O caos é uma escada
Com a prisão do mafioso Rupert Thorne parece que o Batman e a polícia lidaram com a ameaça da máfia, mas o vácuo de poder não dura muito, com o Charada, um dos principais tenentes de Thorne assumindo o controle do crime organizado de maneira ainda mais cruel. Enquanto isso, outros vilões estranhos começam a surgir e às sombras uma figura fica à espreita, eliminando criminosos com um veneno que os faz rir até morrer.
Como na temporada de estreia, os episódios costumam apresentar um novo caso para o Batman resolver ao mesmo tempo em que trazem elementos de uma trama continuada, aqui focando na presença do Coringa à espreita. Continua o foco no lado investigativo do Batman, que precisa descobrir quem são os responsáveis pelos crimes ou onde encontrar os criminosos, inclusive há um episódio inteiro em que Bruce Wayne se disfarça de presidiário para coletar informações sobre o Charada, mostrando o quanto ele é engenhoso mesmo fora do seu traje de super-herói.
A narrativa explora o senso de moralidade do Batman e como ele está do lado do que crê ser correto, mesmo que por vezes viole a lei. Isso fica visível no episódio em que investiga os ataques a uma empresa de foguetes e descobre que uma ex-cientista da empresa, Roxy, é a responsável pelos ataques e está tentando impedir os donos da empresa de transformarem seus propulsores em armas. Vendo que Roxy tem um motivo compreensível para seus ataques, ele a ajuda a desmantelar a empresa. No episódio em que se infiltra na prisão, ele fica amigo de um dos membros da quadrilha do Charada e ao final do episódio Bruce demonstra mais lealdade com o sujeito do que o próprio Charada. Ao reencontrar a garota Carrie Kelley, o Batman inicialmente é ríspido com ela para que ela não entre em apuros, mas depois de ser salvo por ele, dá o braço a torcer reconhecendo o valor da garota.
Piada mortal
Esses elementos são importantes para os episódios finais quando o Coringa finalmente se revela à Gotham em um plano que visa mostrar como todos são selvagens, violentos e só se importam consigo mesmos. O confronto entre o Batman e o vilão é intenso pelo modo como ele testa o herói tanto física quanto intelectualmente. A batalha entre os dois em um prédio em construção mostra como o Coringa pode ser um oponente formidável, obrigando o Batman a utilizar sua astúcia e habilidades marciais para vencer. Ao contrário dos outros vilões que buscavam riqueza ou poder, o Coringa se vê como alguém que vai revelar alguma verdade sobre a condição humana, de que no fundo somos seres caóticos, violentos e desprovidos de empatia.
Ainda que seja uma motivação comum a outras versões do personagem, essa chama a atenção pela seriedade. É um Coringa que não ri, que não provoca os adversários com brincadeiras e se conduz de maneira bastante séria o tempo todo. Seu caos soa fruto de um niilismo sobre o qual ele refletiu bastante e não apenas loucura ou sadismo. Como sabemos muito pouco sobre ele ou o que realmente deseja, há uma aura de mistério no personagem e fico curioso para ver por quais caminhos temporadas futuras irão levá-lo.
Ainda que acerte em criar um Coringa que soa familiar e diferente do que já vimos, as escolhas que á série faz na construção dos vilões segue inconstante. A Arlequina continua parecendo uma personagem tão distante daquilo que a torna familiar que poderia ser alguém completamente diferente. O mesmo acontece com o Charada que é só um gângster sádico. A origem de seu apelido na série sequer faz sentido em português, já que ao invés de um criminoso que deixa charadas (riddles) para serem resolvidas, ele é um criminoso que adora encher seus inimigos de balas (riddles with bullets) e por isso recebe o nome de “Riddler”. É o tipo da situação em que me pergunto porque usar o Charada e não tanto outros vilões que se adequariam mais a um gângster violento, como o Scarface, ao invés de trazer um personagem conhecido para só para deixá-lo bem distante daquilo que o torna singular.
A versão de Roxy Rocket soa mais interessante do que a que foi criada pelo mesmo Bruce Timm para a série animada dos anos 90, tendo aqui uma motivação mais compreensível para suas ações e sendo mais uma anti-heroína do que uma vilã. A série ainda traz novas versões de personagens da Era de Ouro que não foram muito utilizadas pela DC nos últimos anos, como Rose/Espinho, cuja dupla personalidade a diferencia da Hera Venenosa apesar de ambas possuírem habilidades envolvendo plantas e venenos. Também utiliza o Sr. Zero, que era basicamente a primeira versão do Sr. Frio, sendo substituído por ele a partir dos anos 60. Aqui, o Sr. Zero é um serial killer que transforma suas vítimas em estátuas de gelo.
Elementos sobrenaturais seguem presentes como na primeira temporada, ainda que de maneira mais ambígua. O episódio focado em Jim Corrigan mostra ele se tornando o espectro, mas ao invés de ser um espírito vingativo, ele é uma espécie de morto-vivo com assuntos inacabados e cuja habilidade de punir os malignos não é explicitamente um poder dele.
Ao apresentar uma intrigante nova
versão do Coringa e explorar uma Gotham ainda mais instável, a segunda temporada
de Batman: Cruzado Encapuzado entrega
mais uma competente aventura do homem-morcego.
Nota: 8/10
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