A volta de Matt Murdock em Demolidor Renascido teve seus altos e baixos. Ainda que Charlie Cox e Vincent D’Onofrio continuem excelentes como Matt e Wilson Fisk, a narrativa sofria ao replicar tramas e ideias que já tinham sido trabalhadas na série da Netflix. Essa segunda temporada tinha o potencial de levar tudo a outras direções por conta da maneira como tudo terminou e em geral é competente nisso.
Nova Iorque sitiada
Depois dos eventos da primeira temporada Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) se tornou prefeito de Nova Iorque e usa sua autoridade para beneficiar seus negócios escusos através do porto livre que abriu e também da força tarefa criada para deter vigilantes. Matt (Charlie Cox) e Karen (Deborah Ann Woll) vivem escondidos enquanto tentam obter provas dos crimes de Fisk. Quando o Demolidor tenta impedir a chegada de um navio contendo armas ilegais, Fisk naufraga e o navio e coloca a culpa no Demolidor, iniciando uma caçada contra o herói.
Propositalmente ou não, todo o arco envolvendo a força tarefa de Fisk ecoa o mundo real no modo como o governo federal dos EUA tem usado a ICE, a polícia de imigração, como sua milícia pessoal, perseguindo pessoas, detendo indivíduos e aterrorizando comunidades sem o devido processo legal. É uma trama que revela como o uso desregrado e absoluto do poder pode facilmente se tornar uma ferramenta de opressão nas mãos de um ególatra sem escrúpulos.
A trama cria um clima de tensão constante conforme vemos as opções de Matt e Karen diminuírem na medida em que Fisk consolida seu poder e convence o público de sua narrativa. As figuras no entorno de Fisk, como o assessor Daniel (Michael Gandolfini) revelam como esse tipo de poder só se consolida com o auxílio de figuras que cumprem ordens sem se questionar.
Se Fisk luta para consolidar seu poder, a luta de Matt é para libertar a cidade, mas sem abrir mão de seus princípios. São dois homens dispostos a tudo e essa rivalidade é colocada em evidência na brutal luta entre os dois no sexto episódio. Ao longo da temporada a ação é consistente e muda um pouco o foco da luta corporal para explorar como o Demolidor usa seus bastões e outros truques contra os adversários, principalmente por conta dos embates serem quase sempre contra inimigos armados e em maior número.
Batalha urbana
Além do Demolidor e do Rei do Crime, um dos destaques da temporada é o retorno do Mercenário (Wilson Bethel), que finalmente usa um uniforme similar aos quadrinhos. Com um plano de vingança contra Vanessa Fisk (Ayelet Zurer), o vilão acaba se tornando aliado do Demolidor por conta das circunstâncias. Há uma dinâmica interessante entre ele e Matt, já que o herói não o perdoa pelo que o vilão fez com Foggy (Elden Henson), mas seus princípios o impelem a ajudar o Mercenário contra Fisk, gerando uma aliança tensa. Wilson Bethel transforma o vilão em um homicida carismático que extrai prazer de seus atos de violência, constantemente fazendo piadas ou tiradas sarcásticas em meio às suas ondas de assassinatos. Uma das melhores cenas de ação da temporada é quando o Mercenário mata vários membros da força tarefa de Fisk dentro de um restaurante usando objetos comuns.
Por outro lado, as tramas de alguns coadjuvantes não recebem a devida atenção. O arco da Dra. Glenn (Margarita Levieva) seria o de mergulhar ainda mais na instabilidade mental depois do trauma sofrido nas mãos do vilão Muso. No entanto, a personagem aparece tão pouco, que esse processo de surto nunca tem o impacto que deveria. A cena final dela na temporada colocando a máscara do vilão não funciona como o clímax da história dela até aqui porque sua instabilidade mental não foi construída de modo convincente. Apesar de também aparecer pouco, Michael Gandolfini ao menos faz seu tempo valer ao mostrar como a lealdade de Daniel dá lugar ao medo conforme ele percebe quem Fisk realmente é e na severidade do que se meteu, aos poucos questionando se deve devotar tanta lealdade ao chefe.
Jessica Jones (Krysten Ritter) é subaproveitada, com toda a questão da instabilidade nos poderes dela soando como um dispositivo preguiçoso de roteiro para evitar que a personagem pudesse usar sua superforça para resolver facilmente boa parte dos problemas. Quem também não é bem aproveitada é Angela (Camilla Rodriguez), a sobrinha de Hector (Kamar de los Reyes), o Tigre Branco. Ao longo da temporada a vemos com o amuleto do tio e ajudando Matt a enfrentar Fisk, culminando na cena em Angela está devidamente mascarada lutando ao lado de Jessica no episódio final. Na cena ela parece estar usando suas habilidades como Tigresa Branca, mas em momento algum é desenvolvido como ela aprendeu a usar o amuleto do tio.
O episódio final leva todas as tensões na cidade a um ponto de ebulição, primeiro no tenso confronto verbal entre Matt e Fisk no tribunal e depois na sangrenta luta que ocorre no prédio quando Fisk, já sem nada a perder, simplesmente libera toda sua raiva contra os manifestantes e mata vários deles com as próprias mãos. É uma cena que impacta por evidenciar a extensão da brutalidade do Rei do Crime.
Eu poderia questionar como a cena do testemunho do Fisk ignora um monte de procedimentos jurídicos, mas imagino que ninguém assiste essa série pela precisão no funcionamento do direito penal. Por outro lado questiono como Fisk conseguiu manter seu acordo de sair do país mesmo depois de matar dezenas de pessoas diante de várias testemunhas. Imagino que muita gente não deve ter ficado feliz com Fisk em uma praia no exterior depois de vê-lo matar seus amigos de maneira sanguinária. Espero que isso seja abordado na já confirmada próxima temporada.
Apesar de alguns problemas, a
segunda temporada de Demolidor Renascido
entrega um resultado melhor que a anterior graças ao seu senso de urgência,
bons personagens e cenas de ação.
Nota: 8/10
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