Escorregando na lama
A narrativa se passa dentro da continuidade estabelecida do atual universo DC nos cinemas, com a versão do Cara-de-Barro apresentada aqui sendo a mesma que apareceu na série do Comando das Criaturas. O protagonista é Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que acabou de ser indicado ao Oscar. Ao se envolver com Mia (Joana Ribeiro), a namorada do mafioso Szabo (David Dencik), Matt é atacado por ele e tem o rosto desfigurado, sendo também é falsamente acusado de abuso por Mia, destruindo sua reputação junto com sua aparência. Matt perde tudo e é abandonado pelos amigos e empresários. Ele vê uma chance de se recuperar ao descobrir uma terapia celular sendo desenvolvida pela cientista Caitlyn (Naomi Ackie), convencendo ela a usá-lo como cobaia. Inicialmente a experiência restaura o rosto de Hagen, mas ele logo descobre efeitos colaterais.
Houve quem comparasse o filme a A Substância (2024) por trazer um astro de hollywood se submetendo a um experimento perigoso para preservar a aparência, mas eu diria que a narrativa é mais próxima de algo como A Mosca (1986), de alguém movido pelo ego que ultrapassa barreiras de segurança em um experimento, é completamente modificado por ele, tenta se apegar à humanidade pelo que sente por uma mulher, mas cede aos piores impulsos ao ver que não é completamente correspondido. Tem também alguns toques de Olhos sem Rosto (1960), do Georges Franju, principalmente na questão da desfiguração facial.
O filme acerta ao não tentar transformar Matt em um anti-herói como a Sony fez com personagens como Kraven, tratando seu protagonista devidamente como um vilão. Matt é uma figura trágica, abandonada e traída pelas pessoas ao seu redor, mas também é um sujeito vaidoso, movido pelo ego e por um complexo de inferioridade mal resolvido por conta de sua origem humilde. Quando decide atacar quem o prejudicou, ele não faz isso por um senso de justiça, mas de vingança pessoal, pensando apenas nos próprios interesses. É um personagem interessante justamente porque entendemos o que move o sujeito embora seja difícil aderir completamente à sua perspectiva por causa das facetas mais sombrias de sua personalidade, com seu exterior cada vez mais refletindo sua monstruosidade interior.
O envolvimento com Caitlyn é relativamente previsível (e meio cafona em muitos momentos), assim como o eventual afastamento dela e o ciúme que passa a mover Matt por conta de John (Max Minghella, de O Conto da Aia), noivo de Caitlyn (como já falei é uma estrutura bem similar a A Mosca). Apesar dessa faceta mais óbvia, a cientista consegue se revelar uma personagem interessante por conta de sua ética fluida, disposta a ultrapassar certos limites para provar o valor de sua pesquisa e recuperar seu status. Ela também tem é movida por ego e pelo senso de ter algo a provar para o mundo e talvez por isso os dois se conectem tão bem, embora Caitlyn tenha limites morais que Matt vai aos poucos abandonando.
Perito em formas humanas
Como se trata de uma história sobre um sujeito capaz de moldar o corpo de várias maneiras, o filme explora isso através do horror corporal. Mesmo antes de Hagen passar pelo experimento com Caitlyn o filme já nos oferece imagens agoniantes como a sequência em que Szabo mutila seu rosto ou a montagem com várias imagens explícitas das plásticas as quais Hagen se submete para tentar reconstruir a face, mostrando médicos tirando pedaços de seu nariz ou mexendo em sua pele.
Muito do horror do filme vem de explorar a maleabilidade corporal do personagem de um jeito realista e grotesco. O momento em que as pálpebras dele colam e ele tenta cortá-las no banheiro do avião durante uma turbulência é uma das coisas mais angustiantes que vi no cinema esse ano, com supercloses da pele de Matt sendo cortada por uma tesoura. O modo como ele inconscientemente assume a aparência de outras pessoas é outra fonte de sustos, a exemplo do segmento em que Caitlyn monitora o sono de Matt e ele vai se transformando em várias pessoas enquanto se debate na cama, incluindo a própria Caitlyn, refletindo a inquietação do inconsciente de Matt.
O clímax no qual Matt invade a boate de Szabo mostra o quanto ele pode ser perigoso no domínio de seus poderes, mudando de forma para eliminar os capangas do inimigo um a um, criando o caos na boate e confundindo os adversários enquanto se infiltra com facilidade nos espaços restritos. É uma sequência que mostra tanto os poderes de Matt quanto suas habilidades como ator, facilmente fazendo as pessoas acreditarem que ele é quem finge ser.
As interações finais entre Matt e Caitlyn evidenciam que o protagonista está além de qualquer redenção, tendo cedido aos seus piores impulsos, se dispondo a destruir até mesmo as coisas que valoriza. O percurso do personagem tem um quê de tragédia justamente por vermos que seu caminho poderia ter sido diferente, mas Matt se inebriou com o poder que recebeu e escolheu dar ouvidos às suas vontades mais sombrias até chegar a um ponto sem retorno.
Ainda que seja bastante
tributário a outros filmes de horror corporal, Cara-de-Barro ao menos apresenta um estudo de personagem eficiente
conforme vemos seu protagonista exteriorizar seu monstro interior, explorando
com criatividade o potencial grotesco de suas habilidades.
Nota: 7/10
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