sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Crítica – Na Zona Cinzenta

 

Análise Crítica – Na Zona Cinzenta

Review – Na Zona Cinzenta
Impressionante como o diretor Guy Richie parece ter esquecido o que tornava seus filmes interessantes. Produções como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes (1998) ou Snatch: Porcos e Diamantes (2000) eram repletos de personagens, de espaços e figuras pitorescas, cuja excentricidade fazia tudo parecer descolado. Este Na Zona Cinzenta é o inverso, ele tenta ser descolado sem exibir qualquer senso de personalidade.

Dinheiro sujo

A figura central da trama é Rachel Wild (Eiza Gonzalez), uma advogada especializada em recuperar dinheiro para grandes bancos e empresas, operando tanto dentro quanto fora da legalidade (daí o título do filme). Ela é contratada por um banco para reaver uma grande quantia que sumiu nas mãos de um bilionário espanhol, Manny Salazar (Carlos Bardem). Para isso ela emprega os mercenários Sid (Henry Cavill) e Bronco (Jake Gyllenhaal) para sabotarem as operações de Salazar enquanto usa a lei para congelar as finanças dele.

Eiza Gonzalez soa mal escalada como uma advogada veterana e durona que acaba com qualquer um que cruzar seu caminho. Ela nunca evoca a aura de autoridade ou ameaça que Rachel deveria ter consigo e também soa jovem demais considerando a reputação que ela tem e a devoção quase suicida que seus mercenários tem por ela, inclusive se referindo à advoga pelo codinome “mãe”. É o tipo de personagem que deveria ser feita por alguém mais velha como Julianne Moore ou Toni Collette.

Jake Gyllenhaal e Henry Cavill interpretam dois mercenários indistintos um do outro, já que nenhum tem qualquer traço de personalidade além de ser muito bom no que faz. O filme tenta fazer os dois soarem descolados e estilosos, mas como são desprovidos de qualquer singularidade ou característica que os tornem interessantes, até mesmo as trocas de farpas com frases de efeito engraçadinhas, soam forçadas e não tem impacto algum. O vilão é só um bilionário ganancioso genérico, também sem qualquer personalidade ou mesmo motivação. Ele é um escroto e pronto, sendo igualmente esquecível.

Não ajuda que o roteiro tenha vários furos. Se o contador que Sid estava monitorando era tão paranoico, porque o sujeito aceitou o presente de um desconhecido e colocou em seu escritório pessoal sem sequer checar o objeto por grampos? Se Rachel tinha provas de que Salazar tentou matá-la, porque se contentar em congelar seus bens em um tribunal civil ao invés de ir atrás de uma investigação criminal para devassar ainda mais as contas dele? A perseguição final acontece três meses depois das cenas de preparação mostradas no início do filme e ainda assim todas as armadilhas que eles deixaram na estrada, incluindo explosivos e um alçapão escavado no meio da pista, ainda funcionam perfeitamente sem terem sido descobertas ou acidentalmente acionadas.

A ação é competente, o problema é que tudo é tão genérico que não conseguimos nos importar com os personagens. Como eles facilmente despacham qualquer ameaça o filme também não consegue criar qualquer senso de perigo. Como aconteceu em outras produções recentes dirigidas por Richie (como Esquema de Risco ou O Pacto) é um filme sem nada marcante (em termos de narrativa, estilo ou atuações) que poderia muito bem ter sido dirigido por qualquer outra pessoa e que mais parece um daqueles filmes de streaming feito a toque de caixa para encher catálogo de plataforma. A impressão assistindo Na Zona Cinzenta é que estamos vendo um argumento que não foi transformado em roteiro. Foi construída uma sucessão de ações, mas não há qualquer tipo de caracterização ou drama nelas.

 

Nota: 4/10


Trailer

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