terça-feira, 22 de setembro de 2026

Crítica – Cartum

 

Análise Crítica – Cartum

Review – Cartum
Filmar a realidade é estar aberto para imprevistos e mudar os planos conforme a realidade filmada se transforma e impacta as vidas dos sujeitos documentados. É isso que acontece em Cartum, cuja premissa inicial era acompanhar a vida de cinco pessoas do Sudão de diferentes idades e origens para acompanhar suas vidas e o que pensavam do país. Um golpe militar seguido de uma guerra civil muda os planos do documentário, já que tanto a equipe quanto os personagens são deslocados de seus territórios. Fora do Sudão, os realizadores e personagens comentam sobre como sobreviveram e o que ainda esperam do futuro.

Mediando memórias

O filme gira em torno de cinco personagens. Os garotos Lokain e Wilson, que vivem de coletar material reciclável, o servidor público Madji, a vendedora de chá Khadmalla e o ativista político Jawad. Usando chroma-key, o filme tenta fazer os sujeitos recriarem suas experiências antes e durante a guerra, recorrendo também a imagens captadas pelo documentário antes de guerra eclodir e que são comentadas pelos participantes.

O recurso da encenação para mostrar ao espectador as memórias dos indivíduos entende a natureza subjetiva da memória e tenta nos deixar imersos nas sensações vividas pelos personagens em relação ao que aconteceu. O filme entende que a memória não é algo objetivo, é uma interpretação pessoal acerca de fatos ocorridos que quando recontada é reinterpretada novamente através da linguagem usada para narra essa memória.

Entendendo a natureza da memória como algo construído, como histórias que contamos a nós mesmos, o filme ainda nos permite ver cenas das filmagens, mostrando os personagens interagindo com a equipe de filmagem e as conversas sobre como melhor encenar cada história. Com a equipe muitas vezes dirigindo as performances dos sujeitos (afinal nenhum deles é ator profissional), como o momento em que alguém pede para Madji se mover pelo cenário, o filme evidencia a natureza mediada dessas imagens. Afinal, os personagens não estão encenando as memórias por conta própria ou nem tem pleno controle do dispositivo audiovisual, o que estamos vendo é mediado pelas trocas e relações dos sujeitos com os documentaristas, com o filme sendo bem transparente a respeito disso. Não estamos diante em um olhar objetivo dos fatos, mas das experiências pessoais de cada um daqueles sujeitos.

O fato de estarmos diante de encenações não significa que não haja verdade nos eventos narrados, algo evidenciado pelas reações intensas dos sujeitos em muitas cenas. Em alguns momentos vemos os sujeitos chorarem ao final das cenas, tomados por emoção ao reviverem experiências dolorosas ao ponto de serem abraçados e consolados pela equipe dos documentários. Em alguns personagens as cenas de chroma key adotam uma estética bem realista, enquanto que em alguns momentos, como em certas cenas com as crianças Lokain e Wilson, as imagens geradas no chroma key soa como desenhos ou rabiscos, dando a impressão de que estamos diante de um relato impreciso, lacunar, como se as crianças ainda não pudessem elaborar completamente seus sentimentos em relação ao que viveram.

O filme insere ainda imagens dos personagens em uma espécie de camarim no qual eles conversam sobre as cenas em que performaram. São momentos em que acessamos a resposta deles ao experimento proposto pelo filme, reconhecendo o desequilíbrio entre quem filma e quem é filmado ao permitir que eles comentem sobre as representações de suas próprias histórias feitas ao longo do documentário.

Passado e presente

Se as reconstruções do passado são marcadas por experiências dolorosas, as imagens do passado são muitas vezes solares e repletas de cor, lembrando de alegrias e momentos de comunidade. Ao revisitarem essas imagens os personagens comentam sobre a vida como refugiados, deslocados de seus locais de origem, sentindo saudades do lar e demonstrando incerteza se conhecidos presentes nas imagens ainda estão vivos.

Esses olhares sobre o passado não são, no entanto, um mero exercício de melancolia, tampouco reduzem seus personagens a meras vítimas da guerra. As imagens do passado mostram a vida que transborda pela cidade e a esperança das pessoas, como a cena em que clientes do chá de Khadmalla comentam sobre suas esperanças para o futuro. A música é outro aspecto no qual o filme deixa transparecer seu otimismo. Com uma seleção de canções de artistas sudaneses, a paisagem musical varia do pop ao eletrônico com melodias enérgicas que preenchem a produção com esperança pela reconstrução do Sudão.

O filme é generoso com o espectador ao explicar o contexto recente do Sudão e os vários processos sociais e políticos ao redor do conflito atual. A narrativa traça um panorama sobre a situação do país que é acessível mesmo para quem conhece pouco de sua história e nos permite compreender como o conflito chegou no estado atual.

Assim, Cartum usa com criatividade os recursos audiovisuais para deixar o espectador imerso nas vivências e sentimentos de seus personagens enquanto analisa os impactos do conflito no Sudão sobre eles.

 

Esse texto faz parte de nossa cobertura da Mostra de Cinemas Africanos 2026.

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