Inimigo íntimo
A trama segue Elize (Lorena Comparato) a partir do momento em que ela conhece Marcos (Henrique Kimura) quando trabalhava como prostituta até o momento da prisão dela pelo assassinato. O principal problema do filme é o quanto os personagens são construídos de maneira superficial. Desde a primeira cena do filme em que vemos Marcos e Elize num quarto o filme já deixa claro o quanto Marcos é escroto com ela e a vê como objeto e isso é basicamente o personagem inteiro. Não que seja um retrato equivocado, por tudo que já foi divulgado do caso ele provavelmente era um babaca mesmo, mas se a ideia é entender o que levou ao crime fazer dele uma figura unidimensional não ajuda a uma maior compreensão.
Alguns diálogos citam a relação problemática que ele tem com o pai e que o pai não o vê como um sucessor digno. Se essa relação com o pai realmente fosse explorada em cena ao invés de comunicada ao público em diálogos isso poderia ajudar a dar mais camadas a ele sem necessariamente redimi-lo.
Já com Elize o filme tenta dar a ela alguma ambiguidade. Por um lado mostra como uma vida de maus tratos, sendo abusada pelo padrasto e ignorada pela mãe, somada à infidelidade e abusos psicológicos do marido, a colocam como alguém presa em um ciclo de relações tóxicas, desesperada para sair disso. Por outro lado, as cenas em que Marcos a leva para caçar mostra que ela tem uma facilidade em matar e que não se abala com violência, tentando sugerir que ela é naturalmente violenta ou cruel.
Essa ambiguidade, porém, não se efetiva ao longo da história, já que toda vez que a vemos reagir com violência depois disso, com o padrasto ou o marido, são ações de tentar rechaçar (ainda que talvez de forma desproporcional) as condutas abusivas dos homens ao seu redor, como se ela já estivesse farta disso e disposta a qualquer coisa para deter esse tipo de situação. São momentos em que a violência dela soa, em alguma medida, justificada pelas circunstâncias, não deixando muito espaço para dúvida se ela apenas reagiu ou se sempre foi uma psicopata cruel.
Lorena Comparato se esforça para trazer um senso de solidão e desamparo para Elize conforme seu casamento começa a erodir. A performance dela informa o desespero da personagem conforme ela vai se dando conta que apesar de ter conquistado o conforto que sempre sonhou, continua presa a relações abusivas e que ela não tem como sair dali com a filha ou com recursos por conta do poder do marido. Ela traz a vulnerabilidade e intempestividade da personagem, mas fica limitada a um texto inconsistente.
Vítimas e algozes
Esse é um problema que não está presente apenas na construção de Elize, mas no filme como um todo. A dinâmica tóxica entre ela e o marido é apresentada para tentar provocar uma reflexão a respeito de quem é vítima ou algoz na situação, mas o próprio filme contradiz esse esforço de ambiguidade com uma série de escolhas. Uma delas é o uso de O Mundo é um Moinho de Cartola na sequência final em que Elize é presa. A canção, cuja letra fala sobre como a vida apresenta dificuldades que podem destruir nossos sonhos e esperanças, faz o desfecho da personagem soar como uma tragédia do destino, que botou abaixo o conto de fadas que no qual ela achou que estava, não como uma consequência direta de ações conscientes dela (justificáveis ou não).
Por outro lado, ao mostrar como Elize esquartejou e descartou o corpo do marido tudo é narrado como uma história de assassinato super séria, ignorando o quanto muito das ações dela foram estúpidas (um problema também em A Menina Que Matou os Pais) e seriam facilmente descobertas pela polícia (como de fato foram). Talvez se a trama a tratasse menos como uma psicopata potencial e olhasse para a história com o desapego que os irmãos Coen tem a seus personagens, constantemente tratando-os como figuras limitadas, gananciosas e despreparadas que se envolvem de maneira impensada em situações para as quais não estão preparados e tentam resolver de modo bem estúpido gerando consequências bem óbvias. Digo isso porque as ações de Elize pós crime tem muito a cara de personagem do filme dos Coen, que acha que é capaz de resolver a situação precária na qual se meteu, mas claramente não é, sequer tendo se preparado para perguntas óbvias que a polícia faria, como o que tinha nas malas ou quem era a pessoa que ela supostamente vendeu os vinhos que estavam nas malas.
Há uma tendência em produções de true crime a mostrar os culpados com um ar de monstruosidade meio mitificado, quase como se fossem figuras desprovidas de humanidade. A questão é que em casos como o de Elize, tudo é tão óbvio e ela deixa tantas provas contra si que torna difícil comprar o investimento do filme em tentar apresentá-la como uma mulher de natureza violenta e cruel. Se a ideia era ambiguidade, considerando os fatos, talvez fosse melhor pensar em outros ângulos, explorar se ela era alguém moldada por desespero ou talvez fosse só uma aproveitadora vulgar e burra.
Com isso, Elize: Sombras de Uma Mulher falha em analisar a ambiguidade da
história ou dos sujeitos envolvidos nela, além de não conseguir trazer nada de
novo a uma história que já foi muito explorada nos últimos anos.
Nota: 4/10
Trailer


Nenhum comentário:
Postar um comentário