terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Crítica - O Caso dos Estrangeiros

 

Análise Crítica - O Caso dos Estrangeiros

Review - O Caso dos Estrangeiros
Movimentos migratórios são comuns na história da humanidade, mesmo as migrações provocadas por pessoas fugindo de conflitos armados aconteceram com frequência ao longo do século XX. Nas últimas décadas, no entanto, países desenvolvidos vêm restringindo cada vez mais o acesso de refugiados aos seus territórios, com discursos reacionários muitas vezes mirando em imigrantes como o maior problema a ser eliminado. Dirigido e escrito por Brandt Andersen, O Caso dos Estrangeiros tenta tecer um amplo mosaico para entender o que move essas pessoas.

Histórias cruzadas

A trama começa em 2023 com a médica Amira (Yasmine Al Massri da série Quantico) trabalhando em um hospital nos Estados Unidos. Uma ligação telefônica a faz lembrar de eventos ocorridos oito anos antes quando morava em Alepo, na Síria, e trabalhava em um hospital atendendo os vários lados do conflito que envolvia o país. A partir daí o filme se abre para acompanhar outros personagens cuja história se conecta com a de Amira em uma estrutura que lembra aqueles “filmes mosaico” que eram moda no início dos anos 2000 ao estilo de Crash: No Limite (2004).

Acompanhamos o conflito sob diferentes perspectivas, desde Amira, passando por um soldado que começa a ter uma crise de consciência, um poeta que tenta tirar a família do país e um traficante de pessoas que cobra para colocar pessoas em barcos precários para atravessarem o mediterrâneo até a Grécia. São histórias que reforçam o cotidiano brutal da região e como o temor constante ao qual aquelas pessoas estão submetidas as motiva a buscar soluções drásticas como atravessar o oceano em uma embarcação precária. Por outro lado, o filme não tem nada a mostrar que já não tenha sido dito por outras obras semelhantes sobre o tema.

Dicotomia simplória

O clímax, porém, cai na mesma dicotomia simplória de produções como Eu, Capitão (2024) ao tratar a chegada à Europa como um grande momento de triunfo como se eles tivessem saído de um local selvagem e agora chegaram a um espaço civilizado. Tudo bem que o local em que chegam de fato não é uma zona de guerra perigosa como a que estavam, mas isso não significa que a vida daquelas pessoas será menos dura em território europeu.

O mundo real nos mostra como refugiados são muitas vezes deportados aos seus países de origem, detidos nos países em que chegam e mesmo aqueles que conseguem se estabelecer no novo local vão ser tratados como cidadãos de segunda classe e levar vidas bastante precárias. Por mais que o filme narre como o capitão da guarda costeira grega decide ajudar os refugiados, sabemos que nem sempre essa experiência é assim. Mais que isso, essa visão simplória de civilização versus barbárie revela um olhar que repete visões colonialistas que tratam esses lugares como inerentemente primitivos e o estado de conflitos que há ali como fruto do atraso dessas populações e não como algo fomentado pelas potências ao longo da ocupação colonial e mesmo décadas depois de seu fim.

Com isso, O Caso dos Estrangeiros faz uma denúncia importante das condições de vida de refugiados que tentam sair de seus países, mas é atrapalhado por um olhar superficial para as questões complexas que tenta abordar.

 

Nota: 5/10


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