Política de bastidores
A trama segue Mark (Ben Affleck), candidato a prefeito de Los Angeles. Ele usou quase todo seu dinheiro e ainda está um pouco atrás nas pesquisas, começando a pensar se vale a pena esgotar seus recursos para tentar vencer. Sua esposa, Abigail (Kerry Washington), está distante dele e tem um caso com um professor chamado Ron (Ray Fisher). As coisas se complicam na noite de Halloween quando Mark recebe uma ligação de seu filho foi sequestrado, pedindo um resgate de milhões que ele não tem. Seu coordenador de campanha, Sam (Steve Yeun), lhe coloca em contato Dayle (Gillian Anderson), uma poderosa figura que opera nos bastidores da política. Ela pode conseguir o dinheiro e aconselhar Mark, mas cobra um preço alto por isso.
Inicialmente o filme estabelece bem a ambiguidade moral dos personagens conforme apresenta complicações no sequestro que levam Mark e os demais à sua volta a pensarem na melhor forma de agir, já que a situação não é apenas um problema pessoal para ele, mas também um problema e potencial oportunidade política. Ele e Sam começam a pensar em como resolver o sequestro e ainda serem capazes de se beneficiar politicamente da situação, passando a nortear suas escolhas por múltiplas variáveis.
A narrativa tenta falar sobre os bastidores da política e como esse meio é implacável, sobre questões de classe social e o tratamento a imigrantes, sobre conflitos matrimoniais e sobre corrupção moral e política. São muitas ideias e o filme não chega a explorar a maioria delas de maneira a dizer algo consistente. Todo o conflito no casamento entre Mark e Abigail, por exemplo, se resolve rapidamente em uma conversa entre eles, como se fosse simples conciliar anos de ressentimentos e mentiras.
Não ajuda que Affleck e Washington não conseguem trazer muita nuance para seus personagens, falhando em ir além de serem figuras moralmente ambíguas que valorizam status acima de qualquer coisa. Gillian Anderson se sai melhor como uma operadora política que exala autoridade e comanda a sala o tempo todo, fazendo todos se dobrarem à sua vontade.
Cinismo e pós-verdade
O grande acerto do filme é a atmosfera de cinismo que se constrói já na sequência inicial, que nos apresenta Mark através de entrevistas e publicidades de campanha que nos mostram o quanto ele é um sujeito engajado, trabalhador e humilde, apenas desfazer essa impressão quase que imediatamente ao nos levar para a vida cotidiana do político, mostrando que ele está longe de ser essa figura amável e sua família é qualquer coisa menos uma família de comercial de margarina.
Esse cinismo segue até o ácido desfecho que nos lembra como o atual ambiente político e midiático é movido mais pela busca por narrativas que envolvam o público do que pela verdade. Para sobreviver nesse meio, tanto a família de Mark quanto a de seus empregados, preferem elaborar uma complicada rede de mentiras que de certa forma dá a cada um deles o que desejam ao invés de confrontarem a verdade. Apesar dos personagens serem bem sucedidos no que buscam, é menos um final feliz e mais uma amarga constatação de que a realidade se tornou secundária no mundo em que vivemos, podendo ser moldada por qualquer um com dinheiro e influência suficiente para fazê-lo.
A questão é que para chegar nesse desfecho, o clímax do filme se entrega a várias guinadas que se propõem a ser surpreendentes, mas dependem de várias conveniências narrativas e de alguns personagens, especialmente Dayle, sendo descaracterizadamente burros para que tudo funcione, tirando parte da força do modo como a trama encerra.
Embora sua abordagem cínica aos
bastidores da política seja interessante, Sobrevivência
derrapa em um texto que não consegue dar conta de suas múltiplas ambições.
Nota: 5/10
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