terça-feira, 18 de agosto de 2026

Crítica – Coyote vs ACME

 

Análise Crítica – Coyote vs ACME

Review – Coyote vs ACME
É difícil não pensar na máxima “a vida imita a arte” ao assistir Coyote vs ACME. O filme fala sobre ganância corporativa e a dificuldade de enfrentar uma mega corporação para que ela seja finalmente responsabilizada pela sua negligência e desmandos. Pois para chegar aos cinemas o filme precisou enfrentar ganância corporativa e viu a dificuldade de enfrentar uma mega corporação que não quer ter responsabilidade pelas suas ações. A Warner, que produziu o filme, queria engavetar a produção e nunca lançá-la, trancando-a em seu cofre para receber descontos em impostos da mesma forma que fez com o filme da Batgirl e a continuação de Scooby! (2020).

Diferente dos outros dois, que não tinham completado pós-produção quando foram engavetados, Coyote vs ACME estava finalizado quando a Warner decidiu cancelá-lo, o que tornou a decisão ainda mais revoltante. Os envolvidos com o filme se mobilizaram para tentar salvá-lo e o que se seguiu foi uma batalha de quase um ano para conseguir uma distribuidora para comprar o filme e durante o processo a Warner adotou uma posição de dificultar as negociações, pedindo valores altíssimos e recusando contraofertas. Com muito esforço e mobilização a Ketchup Entertainment (que já tinha comprado os direitos do longa animado Looney Tunes O Filme: O Dia Que a Terra Explodiu) conseguiu adquirir os direitos de distribuição e o filme finalmente chega aos cinemas depois de enfrentar poderes corporativos tão vilanescos quanto os que o Coiote enfrenta na trama.

Indústria sem escrúpulos

A narrativa é levemente baseada em um artigo cômico da revista The New Yorker centrada em Wile E. Coyote que há décadas tenta e fracassa capturar o Papa-Léguas usando traquitanas produzidas pela corporação ACME. Cansado de ver os produtos falharem, o Coyote resolve processar a ACME com a expectativa de capturar o Papa-Léguas durante o processo. O advogado Kevin Avery (Will Forte), especialista em conseguir pequenas indenizações para desenhos que se machucam com os produtos ACME, se envolve no processo, mas hesita em enfrentar o poderoso departamento jurídico da ACME chefiado pelo implacável Buddy Crane (John Cena). Agora Avery (cujo sobrenome foi claramente inspirado no animador Tex Avery) e sua estagiária Paige (Lana Condor) se veem imersos em um jogo perigoso de segredos corporativos.

Misturando animação e live-action, o filme imagina como seria se um desenho tivesse que lidar com as constantes consequências de objetos falhando e lhes causando danos. Recorrendo a memórias de décadas de engenhocas fracassando, vemos as múltiplas e hilárias tentativas do Coyote em pegar o Papa-Léguas e as várias maneiras criativas em que tudo dá errado. Há um componente nostálgico nisso tudo, principalmente quando o filme recorre a imagens de antigos desenhos dos Looney Tunes, mas nunca é reduzido a meramente lembrar do passado, a trama usa isso para informar o conflito presente.

Will Forte faz de Avery um sujeito que se contentou em não assumir riscos ou confrontar problemas, preferindo aceitar qualquer migalha que lhe oferecem. Ele tem uma dinâmica divertida com a idealista estagiária que sempre o impele a buscar mais e pela insistência do Coyote em não desistir. O filme se preocupa em construir uma conexão entre Avery e o Coyote, mostrando como ele acaba se inspirando pela persistência maluca de seu cliente e talvez seja por isso que o filme funciona tão bem, a narrativa se esforça e consegue fazer sua audiência se importar com seus dois protagonistas, mesmo um deles sendo um coiote de desenho animado que não fala e está sempre explodindo as coisas ao seu redor.

Confesso que eu fiquei surpreso com quando me conectei com esses personagens e mesmo com a declaração (ou melhor, bipes) do testemunho do Papa-Léguas em que a ave afirma considerar o Coyote como um amigo. São instantes inesperados de emoção entre dois personagens que passam a maior parte de seu tempo tentando matar um ao outro.

Processo aloprado

Claro, não seria uma história dos Looney Tunes sem o humor aloprado desses personagens. Muito da comédia vem do humor físico das engenhocas do Coyote e da lógica cartunesca dos atentados da ACME contra Avery, como jogar um piano em cima do carro do advogado. Há sempre algo maluco acontecendo, mesmo que no fundo da cena, como no momento em que Avery e Paige conversam sobre o processo enquanto ao fundo o Coyote tenta reconstruir a parede do escritório deles depois que ela foi destruída por um trem que saiu de um túnel pintado nela.

O senso de ironia que permeia os diálogos e situações é outro acerto do filme, como o momento em que Avery assiste TV em seu quarto de hotel para se distrair do barulho que o Coyote faz no quarto do lado e recebe uma ligação avisando que o barulho de sua televisão, não a criatura no quarto do lado construindo sabe-se lá o quê, está incomodando os outros hóspedes. As cenas no tribunal divertem ao mostrar a dificuldade do Coyote em seguir as regras humanas, a exemplo da cena do detector de metais, e do caos que seria tentar conduzir um processo jurídico com desenhos animados como no testemunho do Taz que, ironicamente, é o Relações Públicas da ACME.

John Cena diverte ao se entregar a exageros como o vilão, um típico advogado sem escrúpulos que acha que pode fazer o que bem entende e parece satisfeito com a própria maldade. Sim, é um personagem cartunesco, mas esse é um universo cartunesco, ainda que também habitado por humanos, então funciona.

Com bastante humor e uma inesperada conexão emocional entre seus personagens, Coyote vs ACME é uma grata surpresa e a melhor combinação de animação e live-action desde Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988).

 

Nota: 9/10


Trailer

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