A situação humanitária da Palestina já tem sido explorada pelo cinema e pela imprensa nos últimos anos. Os ataques de Israel à região tem causado uma grande devastação e feito um número enorme de vítimas civis direta ou indiretamente, incluindo idosos e crianças. Dirigido por Kaouther Ben Hania, A Voz de Hind Rajab olha para um microcosmo desse conflito para mostrar suas consequências aterradoras.
Infância roubada
A narrativa é baseada em fatos reais, acompanhando um grupo de voluntários da organização humanitária Crescente Vermelho, que prestam auxilio humanitário à Palestina. Em janeiro de 2024 eles recebem a ligação de uma menina de cinco anos, Hind Rajab, que está presa dentro de um carro durante a invasão israelense à Faixa de Gaza. A família inteira da garota está morta dentro do carro, ela é a única sobrevivente. Os voluntários Omar (Motaz Malhees) e Rana (Saja Kilani) se mantem na linha com a menina enquanto tentam coordenar um resgate, já colocar uma ambulância para circular em uma zona de guerra ativa não é algo simples.
É uma trama focada na urgência da situação, então não sabemos nada sobre os personagens, tampouco eles tem qualquer arco além do esforço de resgatar a garota em segurança. Como o filme constrói bem o senso de gravidade ao redor do que está acontecendo e os atores que interpretam Omar e Rana convencem da tensão crescente dos voluntários, bem como o apego que eles vão desenvolvendo com a menina conformes as horas passam e os dirigentes do Crescente Vermelho tentam navegar um labirinto burocrático para salvar a menina.
Nesse sentido, a guerra é uma dupla ameaça. Não apenas pelo fato de que a garota pode ser atingida durante o confronto, mas porque os voluntários precisam dialogar com autoridades que não parecem interessadas em ajudar civis a saírem da área em segurança. Sim, se mover em uma zona de conflito é, por si só, um pesadelo logístico, no entanto, é visível que a burocracia que os voluntários enfrentam parece propositalmente desenhada para não permitir que ninguém seja retirado com vida dali.
A voz da garota do outro lado da linha contribui para o senso de urgência e aflição. É uma menina claramente assustada, desamparada, que a todo momento pergunta quando irão pegá-la. É difícil não se sentir aflito ao ver uma criança em uma situação tão cruel e enfrentando um perigo tão grande. A voz que ouvimos, por sinal, é a voz real da menina gravada pelos voluntários que a atenderam e o diretor Ben Hania usou essas gravações no filme.
Voz silenciada
Colocar as gravações da menina real é um meio também de finalmente fazer o mundo ouvir uma voz que foi calada pela guerra. Uma menina entre tantos muitos palestinos que nunca pode se pronunciar a respeito de toda violência que viveu, mesmo sendo uma civil sem qualquer relação com extremistas. Enquanto Israel insiste que suas operações na Palestina visam a segurança da região, o que a história de Hind Rajab conta é o completo oposto e o filme, mesmo de uma maneira póstuma, coloca a menina para narrar ela própria o horror de sua experiência.
É desconfortável e angustiante saber que é a voz da pessoa real, que tudo aquilo foi dito sob extremo estresse e o filme esfrega nossa cara nessa violência cometida contra a população palestina. Como a trama adere aos eventos reais, por vezes há a impressão de um ritmo irregular, com momentos em que pouco acontece já que tudo depende dos áudios reais usados e a realidade é bem mais caótica do que a ficção. É algo comum a filmes que tentam transcrever a realidade, tal como aconteceu em Reality (2024).
Diante de toda a tensão que o
filme expõe, não sei até que ponto as imagens reais da mãe da menina ou dos
destroços do carro sendo encontrados, com a mãe reconhecendo o corpo da filha,
são de fato necessários. São imagens chocantes, sem dúvida, mas que soam redundantes
com todo o horror que o filme construiu até então. Mesmo antes de vermos as
imagens dos destroços podemos claramente imaginar o que aconteceu e sabemos o
destino da menina e dos socorristas.
Nota: 8/10
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