriz sexagenária e não tão famosa como protagonista do reboot.
A premissa aponta tendências contemporâneas de Hollywood que recorre a cineastas independentes para tentar revitalizar franquias cansadas sob a justificativa de renovar o olhar, mas o que eles querem é apenas usar o nome dessas pessoas para dar algum verniz de algo mais artístico, mais preocupado com posicionamentos políticos ou sociais, sem de fato querer transformar nada. No mundo real diretoras como Chloe Zhao ou Nia DaCosta são cooptadas para grandes franquias como a Marvel (em Eternos e As Marvels) justamente para esse fim.
Isso é visível na cena em que Kris conversa via Zoom com os executivos e produtores, com a preocupação deles sendo apenas a de “limpar” os preconceitos da franquia sem mexer no resto. A própria Kris diz isso em uma conversa com Billy, afirmando ter sido contratada apenas por ser uma jovem e promissora diretora envolvida com questões LGBT para dar a impressão de que os produtores se preocupam com sensibilidades contemporâneas enquanto vendem a mesma coisa.
Passado problemático
O filme comenta mais especificamente sobre as representações feitas pelos filmes slasher e certa tradição conservadora e de reforçar preconceitos que esses filmes tem. Não é exatamente novidade, a franquia Pânico já falava um pouco sobre como esses filmes punem com mortes sangrentas condutas como fazer sexo ou usar drogas, além de mirarem em minorias.
Aqui, porém, o foco é em alguns tipos de representação. Filmes como Acampamento Sinistro (1983) traziam pessoas trans como assassinos desequilibrados como se ser trans fosse algo aberrante e um atestado de instabilidade mental ou conduta dissimulada. Quando Kris e Billy assistem ao Acampamento Miasma original, elas comentam como a origem de Little Death é tratada em termos puramente preconceituosos. As cenas de morte também seguem a cartilha da punição, o assassino mata pessoas que transam ou que usam drogas.
As mortes são filmadas de maneira propositalmente tosca e exagerada, com chafarizes de sangue jorrando a cada golpe do assassino e uma física nada realista, como o momento em que Little Death empala um adolescente com sua lança e depois bate o corpo dele em um mastro, fazendo sua vítima explodir em mil pedaços. É algo feito não para aterrorizar ou chocar como esses filmes originalmente faziam, mas para satirizar o exagero dessas produções e modo virulento que essas mortes refletiam certos preconceitos e visões conservadoras. O segmento em que Billy e Kris assistem aos filmes antigos, no entanto, dão a sensação de que o filme se detém neles mais do que deveria.
Paradoxos do coração
Embora tenha críticas à franquia, Kris também exibe uma apreciação por esses filmes e tenta entender o que move sua conexão com eles. Em suas interações com Billy, que florescem em um affair, ela pondera sobre a natureza erótica desses filmes, da nudez, do tesão adolescente, da excitação de transar no mato e também na tensão de correr pela vida enquanto perseguida por um assassino, de estar em meio a uma crise dessas lutando para sobreviver e extrair prazer disso. As falas da personagem encontram eco nas falas de Billy sobre perder a virgindade e como ela teve o melhor orgasmo da vida ao imaginar Little Death se aproximando.
São ideias que me remetem ao livro A Filosofia do Horror de Noel Carroll que analisa o porquê de consumirmos histórias de horror. O teórico analisa como o medo e a repulsa são emoções que guiam o horror, que o prazer do gênero vem da curiosidade com o anômalo, com o monstruoso e ter essa curiosidade saciada. A grosso modo, queremos saber como é lidar com algo assim imponderável, assustador, e o horror permite experimentar essas emoções sem estarmos realmente em perigo.
A relação com o anômalo, com o monstruoso que Kris pensa em fazer no seu filme, no entanto, não é o da rejeição ao anômalo, ao tabu, como era no passado. Isso perpassa tanto no modo como ela pensa no assassino Little Death como em outros tabus do slasher, em especial o sexo. O prazer, o orgasmo, o voyeurismo não deveriam ser objetos de punição. Morte e sexo caminhariam lado a lado em fornecer prazer e catarse. Isso fica evidente durante o clímax no qual Kris começa a ser perseguida por Little Death e a criatura começa a matar as pessoas que ela conhece e que passou o resto do filme julgando silenciosamente, como sua agente ou os executivos de estúdio, enquanto a montagem corta para imagens de Kris e Billy fazendo sexo enquanto Little Death se aproxima delas. Há uma catarse em ver os desafetos da personagem serem mortos enquanto que a proximidade com a morte parece tornar o sexo mais intenso, como se a lembrança da mortalidade tornasse mais importante nossos momentos de prazer.
O filme aborda a metalinguagem da
narrativa com um surrealismo similar ao que a diretora Jane Schoenbrun fez em
seu filme anterior, Eu Vi o Brilho da TV (2024).
As fronteiras entre a realidade e o universo subjetivo de Kris são borradas,
durante boa parte do filme não sabemos até que ponto ela está de fato sendo
observada por Little Death ou se é tudo imaginação dela. A fotografia adota uma
iluminação estourada e alterações na paleta de cores para comunicar esses
momentos de descolamento da realidade. A dimensão paralela na qual Little Death
observa nosso mundo, com paredes rosas e enrugadas, lembra um cérebro. É como
se a criatura fosse o nosso subconsciente, os desejos reprimidos de pulsão de
morte e de vida, de matar que detestamos ou como sentimos culpa pelos nossos
prazeres sexuais. Nesse sentido, a trama não apenas critica os preconceitos
carregados por esse tipo de história, mas defende suas qualidades, advogando
que esses filmes tem implicitamente uma dimensão transgressora, de apontar
tabus e prazeres considerados proibidos, defendendo que o gênero precisa
abraçar isso se quiser continuar relevante. O filme pondera que o sexo não
deveria ser punido, mas celebrado.
Nota: 9/10
Trailer


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