Tempo perdido
Embora venha há tempos dizendo que seu próximo trabalho será o último, aqui o tom é mais de desfecho que qualquer outro Jackass. O filme apresenta vários momentos de introspecção de Knoxville e sua trupe na qual ponderam sobre o percurso até aqui, as maluquices que fizeram e todo o dano que já sofreram. São momentos que oferecem respiros ao caos e escatologia típicos do grupo e permitem lançar outra luz sobre eles, na qual eles conversam sobre envelhecimento, os limites do corpo e até o próprio legado. Esses momentos poderiam ser o principal elemento do filme, mas não são aproveitados como deveriam, com a câmera rapidamente cortando quando alguém se emociona ou não dando muito espaço para algumas questões que são abordadas de maneira muito passageira, como o falecimento de Ryan Dunn ou os problemas que alguns membros do grupo, como Steve-O tiveram ao longo dos anos.
A montagem, no entanto, é eficaz em costurar as falas dos personagens com esquetes passados, como o que Knoxville é atacado por um touro ou quando o grupo é detido por policiais depois que Knoxville entra em uma loja de materiais de construção vestido de detento tentando conseguir uma serra para quebrar suas algemas. Esses momentos ilustram os extremos que esses sujeitos estavam dispostos a ir, como no esquete que abre o filme em que Knoxville veste um colete à prova de balas e atira em si mesmo (não à toa toda a cena é acompanhada de um letreiro avisando o quanto tudo é idiota e que tentar repetir aquilo pode ter resultados fatais), e como seus corpos estão hoje castigados por tudo que já fizeram.
Escatologia repetida
Embora tenha alguns esquetes novos, o grosso do filme é de imagens de arquivo que lembram algumas das, err, façanhas mais marcantes do grupo, como o esquete em que Steve-O faz bungee jump de dentro de um banheiro químico cheio de fezes ou quando Ryan Dunn enfiou um carrinho de brinquedo no ânus para ver como a equipe de uma clínica reagiria ao raio-x do objeto. Para quem já é familiar com o trabalho do grupo talvez o filme ofereça pouca novidade, embora eu confesso que ri novamente com alguns desses esquetes familiares.
Fico surpreso com o alcance que o grupo tem em atrair figuras conhecidas de Hollywood em suas desventuras, além da presença por trás das câmeras de sujeitos de como Spike Jonze (diretor de filmes como Ela e Adaptação) que atua como produtor e idealizador de alguns esquetes da trupe, também temos a presença de famosos nos esquetes em si. Como o próprio Knoxville diz, alguém como Paul Walter Hauser, que tem indicações a Oscar (por O Caso Richard Jewell) e inúmeros sucessos no cinema e na televisão não precisaria se submeter a um jogo de perguntas e respostas no qual a cada erro um sujeito morbidamente obeso içado sobre os participantes é abaixado aos poucos até que seu traseiro nu cubra o rosto do infeliz participante. As imagens ainda nos lembram de colaborações com figuras como Brad Pitt e Tony Hawk ao longo da trajetória do grupo.
Os esquetes novos seguem testando os limites do que os membros da trupe são capazes de aguentar e do tanto de escatologia eles conseguem imaginar. O segmento em que eles jogam Twister depois de ingerir laxante de colonoscopia enquanto trajam calças de plástico transparente é um pouco explícito demais para mim conforme rios marrons brotam dos traseiros dos envolvidos. Em outro esquete Steve-O se submete a um exame de próstata feito por um robô e a câmera posicionada na mão do robô me fez sentir como se estivesse vendo uma colonoscopia. Chris Pontius mais uma vez exibe sua nudez em uma cena em que pratica salto com vara pelado, mas o instante mais engraçado do esquete é quando ele mostra os bastidores e vemos um operador de áudio manejando o microfone na vara de boom para tentar captar o som do pênis de Pontius balançando. São esquetes que mostram como os membros do grupo, a essa altura um bando de tiozões, ainda tem o mesmo impulso e criatividade para maluquices, ainda que o grosso do filme sejam imagens de arquivo.
A ideia de algo mais confessional
é interessante para algo que se propõe a ser o filme derradeiro e até oferece
alguns inesperados momentos de introspecção conforme eles refletem sobre o
tempo e a fragilidade de seus corpos e vidas, mas Jackass: O Último é o Melhor não aproveita plenamente essa
abordagem e o volume grande de esquetes repetidos talvez não desperte tanto
interesse de quem já conhece.
Nota: 5/10
Trailer


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