quinta-feira, 21 de maio de 2026

Crítica – The Boys: Quinta Temporada

 

Análise Crítica – The Boys: Quinta Temporada

Review – The Boys: Quinta Temporada
Quando escrevi sobre a quarta temporada de The Boys mencionei preocupação no modo como a série dobrava a aposta em aludir de maneira muito direta ou óbvia elementos do cotidiano político dos Estados Unidos. Era uma escolha que parecia vir da frustração do showrunner Eric Kripke com o fato de que muita gente via o Capitão Pátria (Antony Starr) como herói, trabalhando para deixar óbvio que todo esse reacionarismo político era a piada, o alvo da sátira da série. É uma escolha com muito potencial de dar errado. Primeiro porque essas pessoas ainda assim não entenderiam que são eles os ridículos (vide o resultado do segundo filme do Coringa, que também tenta mastigar demais sua mensagem). Segundo porque, como comentei no texto da quarta temporada, independente do resultado da eleição de 2024, essa proximidade do mundo real só prejudicaria a sátira que a série tenta fazer sobre totalitarismo corporativo. Se Trump perdesse, a quinta temporada já nasceria irrelevante, se Trump ganhasse a alusão direta seria tão próxima que a série não funcionaria como sátira e é exatamente isso que acontece nesse último ano.

Realidade paralela

Depois dos eventos do quarto ano, o Capitão Pátria tomou o controle do país. Hughie (Jack Quaid), Leitinho (Laz Alonso) e o Francês (Tomer Capone) em um campo de prisioneiros. Annie (Erin Moriarty) se tornou o rosto da resistência contra o Pátria e Billy Bruto (Karl Urban) continua a trabalhar em um vírus que pode eliminar os super. Com o vírus quase pronto, Billy decide libertar os aliados com a ajuda de Annie e Kimiko (Karen Fukuhara). Ao mesmo tempo, o Capitão Pátria corre em busca do V1, a fórmula original do Composto V, que seria a única maneira de se tornar imune ao vírus de Bruto.

A temporada tem dois grandes problemas. O primeiro, como já mencionei no parágrafo de abertura, é que ela alude ao mundo real com tanta proximidade que não consegue funcionar como sátira, já que qualquer absurdo que a narrativa propõe é superado pelo absurdo da nossa própria realidade. Dias antes da série exibir um episódio em que o Capitão Pátria se declara deus, Donald Trump posta uma imagem de IA em que ele substitui Jesus. Na mesma semana que vemos a igreja do Ó Pai (Daveed Diggs) substituindo a imagem de Cristo por uma estátua dourada do Pátria vemos pastores dos EUA orando para uma estátua dourada de Trump. Com isso qualquer senso de paródia se perde, já que esses eventos são menos um olhar crítico da realidade política através do absurdo e mais uma reprodução direta da realidade que acaba tendo muito pouco a dizer a respeito dela.

O outro problema é o ritmo. Os dois primeiros episódios estabelecem bem o conflito central da temporada, mas do terceiro ao sexto episódio a impressão é que a trama anda em círculos com a busca pelo V1, com cada episódio colocando os personagens para buscarem em um lugar diferente, com pouco a acrescentar à trama. Boa parte dos obstáculos soa artificial, como que meramente para alongar a narrativa ao invés de acrescentar drama aos personagens. Um exemplo é Soldier Boy (Jensen Ackles) que muda de personalidade a cada episódio dependendo da conveniência do roteiro. Em um episódio ele quer matar o Capitão Pátria, em outro ele impede alguns supers de matá-lo. Uma hora ele ressente a relação entre Pátria e Tempesta (Aya Cash), por considerá-lo indigno, para no mesmo episódio voltar atrás nessa postura sem que qualquer motivação seja oferecida. O personagem inclusive sai de cena de uma maneira que é anticlimática que deixa mais coisas em aberto, inclusive toda a questão envolvendo Letinho querer se vingar dele, sem resolução. Provavelmente ele está sendo reservado para o spin off Vought Rising que deve se passar na década de 1940, mas eu não duvidaria se tivesse elementos no presente.

Terra arrasada

Ainda assim, a temporada tem alguns destaques. O principal deles é o episódio focado na Espoleta (Valorie Currie). O episódio mostra o passado difícil da personagem e como estar nos Sete foi a primeira vez que ela se sentiu importante, estando disposta a qualquer coisa para não perder e voltar ao nada de onde veio. Ao longo da narrativa acompanhamos como ela sacrifica tudo que é importante para si em nome de uma lealdade cega ao Capitão Pátria, mostrando o quanto ela está disposta a não perder o que tem ainda que isso a magoe. A cena em que ela conversa com seu antigo pastor permite que vejamos uma Espoleta despida de suas bravatas e de sua persona pública, deixando só uma garota frágil, insegura e solitária. É visível como o olhar dela fica perdido na hora que o pastor critica a adesão cega dela ao Capitão Pátria, como se ela percebesse ali o quanto perdeu de si mesma. Há algo no rosto dela que dá a impressão que a personagem está encolhendo, esvaziada do discurso corporativo que regurgita e sem nada mais para mantê-la de pé. É uma personagem que se torna trágica ao vermos o quanto ela sacrificou as próprias convicções só para ser destruída pelo Capitão Pátria, que percebe que ela nunca o veria verdadeiramente como deus, sendo movida mais por medo e subserviência, algo que o vilão despreza.

Não é a toa que o Pátria poupa a Lenda (Paul Raiser) ao ver que o veterano executivo não só não tem medo dele como o trata como uma pessoa normal. É um momento que revela que por trás de toda a megalomania, o que o vilão desejava não era exatamente poder ou adoração, mas ter alguma conexão real com alguém, que a idolatria como super ou como uma divindade eram maneiras de tentar forçar uma conexão com as pessoas, mas que nunca supriria de verdade o vazio dele. Isso fica evidenciado no modo como ele desesperadamente tenta obter validação de Soldier Boy ou como ainda tenta se reconectar com Ryan (Cameron Crovetti), já que percebe essas conexões familiares como a única possibilidade de se sentir normal.

Antony Starr segue ótimo como o Capitão Pátria, um sujeito simultaneamente assustador e patético. O tipo de vilão que dá gosto de odiar. Mesmo com todo o poder e bajulação, o vilão segue infeliz porque ele sabe que não é amado de verdade, tratado como uma pessoa. As pessoas ou o temem ou puxam o saco dele, mas nunca o tratam como tratariam uma pessoa normal e ele ressente isso, ficando cada vez mais instável conforme é rejeitado ou vê falsidade nas pessoas ao seu redor.

Por mais que a temporada tenha tido vários tropeços o confronto final é satisfatório justamente por desvelar o quão vazio o Capitão Pátria realmente é. Sem seus poderes, não há nada por trás, ele não tem personalidade, ele não tem nenhum entendimento de como relações humanas funcionam, não é à toa que ele faz todas aquelas propostas ridículas a Bruto para que ele não o mate. Ele não sabe conversar como uma pessoa normal, não entende a dinâmica. O modo como a câmera enquadra o Capitão depois da perda dos poderes o faz parecer menor que Bruto, como que revelando a pequenez do personagem e Starr imediatamente muda a voz e a linguagem corporal, mostrando que despido dos seus poderes ele não é muito mais do que uma criança chorona.

O confronto final entre Hughie e Bruto funciona pelo que Jack Quaid e Karl Urban trazem aos seus personagens, dando credibilidade ao drama moral dos dois, mas a motivação para o ato final de Bruto não soa devidamente convincente. Em relação aos desfechos dos personagens, a série entrega finais satisfatórios para Hughie, Annie, Kimiko, Leitinho e até para figuras como Ashley (Colbie Minifie) e Stan Edgar (Giancarlo Esposito). Por outro lado, a escolha de Ryan ficar com a família de Letinho não soa devidamente merecida considerando que esses personagens interagiram muito pouco ao longo da série.

A série também falha em dar algo de relevante aos personagens de Gen V. No fim da segunda temporada os protagonistas se juntam à resistência liderada por Annie, mas aqui desempenham um papel marginal. O arco de Marie (Jaz Sinclair) em Gen V encerrava com ela ampliando seus poderes e dando a impressão de que ela seria uma peça importante no confronto com o Capitão Pátria, no entanto, ela não participa de nada. Isso fica ainda mais incômodo com o cancelamento de Gen V, deixando inconclusas as histórias desses personagens.

Assim, a quinta e última temporada de The Boys sofre por problemas de ritmo e uma tentativa de sátira que se mostra incapaz de competir com a realidade, só conseguindo minimamente se redimir pelo clímax da história e como encerra bem a maioria dos arcos.

 

Nota: 6/10


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