Em espaços digitais é muito comum que as pessoas se sintam confortáveis para julgar os outros e promover linchamentos morais de quem acham que fez algo repreensível, mesmo que esse algo esteja longe de ser algo verdadeiramente abjeto. O Drama examina essa lógica aplicada ao mundo real expondo o absurdo da situação e como esse tipo de atitude é desmedida e até hipócrita.
Muito barulho por nada
O casal Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) está prestes a se casar depois de três anos juntos. Às vésperas da cerimônia, em um jantar com um casal de amigos, Mike (Mamoudou Athie) e Rachel (Alana Haim), eles decidem confessar as piores coisas que fizeram. Emma conta que chegou a planejar ir armada para o colégio e atirar em todo mundo, causando indignação na amiga Rachel e nos demais. A partir disso, Charlie começa a repensar a relação dos dois, julgando que Rachel pode ser uma psicopata.
A confissão de Emma é bem menos problemática do que parece, afinal pensar em fazer algo é diferente de fazer. Quem nunca pensou em matar um desafeto ou imaginou coisas horríveis acontecendo com alguém de quem não gosta? É o que escolhemos fazer com esses sentimentos que importa. Ainda assim, o noivo e os amigos de Emma decidem julgá-la duramente por algo que ela apenas imaginou fazer e claramente demonstra arrependimento por isso.
A montagem do filme tenta emular o fluxo de consciência dos personagens, com cortes abruptos para flashbacks nos quais Charlie e os demais tentam recontextualizar momentos com Emma à luz da nova informação a respeito dela. Em um dado momento Charlie conversa com Mike sobre Emma possivelmente esconder uma personalidade violenta e a montagem corta para fragmentos do passado em que Emma brigou com um motorista que quase a atropelou quando ela atravessava a rua ou quando Emma deu um tapa na cara de Charlie enquanto transavam. O uso da montagem serve para ilustrar o que se passa na mente dos personagens enquanto eles conversam e como a mente deles tenta fazer sentido ou encontrar uma justificativa para o comportamento de Emma.
O som é usado em alguns momentos para ilustrar a escuta de Emma, que é surda de um ouvido. Muitas vezes que personagens falam com ela do lado que ela não ouve, o som fica abafado, deixando passar apenas algumas vibrações graves, evidenciando as limitações de escuta da personagem. O som também é muito hábil em criar um senso de ambiência e espacialidade. Na cena do discurso de Charlie, por exemplo, conseguimos ouvir falas especificas de alguns outros personagens no canto do salão enquanto Charlie fala, dando a impressão do burburinho causado pelo fato da história de Emma ter se tornado conhecida.
Tribunal de minúsculas causas
Esses recursos são mobilizados para refletir como hoje a indignação das pessoas é mobilizada de maneiras tão desproporcionais que chega a ser patético. A neurose de Charlie em repensar o casamento com Emma por conta de algo que ela pensou em fazer soa como uma sinalização de virtude ridícula do que como uma preocupação genuína. Do mesmo modo, toda a revolta de Rachel soa desproporcional, principalmente por ela usar a prima cadeirante como justificativa para a indignação sendo que minutos antes ela contava como fez algo horrível com um garoto que parecia ter problemas mentais. Rachel é uma síntese da conduta do twitteiro médio, que se coloca em um alto pedestal moral enquanto se acha capaz de julgar as atitudes de todos ao seu redor, tratando qualquer ação questionável como uma falha de caráter abjeta.
Na verdade as histórias contadas pelas outras pessoas da mesa são muito piores que as de Emma porque narram coisas horríveis que essas pessoas efetivamente fizeram enquanto Emma narra algo que pensou em fazer e ainda assim ninguém é julgado com a mesma intensidade de Emma. É algo que revela a hipocrisia daquelas pessoas e como a maioria das pessoas que adora sinalizar virtude e pagar de paladino da moral também tem seu conjunto de atitudes abjetas.
Ao longo da história, por sinal, essas hipocrisias se revelam conforme os personagens tentam racionalizar as próprias atitudes ou as dos outros, como na cena em que Charlie encontra a prima cadeirante de Rachel e indaga a respeito de quão próximas elas são, como se o nível de proximidade das duas servisse como critério para autorizar ou não a indignação de Rachel em relação a tiroteios em massa. É o tipo de policiamento moral inócuo que encontramos a todo momento na internet, já que se olharmos as atitudes de qualquer pessoa sob um microscópio, sempre encontraremos alguma atitude questionável. É algo que revela como perdemos o senso de nuance, a capacidade de vermos as pessoas como indivíduos complexos, com múltiplas camadas, que não são definidos por uma coisa só.
O final, no entanto, acaba simplificando tudo isso pelo modo como encerra a história de Emma e Charlie, com Emma indiretamente propondo que passem tudo a limpo e recomecem do zero. Faz sentido para Charlie, que depois de tudo que aconteceu finalmente se deu conta de que passou dos limites e expôs a noiva de uma maneira desnecessária. Por outro lado, a trama não dá muitas razões para Emma perdoar Charlie, considerando que ele traiu a confiança dela tanto por espalhar a história para várias pessoas como também por se pegar com uma colega de trabalho, embora não tenha chegado a fazer sexo com ela.
É uma conciliação que faz sentido
dentro dos temas do filme, de que adotar essa postura de contenda e julgar todo
mundo só cria problemas e que precisamos julgar menos as pessoas, mas não
dentro do contexto dos dois personagens. Sim, a narrativa já tinha mostrado que
a protagonista tem disposição para conceder segundas chances (talvez por ser a
única ali que sabe a importância disso), como é visível na cena em que ela e
Charlie se conhecem. Ainda assim, a decisão final de Emma não é construída o
suficiente para convencer, soando mais como algo que precisa acontecer para
amarrar as ideias centrais do filme do que algo orgânico à personagem. Talvez
se víssemos o que aconteceu com Emma depois de toda briga no casamento antes
dela encontrar Charlie na lanchonete (acompanhamos apenas a ótica dele) o final
funcionasse melhor.
Nota: 7/10
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