quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Crítica – Blue Moon: Música e Solidão

 

Análise Crítica – Blue Moon: Música e Solidão

Review – Blue Moon: Música e Solidão
Acho interessante quando cinebiografias resolvem abarcar um período específico do biografado usando esse momento como uma metonímia para sua vida, se bem trabalhado pode funcionar melhor do que tentar abarcar a vida inteira de um indivíduo. Dirigido por Richard Linklater Blue Moon: Música e Solidão vai por esse caminho para falar dos últimos meses do compositor Lorenz Hart, mas reduz tanto seu escopo que acaba prejudicando suas intenções.

Crise criativa

A narrativa começa no dia da estreia do musical Oklahoma! na década de 1940. Lorenz Hart (Ethan Hawke) sai mais cedo do espetáculo e vai para o bar onde será a festa da equipe do musical. Ele tece críticas à produção, mas sabe que será um sucesso, prevendo novas empreitadas para seu parceiro criativo Dick Rodgers (Andrew Scott), que escreveu as músicas de Oklahoma ao lado de Oscar Hammerstein (Simon Delaney). Hart agora teme que Rodgers siga a parceria com Hammerstein e o deixe de lado. Assim, acompanhamos a noite de Hart conforme ele tenta entender o lugar de sua carreira, sua relação com a jovem Elizabeth (Margaret Qualley, de A Substância) e o seu legado musical.

Hawke carrega o filme com a energia intensa de Hart. É visível desde o primeiro momento em que ele começa a tagarelar para o barman Eddie (Bobby Cannavale) que sua verborragia e o modo como critica o espetáculo do amigo vem de um lugar de insegurança e ego abalado. Por outro lado, o modo como Hawke se porta evidencia o quão articulado, inteligente e versado no universo da música Lorenz Hart é. Isso fica ainda mais evidente quando Rodgers chega na festa e Lorenz imediatamente tenta monopolizar a atenção do amigo, cobrindo-o de elogios enquanto propõe futuros projetos em dupla. Assim que ele vê que Rodgers não está exatamente interessado e aponta os problemas de trabalhar com Hart por conta de seu alcoolismo e comportamento autodestrutivo, Hart começa a criticar o espetáculo de Rodgers e tenta convencer o amigo de que apenas trabalhando com ele pode fazer algo realmente bom.

É um segmento relativamente longo, mas que encapsula bem o drama do personagem. Lorenz consegue imaginar o sucesso do espetáculo e sabe que Rodgers não precisará mais dele depois desse nível de reconhecimento. Aquela festa seria praticamente a última chance de Hart provar seu valor e garantir projetos futuros, já que sem seu principal parceiro, comportamento autodestrutivo e reputação prejudicada por conta de boatos sobre sua sexualidade Hart sabe que não terá muitas perspectivas.

Festa longa

Como todo o filme se passa nessa única festa no mesmo cenário, a narrativa não tem muito como progredir os conflitos do personagem. A tensão que se estabelece na primeira meia hora é a mesma que segue até o final, com Hart se apegando a qualquer fiapo de esperança de conseguir um novo projeto naquela festa, tendo crises de insegurança ao ver que não há muito interesse nele, mas retoma alguma confiança quando é lembrado dos sucessos que produziu.

Assim, por mais que a trama se esforce para mostrar diferentes facetas de Hart, nunca reduzindo-o a uma coisa só, entendendo seu brilhantismo, mas também o modo como suas ações sabotaram a própria carreira, a impressão é de uma narrativa que anda em círculos. Linklater conduz tudo como uma tragédia agridoce, celebrando o legado artístico do compositor, algo evidenciado na cena final em que os funcionários do bar cantam Blue Moon, mas lamentando o modo como ele foi descartado pela indústria e o fim decadente que levou.

Por conta da escolha de como estruturar a história, quando o filme chega na metade, fica o sentimento que ele já falou tudo que tinha para dizer sobre o compositor e está repetindo as mesmas coisas com outras palavras. Felizmente a performance de Ethan Hawke é interessante o suficiente para evitar que as coisas mergulhem no tédio.

 

Nota: 7/10


Trailer


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