Histórias cruzadas
A trama começa em 2023 com a médica Amira (Yasmine Al Massri da série Quantico) trabalhando em um hospital nos Estados Unidos. Uma ligação telefônica a faz lembrar de eventos ocorridos oito anos antes quando morava em Alepo, na Síria, e trabalhava em um hospital atendendo os vários lados do conflito que envolvia o país. A partir daí o filme se abre para acompanhar outros personagens cuja história se conecta com a de Amira em uma estrutura que lembra aqueles “filmes mosaico” que eram moda no início dos anos 2000 ao estilo de Crash: No Limite (2004).
Acompanhamos o conflito sob diferentes perspectivas, desde Amira, passando por um soldado que começa a ter uma crise de consciência, um poeta que tenta tirar a família do país e um traficante de pessoas que cobra para colocar pessoas em barcos precários para atravessarem o mediterrâneo até a Grécia. São histórias que reforçam o cotidiano brutal da região e como o temor constante ao qual aquelas pessoas estão submetidas as motiva a buscar soluções drásticas como atravessar o oceano em uma embarcação precária. Por outro lado, o filme não tem nada a mostrar que já não tenha sido dito por outras obras semelhantes sobre o tema.
Dicotomia simplória
O clímax, porém, cai na mesma dicotomia simplória de produções como Eu, Capitão (2024) ao tratar a chegada à Europa como um grande momento de triunfo como se eles tivessem saído de um local selvagem e agora chegaram a um espaço civilizado. Tudo bem que o local em que chegam de fato não é uma zona de guerra perigosa como a que estavam, mas isso não significa que a vida daquelas pessoas será menos dura em território europeu.
O mundo real nos mostra como refugiados são muitas vezes deportados aos seus países de origem, detidos nos países em que chegam e mesmo aqueles que conseguem se estabelecer no novo local vão ser tratados como cidadãos de segunda classe e levar vidas bastante precárias. Por mais que o filme narre como o capitão da guarda costeira grega decide ajudar os refugiados, sabemos que nem sempre essa experiência é assim. Mais que isso, essa visão simplória de civilização versus barbárie revela um olhar que repete visões colonialistas que tratam esses lugares como inerentemente primitivos e o estado de conflitos que há ali como fruto do atraso dessas populações e não como algo fomentado pelas potências ao longo da ocupação colonial e mesmo décadas depois de seu fim.
Com isso, O Caso dos Estrangeiros faz uma denúncia importante das condições
de vida de refugiados que tentam sair de seus países, mas é atrapalhado por um
olhar superficial para as questões complexas que tenta abordar.
Nota: 5/10
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