segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Crítica – A Última Casa

 

Análise Crítica – A Última Casa

Review – A Última Casa
Mesmo depois de quase seis anos do início da pandemia, ainda sentimos os impactos daquele período por conta do confinamento e dos temores constantes de uma ameaça que não vemos e não compreendemos exatamente. A Última Casa dialoga um pouco com esses sentimentos, mas leva sua premissa a direções pouco interessantes.

Confinamento familiar

A narrativa acompanha a família de Jason (Wagner Moura) e Ann (Greta Lee). Uma estranha chuva cria uma barreira ao redor das casas e as pessoas ficam presas dentro de suas residências sem conseguir sair e sem qualquer contato com o mundo, já que sinais de tv, rádio ou internet deixam de funcionar. Agora o casal precisa pensar em como gerenciar os recursos que tem, lidando com o confinamento e os dois filhos.

É mais uma história sobre sobrevivência no apocalipse, transitando por conflitos comuns a esse tipo de história, como a busca por recursos, a importância de saber sobreviver e as tensões que emergem da escassez e do desespero de viver com tantas limitações. Embora o filme não consiga trazer nada de novo a eles elementos já conhecidos, ao menos consegue evocar a confusão e a ansiedade de um confinamento súbito e forçado como muitos de nós experimentamos na pandemia. As performances de Wagner Moura e Greta Lee contribuem para dar alguma credibilidade emocional aos personagens, mostrando como eles tentam manter uma fachada de confiança diante dos filhos, mas estão igualmente desesperados e com medo. Os atores, no entanto, ficam limitados por um texto que não dá aos personagens qualquer outro atributo que não a busca por sobrevivência.

O principal problema é que apesar das tensões e desafios apresentados, eles não evoluem para um drama ou conflito propriamente dito porque são rapidamente resolvidos. Assim que a família fica sem comida, obrigada a comer os peixes de estimação do filho mais velho, logo uma parte da chaminé solta e Jason cria armadilhas para pegar pequenos animais que parecem chegar em abundância. Como todo obstáculo se resolve muito rápido, o resultado é algo inerte dramaticamente.

Horrores abissais

Se a primeira metade consegue ao menos fazer a audiência minimamente se conectar com os personagens as coisas pioram rapidamente depois que a trama dá um salto temporal de cinco anos no futuro. Se torna mais difícil crer que eles tenham conseguido sobreviver tanto tempo apenas com uma horta improvisada dentro de casa e capturando pequenos animais pela chaminé. Também é difícil crer que a gasolina do carro de Jason continuasse utilizável depois de tanto tempo.

Essa segunda metade também traz com mais evidência as criaturas responsáveis pela chuva e aí tudo vira um filme de monstro ruim. A criatura que passa a entrar na casa dele de tempos em tempos evoca as criaturas abissais da literatura de H.P Lovecraft, mas é prejudicada por uma computação gráfica artificial. Talvez ciente das limitações dos efeitos visuais, o filme opta por usar uma câmera tremida e montagem picotada em muitas cenas com a criatura, o que só piora as coisas, tornando tudo um borrão digital ininteligível. Essas tentativas de entrar no terreno do horror falham em trazer qualquer senso de tensão ou medo.

A guinada também chama a atenção para como o filme transita entre vários temas sem se comprometer muito com nenhum nem dizer algo consistente. Parece ser uma metáfora para o confinamento da pandemia, depois vira uma fábula moral sobre família ou coletividade para no fim se tornar uma parábola sobre nossa relação com o meio ambiente e nada disso é desenvolvido a contento.

A maneira como a trama lida com as criaturas gera mais questionamentos do que soluções. Se eles são seres marinhos retomando o controle do planeta, porque fechar as pessoas em suas casas e esperar que elas morressem sozinhas ao longo dos anos? Porque não entrar nas casas e matar logo todo mundo? Se eles não davam a mínima se os humanos viviam ou morriam, porque a criatura passa a regularmente entrar na casa dos personagens depois de cinco anos?

Tudo isso culmina em um desfecho inane na qual a escolha da família em poupar uma criatura capturada resulta neles sendo poupados pelas criaturas. Eu entendo o simbolismo que o filme tenta construir, usando esses eventos como metáfora para a importância da humanidade viver em comunhão com a natureza ao invés de tentar dominá-la. A questão é que dentro do contexto narrativo e do universo que o filme nos apresenta essa decisão das criaturas não soa plenamente justificada, sendo mais algo que a acontece porque a trama dita que deve acontecer.

Embora conte com performances dedicadas de Greta Lee e Wagner Moura, A Última Casa resulta em uma produção inane, que tenta abarcar muitos temas, mas nenhum é explorado de maneira interessante.

 

Nota: 4/10


Trailer

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