Reino escondido
A trama é centrada na garota Prue, cujos pais a deixam responsável por cuidar do irmão menor, o bebê Mac, em um dia em que estão ocupados. Os pais de Prue advertem que ela não pode sair de casa com o bebê, que é muito perigoso e que forças ocultas estão atrás dele. Prue desconsidera as advertências dos pais, achando que eles só querem assustá-la, mas ao sair com o irmão eles são atacados por um bando de aves que carrega o bebê. Ela os persegue em sua bicicleta até uma floresta próxima e se vê em um reino escondido com humanos e animais falantes preso em um longo ciclo de guerra entre as várias regiões que compõem o lugar.
Já nos primeiros minutos somos apresentados ao senso de grandiosidade que o filme deseja criar quando Prue sai de casa levando o irmão em sua bicicleta, um plano nos mostra a amplitude da cidade, com várias casas, carros e pessoas andando nas ruas e a câmera segue de cima o movimento da protagonista. Quando ela viaja para o reino do bosque, também temos esses planos gerais que mostram as densas florestas, montanhas e cidades, além de sequências de ação com exércitos numerosos.
Não é um feito simples, principalmente nas cenas com muitos personagens ou com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, já que cada objeto em cena precisa ser movido individualmente antes que cada frame seja registrado, e por isso mesmo impressiona. Algumas sequências de ação, como o momento em que Prue é perseguida no palácio do governo são construídas em planos longos, com poucos cortes, dando fluidez à ação e demonstrando o domínio que o filme tem dos seus recursos de animação.
A música contribui para a sensação de grandiosidade, mas suas melodias também evocam um grau de mistério, como se aquele lugar guardasse muitos segredos e nem toda a magia que faz parte daquele universo fosse plenamente controlada ou compreendida. O filme, no entanto, não se destaca apenas em seus grandes elementos. Em meio a essa grande escala, a produção não perde a atenção aos detalhes, como a vermelhidão ou o leve inchaço nos olhos dos pais de Prue na primeira vez que ela volta para casa, contando para nós sem precisar dizer nada o tanto que eles choraram.
Fim da inocência
Para além do apuro técnico, a animação se sustenta ainda pela força de sua narrativa. Sim, é um conto sobre amadurecimento, sobre deixar a proteção de casa ou dos pais e encontrar seu próprio rumo no mundo, descobrir quem você é. Inúmeras histórias de fantasia abordam essas ideias, mas aqui o que chama atenção é a complexidade com o qual o percurso da protagonista e de seu melhor amigo, Curtis, é construído. A única coisa estranha na narrativa é como Prue parece não demonstrar nenhuma preocupação com Curtis ou com o paradeiro dele depois de sair do bosque pela primeira vez.
A trama não é apenas sobre Prue encontrar sua força interior ou seu senso de si, existem mais camadas em jogo. Amadurecer é entender que seus pais são como você, que cometem erros e tem falhas. Amadurecer implica em ver o lado sombrio do mundo (embora a violência não seja muito explícita, ela está presente e eu não recomendaria a animação para crianças pequenas) e perder a inocência no processo, como fica evidente quando Curtis finalmente usa sua espada contra um inimigo. Isso, porém, não significa que devemos abandonar um senso de encantamento com o mundo e de enxergarmos a força das pequenas coisas que nos rodeiam, como diz uma anciã a Prue. É sobre saber desapegar de noções simplistas da infância, mas não perder uma medida de ingenuidade que nos permita nos encantar com as coisas.
Mesmo a vilã, Alexandra, é uma figura interessante em suas camadas. Ela é cruel, implacável, manipuladora e capaz de sacrificar qualquer coisa para conseguir seus objetivos e ainda assim entendemos a dor que a guia. Percebemos como o fardo do pesar não resolvido pende sobre seus ombros e como é sua insistência em se apegar ao passado que a levou a esse caminho. De certa maneira, ela espelha a jornada de Prue precisando encontrar um meio de seguir adiante depois de aprender algumas duras verdades sobre a vida e aprender a conviver com as consequências desse aprendizado e escolhe um caminho diferente da protagonista ao insistir em tentar fazer as coisas voltarem a serem como antes.
A vilã funciona como uma antagonista temível também porque a narrativa deixa claro a todo o momento o custo de enfrentar alguém tão poderosa. Essa não é uma história em que tudo dá certo e todo mundo sobrevive. O triunfo diante de uma ameaça tão grande cobra altos custos e confesso que fiquei surpreendido como o filme não tem pudor em eliminar aliados da protagonista para entendermos a força que ela enfrenta.
Isso não significa que é uma
produção sombria ou sisuda o tempo todo, existem muitos momentos de humor e
leveza, seja no modo como o tímido Curtis navega pelo mundo estranho ao seu
redor, seja em coadjuvantes como o coiote desertor Dmitri ou a ratinha
Septima. Como as melhores fábulas, O Bosque Selvagem sabe dosar muito bem
doçura, humor, ação e tensão, mostrando que o caminho para a maturidade não é
simples. Tudo isso embalado por um imenso domínio das técnicas de animação em stop motion.
Nota: 9/10
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