Investigação espetacularizada
O filme abre com cenas de um dos programas de Hansen, com câmera dividida mostrando a atriz recebendo o investigado numa casa vazia, já seus pais estariam viajando, enquanto outras câmeras mostram Hansen se preparando em outro cômodo e a polícia esperando do lado de fora. Quando Hansen entra em cena, é visível que o interesse não é questionar ou ouvir o investigado, é desmoralizar o sujeito. O investigado tenta ir embora e assim que sai da casa é cercado por dezenas de policiais.
Por mais que o programa tente se vender como um esforço heroico para prender predadores que rondam a internet, o que as imagens mostram é algo muito mais voltado para o espetáculo do que em uma investigação séria. O flagrante preparado, o confronto de Hansen, a presença da polícia, tudo isso é usado não para nos informar sobre os vários elementos que produzem esses predadores ou tornam a internet um ambiente pouco seguro. O que eles querem é uma catarse fácil, como afirma o etnógrafo Mark de Rond entrevistado pelo documentário. Eles pegam preocupações legítimas da sociedade, como o senso de insegurança na internet e vendem essa preocupação de volta ao espectador oferecendo a catarse de ver o predador humilhado por Hansen sem, no entanto, investigar de fato os mecanismos que produzem essa insegurança ou facilitam a ação de predadores. O resultado é um programa jornalístico que não ajuda o espectador a ficar melhor informado ou tomar melhores decisões sobre a realidade à sua volta, só uma impressão de segurança e de revanche ao ver Chris Hansen expor e desmoralizar o investigado.
O documentário reforça seus argumentos ao mostrar que as conversas entre os atores e atrizes que abordavam os predadores online por si só já ofereceriam materialidade suficiente para prisões ao ter adultos se engajando em conversas de conteúdo sexual com pessoas que eles acreditavam serem menores de idade. No entanto, o programa escolhe deliberadamente montar toda a cena da “pegadinha” com Hansen surpreendendo o predador para espetáculo. A narrativa pondera que a presença de Hansen ali e sua tentativa de interrogar o sujeito durante o flagrante causam prejuízos jurídicos aos casos contra eles, já que Hansen não é policial, não informa o sujeito de seus direitos e não poder de detê-lo ou conduzir interrogatórios.
Imagens de bastidores e entrevistas com policiais envolvidos evidenciam como a polícia agia como se fosse funcionária do programa, seguindo direções de Hansen e dos produtores em termos de como se posicionar ou o que perguntar para os sujeitos detidos, mostrando que até mesmo as autoridades estão ali para contribuir para o espetáculo de Hansen do que fazer um trabalho sério de prender predadores e deixar a sociedade mais segura.
Legado questionável
O filme entrevista um dos promotores que trabalhou com Hansen e é curioso como o sujeito cai em contradição ao dizer que os sujeitos que prende são pessoas sem antecedentes criminais ou histórico questionável, mas insiste que está tirando das ruas criminosos experientes e extremamente perigosos apesar dele mesmo apresentar dados contrários a isso. É importante deixar claro que não estou aqui dizendo que os predadores que Hansen expôs são inocentes ou são vítimas dele, eles são pessoas adultas que conscientemente se envolveram em interações de cunho sexual com pessoas que acreditavam ser menores de idade, então obviamente não são bons sujeitos.
A questão é que Hansen vende seu programa como se estivesse prendendo criminosos de carreira, pessoas com diversos crimes nas costas, pedófilos do quilate de Jeffrey Epstein, quando seus alvos são só uns otários sem caráter que achavam estar descolando sexo fácil com menores, cujos atores demonstravam interesse, concordância e até encorajavam ou pressionavam seus alvos (em uma cena a atriz diz ao predador que se ele não agir logo irá perder interesse). Tudo isso coloca em questão a ética desses flagrantes, afinal em alguma medida eles estão instigando os alvos à conduta que desejam. De novo, ninguém pego é exatamente um coitado. Um adulto que fica online procurando adolescentes para conversar provavelmente não tem boas intenções, mas a maneira como o programa escolhe expor esses predadores torna os casos contra eles muito frágeis e facilita que não haja muita consequência, falhando na dita missão do programa em tornar a sociedade mais segura. Isso não é acidente. Como o documentário argumenta, o foco nunca foi prender pedófilos ou fazer a sociedade ficar mais segura, o foco sempre foi espetáculo.
O foco no espetáculo e não na integridade das investigações é evidenciado quando o documentário narra o episódio que terminou com a morte de um dos investigados. Como o sujeito não morde a isca completamente e não vai ao encontro do ator na casa vazia, o programa decide quebrar a própria fórmula e vai até a casa do sujeito acompanhado de policiais. Ao ver as autoridades cercando sua casa, o sujeito pega uma arma e se suicida. É difícil olhar para as imagens e não pensar que o programa é diretamente responsável por essa morte e que a polícia, por seguir cegamente as instruções do programa, foi conivente com isso. Mesmo sem pegar o sujeito no flagra, as conversas já seriam o suficiente para a polícia abrir uma investigação e prender o sujeito, mas o programa não quer só prender os predadores, ele quer o confronto direto com Hansen, quer as imagens do jornalista humilhando seus alvos e ao perseguir isso a qualquer custo causaram a morte de uma pessoa.
O filme reforça o legado tacanho do programa de Hansen ao mostrar a onda de imitadores que gerou. Uma série de investigadores amadores que atraem e expõem predadores de maneira muito mais descuidada do que Hansen, confrontando o sujeitos no meio da rua, correndo o risco do indivíduo estar armado, agindo sem o acompanhamento da polícia, o que deixa as ações deles sem respaldo legal e sujeito a processos. Alguns desses imitadores até cometem crimes no curso de suas filmagens, como o sujeito que traz atores vestidos de policiais (se passar por policial é ilegal) para fingir que irão prender os sujeitos filmados. Esses imitadores repetem o discurso de Hansen de que estão tornando a sociedade mais segura, mas na boca deles soa ainda mais inócuo já que sequer há desdobramentos legais das ações deles, eles apenas expõem a imagem dos sujeitos na internet. Claro, quem é exposto talvez tenha sua vida prejudicada, mas dificilmente passa disso.
Caçador caçado
O documentário demora muito acompanhando esses imitadores, entrevistando vários deles e começa a perder fôlego ao se demorar demais sobre essas figuras que são bem menos interessantes que Hansen e as pessoas de seus programas. É muito evidente que esses imitadores são pessoas bem simplórias, encantadas com a catarse fácil de expor esses predadores ou picaretas em busca de visibilidade e grana fácil na internet.
A produção retoma o fôlego ao voltar seu foco a Hansen e ao canal de Youtube aberto por ele no qual ele continua seguindo a fórmula de To Catch a Predator. Ao trazer um Hansen no presente, o documentário mostra como ele não mudou nada, continua tendo uma ética questionável e não se importa com as consequências de seu programa. A narrativa mostra um caso em que eles registraram um sujeito que tinha acabado de completar dezoito anos, o que situa tudo em uma zona cinzenta, já que embora tecnicamente maior de idade, o fato de que há poucos meses era também um menor de idade levanta a questão de até que ponto o sujeito era realmente um predador e não alguém se relacionando com pessoas de uma faixa etária similar. O filme traz imagens de Hansen e seus produtores em que debatem que levar o episódio ao ar destruiria a vida do rapaz e o marcaria para sempre como criminoso sexual. Apesar das consequências severas, Hansen e os demais optam por exibir o episódio sem parecer pensar muito. Em seguida, entrevistas com a mãe do rapaz mostram como isso destruiu a família inteira.
O momento mais interessante do filme, no entanto, é o desfecho quando o diretor David Osit senta para entrevistar Hansen e conduz a interação com o mesmo clima sensacionalista que Hansen conduz sua entrevista com os predadores. Ele deixa Hansen repetir a mesma retórica de sempre, do serviço público que seu programa faz, que vítimas de predadores o agradecem na rua e então Osit revela que ele próprio é uma vítima de abuso e que se sente incomodado com o programa, já que sente que a missão de mudar a sociedade ou entender os perigos da internet não cumprida. A dinâmica muda, há longos períodos de silêncio e Hansen parece desconfortável. Ao terminar a entrevista, Osit repete o mesmo “você está livre pra ir embora” que Hansen diz aos seus predadores. O filme abre um mosaico de câmeras, mais uma vez emulando a linguagem visual do programa de Hansen, que mostram o jornalista indo embora do local. Ao construir a cena dessa maneira, o filme trata Hansen como um predador, um abutre midiático que fez fama e fortuna com a tragédia alheia e faz isso sem precisar dizer uma palavra, apenas ao conduzir a entrevista com a mesma estrutura estilística de Hansen.
É por conta dessas escolhas de
como filmar e como montar que Predators tira
muito de sua força expressiva, com a linguagem audiovisual sendo usada para ponderar como é fácil a construção do sensacionalismo midiático e que não
há muita substância por trás desse sensacionalismo uma vez que você olha por
debaixo de suas cortinas.
Nota: 8/10
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