quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Crítica – Zootopia 2

 

Análise Crítica – Zootopia 2

Review – Zootopia 2
O primeiro Zootopia (2016) era uma animação bacana, mas não era um filme que eu sentia necessidade de uma continuação. Quando esse Zootopia 2 foi anunciado temi que fosse uma sequência caça-níqueis, feita de qualquer jeito para capitalizar em cima do sucesso do anterior. Felizmente não é o que acontece, ainda que de certa forma o filme repita algumas ideias do antecessor.

Mundo animal

Na trama, a posição de Judy e Nick na polícia está ameaçada depois de uma operação que dá errado por conta das ações deles. Mesmo por um fio, Judy continua a investigar uma conspiração para atingir a família Lynxley, que seriam os responsáveis pelas muralhas climáticas que permitem que os animais coexistam em Zootopia. Durante uma festa dada pelos Lynxley para anunciar a expansão de seu território, o local é atacado por uma cobra, Gary, e Judy descobre que os Lynxley guardam segredos sombrios, tentando ajudar Gary. Assim, ela e Nick são colocados como cúmplices do atentado e precisam investigar o que os Lynxley se esforçam tanto para manter em segredo.

Assim como no filme anterior, a narrativa toca no modo como os poderosos usam o medo como arma, fomentando o preconceito por algum grupo social, tratando-o como uma grande ameaça, para manter o público do seu lado. Essa continuação, no entanto, vai além, ponderando como o relato histórico é escrito pelos vencedores e como a reescrita do passado e o apagamento da memória de injustiças de outrora permite que os poderosos se mantenham no poder e que sua versão dos fatos não seja questionada.

É uma trama que dialoga com processos de violência colonial, no qual estrangeiros tomam um território que não lhes pertencia, removem a população do local e depois se colocam como os heróis da história, vilanizando a outra população, não muito diferente do que os Estados Unidos fez com populações indígenas em sua expansão para o oeste ou que aconteceu em outros momentos de ocupação colonial ao longo da história da humanidade.

Em meio a isso há uma crise na relação de Nick e Judy, com a natureza obstinada da coelha entrando em conflito com o olhar mais cínico e pragmático de Nick. O momento em que o gravador que Judy deu de presente a Nick funciona justamente como símbolo da crise nessa amizade e como os laços entre eles ameaçam se destruir. O arco deles repete alguns temas do filme anterior sobre superar diferenças, mas o conflito atual ao menos soa como um desenvolvimento coerente das personalidades dos dois e do momento em que eles se encontram.

Metrópole densa

Claro, nem tudo em Zootopia 2 é uma metáfora social, com a animação também oferecendo bastante humor. O universo da cidade animal sempre tem algo visualmente interessante para nos apresentar, com várias gags sendo construídas em cima da noção desses vários tipos de animais diferentes coexistindo em uma metrópole e tratando isso com bastante criatividade, como os roedores usados para desentalar produtos em uma máquina de vendas, os bodes lambendo postes gelados na festa dos Lynxleys ou o momento em que Nick diz que algo é tão útil quanto um buraco na cabeça, ofendendo um golfinho próximo a ele.

Ainda que tenha um componente fantasioso nas muralhas climáticas que sustentam os biomas da cidade, a narrativa consegue criar um universo consistente, que existe não apenas para sustentar sua narrativa, mas que soa verdadeiramente habitado, com história, cultura e vários elementos próprios ou imaginando como a nossa cultura funcionaria nesse espaço.

Muitos momentos de comédia vêm, inclusive, de referências audiovisuais que vão passar batidas do público infantil, mas que irão chamar a atenção dos adultos. A cena em que Nick encontra a antiga prefeita na prisão claramente remete a O Silêncio dos Inocentes (1991), o labirinto vegetal em uma paisagem gelada enquanto um dos Lynxleys caminha por ele evoca O Iluminado (1980) e o momento em que Judy recebe uma injeção de soro antiofídico tem uma visualidade muito semelhante à cena em que Vincent Vega injeta adrenalina em Mia em Pulp Fiction (1994).

Com tudo isso, Zootopia 2 se revela uma boa continuação que expande elementos do original e entrega uma narrativa que equilibra bem humor e comentário social, ainda que repita muitos elementos do antecessor.

 

Nota: 7/10


Trailer

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