quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Crítica – Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

 

Análise Crítica – Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Review – Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Muito pouco se sabe sobre a esposa de William Shakespeare. Não certeza sequer a respeito de seu nome, com alguns relatos dando conta de que seria Anne Hathaway e outros de que seria Agnes Hathaway. Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet a diretora Chloé Zhao (de Nomadland e Eternos) constrói uma narrativa para entender como seria a vida dela e como a uma tragédia pessoal da vida do casal teria influenciado a mais importante obra de Shakespeare.

Ser ou não ser

A narrativa é centrada em Agnes (Jessie Buckley), uma mulher que vive no interior da Inglaterra e é apegada a antigas tradições envolvendo a floresta, rezas e uso de plantas para cura. Um dia ela conhece Will (Paul Mescal) e eles se apaixonam. Eles tem três filhos, incluindo o casal de gêmeos Judith e Hamnet. Quando Hamnet morre, isso causa um dano na relação do casal, com Will se tornando distante de Agnes, se fechando em seu trabalho em Londres enquanto a esposa vive com os filhos no interior. O que Agnes não sabe é que o marido está enfrentando o luto à sua própria maneira.

O começo apresenta bem Agnes como uma mulher que não se encaixava naquela sociedade, mais independente e dotada de conhecimentos sobre o mundo e a natureza que não eram acessados pelas mulheres de então, tanto que ela é chamada de bruxa e olhada com desconfiança pelo vilarejo. Talvez justamente por ser tão diferente e ter uma visão de mundo singular que ela chame atenção de Will. Como em outros filmes de Chloé Zhao, a trama se desenvolve em uma cadência bem deliberada, desenvolvendo de maneira cuidadosa como o afeto entre os dois cresce e como eles se conectam.

Jessie Buckley é ótima em construir o senso de que Agnes parece ser alguém que não se encaixa naquele mundo, que tem seu próprio modo de vida e encontra em Will alguém que finalmente valoriza isso. A atriz também evoca muito bem o senso de devastação que toma conta uma vez que ela perde o filho. No momento em que se dá conta que Hamnet se foi ela solta um gemido gutural, como alguém mortalmente ferido e fica alguns segundos completamente imóvel como se aquela dor, aquela perda, fosse tão grande para seu corpo processar que ela para por completo.

O resto é silêncio

A dor também é visível no momento em que ela entra no teatro para ver a nova peça de Will e se choca pelo modo como o marido usou o nome do filho e elementos pessoais na história de Hamlet. São cenas com takes longos em primeiríssima pessoa no rosto de Buckley e com apenas o olhar e nuances de expressão ela consegue nos fazer sentir todo o percurso emocional de Agnes, da revolta, passando pela tristeza, até chegar na catarse final (meio que vivendo todos os estados do luto ao longo da peça), quando ela toca o ator interpretando Hamlet enquanto ele encena a morte do personagem e traz todo o teatro ao seu redor. É um momento que nos lembra do poder da arte em nos ajudar a lidar com nossos sentimentos e como o luto muitas vezes requer um apoio coletivo para ser superado.

Nesse sentido, por mais que Will seja uma figura ausente do lar e peque por não dar o devido apoio à esposa em um momento de dor ao fim ele consegue dar a ela e a si mesmo uma maneira de enfrentar aquela perda que de outro modo é possível que ele não conseguiria. De certo modo, Will funciona aqui de maneira parecida ao personagem de Stellan Skarsgard no recente Valor Sentimental, um homem distante emocionalmente, ausente da família em momentos que ela precisa, mas que se reaproxima através da arte, mostrando que apesar da distância entendia muito bem o que a família passava. Mescal torna visível a dor do dramaturgo durante os ensaios, nos quais insiste para o elenco repetir as falas, percebendo que falta a emoção com as quais ele as escreveu. Aparece também na cena em que ele fala sozinho o monólogo do “ser ou não ser”, um momento em que ele pondera sobre suportar ou não uma vida na qual carrega uma dor tão atroz. Ele volta a explorar essa vulnerabilidade durante a peça, quando interpreta o fantasma do pai de Hamlet, usando do diálogo com o filho ficcional para transmitir o que sente em relação ao filho real.

Até agora eu falei do clímax do filme e do primeiro ato, mas não mencionei muito o meio da história e há um motivo para isso. Uma vez que a trama começa a acompanhar a vida doméstica de Will e Agnes, o nascimento dos filhos, a ida de Will para Londres e o falecimento de Hamnet, a impressão é que apesar do longo período de tempo que cobre não acontece muita coisa em termos de drama, com algum conflito só retornando depois da perda do garoto. Todo esse segmento parece existir mais para nos informar como certas coisas influenciaram a peça do que para dar mais camadas a esses personagens.

O que sustenta Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é a performance de Jesse Buckley e a catarse poderosa de seu desfecho, já que a impressão é que a trama perde fôlego em seu miolo.

 

Nota: 8/10


Trailer

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