quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Crítica – O Fim da Rua

Análise Crítica – O Fim da Rua

Review – O Fim da Rua
É curioso como em Hollywood muitas vezes ideias parecidas surgem ao mesmo tempo. Não faz nem uma semana que chegou na Netflix o suspense A Última Casa, que fala de uma família tendo seu cotidiano interrompido quando uma estranha crise os ameaça e ficam presos em casa. Agora chega aos cinemas O Fim da Rua, também sobre uma família lidando com uma ameaça estranha que transporta o seu bairro para um local estranho e agora precisam se proteger em casa. Ambos partem de elementos similares, mas os desenvolvem de maneira diferente embora nenhum dos dois seja particularmente bom.

Mundo perdido

A narrativa começa na década de 80 com a família de Greg (Ewan McGregor) e Denise (Anne Hathaway). O casamento deles está em crise e os filhos Audrey (Maisy Stella) e Brian (Christian Convery, de Sweet Tooth) notam que o fim pode ser eminente. Um dia, durante uma forte chuva, o bairro em que moram é tomado por uma estranha luz e na manhã seguinte eles descobrem que o bairro está no meio de uma floresta pré-histórica, tomada por dinossauros. Agora a família precisa encontrar um meio de sobreviver.

É tudo meio “spielberguiano” por conta da ambientação oitentista, a família em crise com o espectro do divórcio pairando sobre eles, a dificuldade dos filhos em lidarem com isso e a interferência de um elemento fantástico ou de ficção científica transformando o cotidiano dessas pessoas. É curioso que o filme abre com um churrasco (ao menos o que o pessoal dos EUA chama de churrasco) mostrando como as pessoas são próximas e todo mundo se conhece, mas assim que a crise acontece Greg e Denise (ou qualquer outra pessoa) imediatamente abandonam qualquer resquício de coletividade e se fecham em casa sem procurar ninguém ou oferecer ajuda. Denise apenas tenta checar a vizinha idosa que a ajudava com seu livro. Assim que os dinossauros tomam conta e as pessoas começam a morrer Denise sugere que busquem suprimentos ou armas nas casas próximas, mas eles nunca fazem isso embora pareçam conhecer suficientemente bem os vizinhos para saber quem poderia ter armas em casa.

Quando entra na casa da vizinha, Denise não nota nada estranho até ver os corpos e sangue na cozinha e só quando vai para o quintal da casa da vizinha é que vê a enorme floresta pré histórica atrás da casa, como se as árvores imensas não pudessem ser vistas pelo lado de fora. É o tipo da coisa que torna todo o universo pouco crível e ao longo do filme vários elementos assim contribuem para que questionemos a lógica sob a qual tudo opera, como o fato de dinossauros gigantes conseguirem se esgueirar furtivamente da família, ao invés de suspendermos nossa descrença.

Ameaça jurássica

Dos quatro personagens principais só Denise tem algum desenvolvimento conforme se esforça para manter a família unida mesmo percebendo o quanto ela e o marido se distanciaram. Já Greg é tão desprovido de qualquer qualidade, mentindo sobre estar desempregado, bebendo escondido e em geral sendo passivo, evitando conflitos e torcendo para o melhor sem fazer nada a respeito, que é difícil torcer pela reconciliação do casal. Os dois filhos inicialmente lidam com a possibilidade de divórcio dos pais, mas uma vez que eles são transportados para o passado sobra pouco o que eles fazerem além de serem resgatados pelos pais constantemente.

O diretor David Robert Mitchell (do ótimo Corrente do Mal) constrói cenas de ação que me surpreenderam pela brutalidade com a qual as criaturas devoram e mutilam suas vítimas, já que esse tipo de aventura “spielberguiana” costuma ser mais comedida em termos de violência por mais que nos façam sentir o perigo ao qual os personagens estão sujeitos. O filme também tem alguns momentos inesperados de humor, com a cena em que Greg e Denise se surpreendem com dois dinossauros transando no meio da rua, é algo tão inesperado e a decisão de Denise em fotografar o marido com a inusitada, err, paisagem atrás deles me arrancou risadas genuínas.

O clímax carece de impacto pela natureza fortuita com a qual os personagens encontram um portal que os permite voltar para casa. Por mais que toda a corrida até o portal tenha alguns momentos de tensão, todo esse segmento final soa como algo que existe só porque o roteiro dita. Não ajuda que o desfecho praticamente desfaz todas as consequências da história ao levar os personagens de volta a momentos antes do bairro todo ser movido. É uma solução covarde que magicamente ressuscita personagens mortos e tira até o peso do sacrifício de alguns deles. É uma escolha que também faz toda a reconciliação do casal principal não soar devidamente merecida, já que Greg continua sendo o mesmo sujeito que fazia Denise infeliz e secretamente se preparar para um divórcio.

A premissa de um bairro inteiro transportado para um passado pré-histórico podia ter rendido uma aventura interessante, mas infelizmente o resultado final de O Fim da Rua traz pouca coisa digna de nota.

 

Nota: 5/10


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