quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Crítica – O Convite (2026)

 

Análise Crítica – O Convite (2026)

Review – O Convite (2026)
A atriz Olivia Wilde teve uma estreia promissora como diretora no bacana Fora de Série (2019), mas decepcionou em seu filme seguinte com o fraco Não Se Preocupe, Querida (2022). Agora ela chega em seu terceiro longa neste O Convite e entrega o que pode ser o seu melhor trabalho atrás das câmeras.

Cenas de um casamento

O casamento de Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen, que trabalhou com Wilde na série O Estúdio) está por um fio. Eles mal conversam, não fazem sexo, discutem constantemente e tudo na relação deles soa protocolar. Um dia Joe chega do trabalho e descobre que Angela convidou os vizinhos de cima para um jantar para agradecer a paciência deles com o barulho da reforma. Joe não está disposto a receber ninguém, mas pensa que pode ser uma oportunidade de questionar os vizinhos pelo barulho constante à noite do que parecem ser longas sessões de sexo. Quando o casal vizinho Pina (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton) chega eles encontram um clima constrangedor já que Angela e Joe estavam no meio de uma briga. Ainda assim tentam seguir com a noite que se desdobra em constrangimentos e tensões conforme os dois casais passam a se conhecer melhor.

O filme acerta na construção de um clima de constrangimento, com Joe e Angela trocando farpas de modo passivo-agressivo, demonstrando o ressentimento borbulhante entre eles, enquanto que o casal de vizinhos observa tudo com naturalidade, não parecendo incomodados em testemunhar as discussões intimas dos protagonistas, o que contribui ainda mais para o sentimento de desconforto em relação ao que acontece na trama.

A trama transita com naturalidade entre a tensão, o drama e a comédia, com o que parece ser uma discussão tensa quando Joe começa a falar sobre o barulho do sexo entre Pina e Hawk enquanto uma incomodada Angela fica com medo de perder a amizade dos vizinhos, mas logo se torna pateticamente cômico quando Pina e Hawk mostram imagens da câmera de sua porta Joe se encostando na porta para ouvir o som do sexo deles. Tudo ganha contornos de absurdo quando o casal de cima começa a contar sobre as orgias que organizavam enquanto Angela e Joe deixam de lado seus desentendimentos e se juntam na curiosidade sobre os vizinhos.

Relações complexas

Com esses momentos de absurdo e personagens que pendem para a esquisitice, principalmente Hawk e Pina, seria fácil transformar tudo em uma caricatura e apenas olhar os personagens como figuras patéticas, mas a trama evita fazer isso e dá diferentes camadas aos seus personagens. Se Hawk parece só um surubeiro esquisito, logo sabemos mais sobre seu passado e Edward Norton consegue nos fazer sentir a dor do personagem quando ele fala da morte de sua primeira esposa e a depressão de sua vida pregressa.

Do mesmo modo, Pina nos é apresentada como um clichê da europeia excêntrica e exótica, com uma conduta bastante sexualizada, o que rende momentos divertidos como a cena em que ela confronta Joe a respeito dele olhar para os seios dela sempre que estão no elevador. Pina, no entanto, se mostra a pessoa mais ponderada e madura do grupo, usando sua experiência como terapeuta para dizer algumas verdades duras para Joe e Angela, em especial quando menciona que a filha deles certamente percebe o ressentimento e infelicidade dos pais, afirmando que ficar juntos pela menina só atrapalharia o crescimento dela e que talvez fosse melhor eles terminarem se não conseguem se acertar.

Olivia Wilde faz de Angela alguém que abriu mão do próprio potencial para tentar ajudar a carreira do marido e criar a filha e agora se vê sem perspectivas e questionando o próprio propósito, se ocupando com reformas e decoração para não confrontar o próprio vazio. Seth Rogen, por sua vez, é o elo fraco do elenco, interpretando o mesmo tipo de maconheiro imaturo que costuma fazer. Sim, ele é eficiente ao compor a frustração que devora Joe por dentro, eventualmente demonstrando como ele prefere marinar na própria infelicidade ao invés de confrontar isso ou fazer algo a respeito, puxando toda sua família para baixo.

O filme aproveita bem o espaço confinado do apartamento para dar vazão aos vários conflitos e elementos da personalidade dos personagens, direta ou indiretamente. As imagens nos corredores informam do passado de Angela e do talento que ela abriu mão conforme Hawk comenta sobre sua arte. O piano abandonado de Joe, cheio de tralhas em cima, mostra como ele deixou de lado suas aspirações de ser músico ou compositor. Os tons frios do apartamento servem como uma materialização do relacionamento arrefecido de Joe e Angela. Uma trama confinada a um único espaço e calcada toda na interação entre quatro personagens poderia facilmente perder o fôlego ou se tornar entediante, mas O Convite consegue nos manter investidos conforme desvela as várias camadas de conflitos entre seus personagens.

 

Nota: 8/10


Trailer

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