terça-feira, 11 de agosto de 2026

Crítica – Sugar: Segunda Temporada

 

Análise Crítica – Sugar: Segunda Temporada

Review – Sugar: Segunda Temporada
A primeira temporada de Sugar começa como um interessante noir contemporâneo acompanhando o detetive cinéfilo John Sugar em casos de pessoas desaparecidas em Los Angeles. Uma reviravolta no meio da temporada, no entanto, muda a série ao revelar que ele é um alienígena e que a presença dele e de seu povo foi descoberta. A mudança causou reações polarizadas, mas, geral, gosto da primeira temporada e fiquei curioso como esse segundo ano ia abordar as consequências dessa guinada.

Cidade dos anjos e demônios

A temporada começa aparentemente resolvendo rapidamente o gancho do primeiro em que Sugar (Colin Ferrell) descobria que sua irmã estava viva. Digo aparentemente porque é muito óbvio que é um despiste, mas o que incomoda mesmo é que isso meio que retorna o personagem ao seu status quo de atuar como detetive em casos de desaparecimento. Dessa vez o detetive é incumbido de ajudar o boxeador Danny Moon (Jin Ha) a encontrar seu irmão desaparecido, Danny (Raymond Lee).

Como é típico do noir, o que parece ser um caso simples de um viciado sumido revela um enorme nó de crimes e corrupção no centro de Los Angeles. Enquanto investiga o crime, Sugar esbarra com um esquema de drogas vendidas muito abaixo do preço para ampliar a população de viciados, policiais corruptos que protegem o tráfico e colaboram com um esquema de fraude imobiliária usando os dados de viciados ou pessoas em situação de rua mortas para receber dinheiro de um programa de habitação popular. É meio rocambolesco, mas nunca soa inverossímil, dialogando com o fatalismo do noir sobre grandes cidades (e a sociedade como um todo) estarem presas em uma complexa teia de crimes e corrupção que não é simples de desfiar.

Nesse sentido, o estatuto de Sugar enquanto alienígena serve para que ele comente com certo distanciamento sobre a condição humana e o modo como tratamos nosso semelhantes, em um momento ele pondera sobre como é absurdo que as pessoas precisem pagar para ter um teto sob as próprias cabeças, como se moradia não fosse um direito fundamental. Ao longo da temporada o detetive caminha entre o cinismo e a esperança, se desencantando com a amoralidade do ser humano, como o corrupto policial Vega (Tony Dalton), que chega a dizer que Sugar cometeu um erro em não matá-lo quando teve a chance, já que ele nunca pararia de perseguir os irmãos Moon. Ele, no entanto, também encontra motivos para crer no nosso potencial, seja no forte laço que conecta os Moon ou no modo como consegue mostrar à golpista Val (Sasha Calle) o potencial que ela tem para o bem ao contratá-la como sua assistente.

Como muitos protagonistas do noir Sugar caminha no fio da navalha da moralidade, sempre tentando fazer a coisa certa, evitando ações drásticas ou violência, mas se vendo obrigado a agir fora da lei para acertar as coisas por conta da estrutura corrupta de nossa sociedade. A experiência o faz pensar o quanto seu tempo na Terra o afetou e o tornou mais próximo dos seres humanos no que temos de pior e melhor.

Invasores entre nós

Só no episódio final que a série retoma de modo mais proeminente a investigação de Sugar no senador que teria descoberto a presença de seu povo no nosso planeta, obrigando os aliados de Sugar a deixarem a Terra. É um desfecho que se entrega a uma série de reviravoltas que são bastante previsíveis. Era evidente que Djen (Mireille Enos), a irmã de Sugar, não estava realmente morta, afinal algo tão importante dificilmente aconteceria fora de cena, sendo informado via diálogos.

Do mesmo modo, era bem previsível que Charlotte (Laura Donnelly), a misteriosa mulher com quem Sugar se envolve romanticamente, não estava ali para ser apenas um interesse romântico. Considerando as inúmeras vezes que eles se encontram fortuitamente era fácil pensar que esses encontros não eram acidentais e que Charlotte estava vigiando Sugar, seria bem preguiçoso se fosse só coincidência. Sem falar que todo noir precisa de sua femme fatale e Charlotte era a candidata óbvia.

Isso tira parte do impacto do clímax, já que as revelações não tem a força que deveriam. Por outro lado, o final deixa alguns elementos instigantes para uma possível terceira temporada ao apontar que os planos de Djen com seu aparato climático estão longe da benevolência que o povo de Sugar costuma demonstrar e que ela, tal como ele, também foi bastante afetada pelo tempo que passou em nosso planeta, ainda que de uma maneira diferente. Se Sugar passou a apreciar a humanidade apesar de todos os seus defeitos, percebendo o potencial que há nas pessoas, Djen demonstra certa superioridade, como se humanos não merecessem ser ajudados e servissem apenas como ferramentas em seus planos.

Por conta de alguns tropeços, principalmente em elementos bem óbvios na condução dos mistérios, a segunda temporada de Sugar é um pouco inferior ao seu ano de estreia, embora seu misto de noir e leve ficção científica continue rendendo um instigante exame de seu protagonista e da condição humana. Resta saber se uma eventual terceira temporada trará de maneira mais proeminente esses elementos de ficção científica e se irá funcionar para a série.

 

Nota: 7/10


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