terça-feira, 26 de maio de 2026

Crítica – Devoradores de Estrelas

 

Análise Crítica – Devoradores de Estrelas

Resenha Crítica – Devoradores de Estrelas
Fui assistir Devoradores de Estrelas sabendo muito pouco do que se tratava além de uma história sobre impedir a morte do nosso Sol adaptando um romance escrito por Andy Weir, que já teve outro trabalho adaptado por Hollywood em Perdido em Marte (2015). Talvez tenha sido melhor assim, já que o resultado é uma grata surpresa, uma ficção científica que equilibra drama, comédia e tensão de uma maneira que poucos filmes hollywoodianos de grande orçamento conseguem.

Alerta solar

Na trama, cientistas detectam uma faixa de energia entre o Sol e o planeta Vênus habitada por pequenos microorganismos que parecem estar devorando a nossa estrela. Os seres são chamados de astrófagos e governos do mundo se mobilizam para saber mais sobre eles, já que se continuarem, em questão de poucos anos a temperatura do planeta irá cair a níveis perigosos. O cientista Ryland Grace (Ryan Gosling) é um dos convocados para o projeto e por fazer várias descobertas sobre os astrófagos é selecionado para uma missão que levará uma equipe para a única estrela que parece imune às criaturas para, talvez, encontrar um meio de detê-las. Ao chegar ao seu destino depois de onze anos de viagem, Grace acorda do coma induzido para descobrir que apenas ele sobreviveu à viagem, precisando cumprir a missão sozinho.

Dizer mais seria estragar as várias surpresas do filme, o que seria um desserviço ao modo como ele conduz sua narrativa, com suas mais de duas horas e meia de duração passando sem serem sentidas e momentos genuínos de encantamento. Eu cheguei a pensar que toda a questão do primeiro contato com uma nova espécie soava muito parecido com A Chegada (2016), mas logo o filme encontra seu próprio caminho em meio a essa dinâmica.

Assim como Perdido em Marte é uma história sobre ciência, sobre como podemos ir mais longe, fazer mais e alcançar o impossível se cooperarmos, deixarmos as diferenças de lado e colocarmos nossos conhecimentos e recursos para ajudar a humanidade a resolver seus principais problemas. É um lembrete de que devemos sempre ter curiosidade com o mundo, investigar, experimentar, que é esse encantamento com a complexidade do universo, com tudo que há belo e de letal nele que nos permite nos aprimorar. Não é a força que faz Grace superar seus obstáculos, é sua engenhosidade e também sua empatia, sua capacidade de colaborar até mesmo com algo que ele não entende.

Tripulação reduzida

Ryan Gosling faz de Grace um herói relutante, alguém que entende o que está em jogo, que tem um olhar que outros não tem a respeito do problema, mas que não acredita em si mesmo o suficiente para assumir uma postura de liderança ou mesmo se disponibilizar para a missão sem retorno proposta pelas autoridades. Grace é um sujeito falho, com medos, inseguranças e isso ajuda a nos conectarmos com ele. O protagonista soa como uma pessoa comum que não encara tudo com heroísmo ou um senso grande de importância a respeito de si mesmo.

Mesmo a estoica e aparentemente distante Eva (Sandra Huller, de Anatomia de Uma Queda), a agente responsável por coordenar o projeto, vai mostrando mais facetas ao longo do filme. Se inicialmente ela parece a típica lacaia governamental sem escrúpulos, disposta a qualquer coisa para cumprir a missão, aos poucos vemos que seu pragmatismo é movido por um senso genuíno de empatia, que ela sabe o preço alto que pede de seus comandados, mas sabe não ter outra alternativa. É uma performance discreta de Sandra Huller, com pequenos olhares e inflexões de voz transmitindo muito do universo interior da personagens nos momentos em que ela decide se abrir. Talvez o único instante em que ela se abre é na cena em que canta Sign of the Times de Harry Styles em um karaokê, com a letra da canção servindo perfeitamente como uma declaração de como ela se sente.

Lionel Boyce (o Marcus de O Urso) tem pouco tempo como Carl, agente designado para auxiliar Grace em sua pesquisa, mas faz valer os momentos em que aparece com um enorme calor humano que torna convincente a amizade que se forma entre Carl e Grace. Quero falar o mínimo possível sobre Rocky (voz de James Ortiz), mas eu nunca pensei que seria capaz de me importar e me emocionar com uma criatura de pedra sem rosto.

Explorando o universo

Muito do que faz a história funcionar também é a predileção do filme por cenários e efeitos práticos, recorrendo a computação gráfica só quando necessário. Isso ajuda a dar um senso de concretude e credibilidade conforme Grace transita pelos espaços da nave, um espaço que realmente está ali, interagindo com o personagem o tempo todo.

Como mencionei antes, o filme traz um senso de encantamento e otimismo quanto à capacidade humana de usar a inteligência para superar obstáculos e como é a nossa curiosidade e deslumbre em relação ao universo que nos move. Há momentos de puro prazer visual que traduzem bem esse senso de encantamento, como a cena em que Grace navega por entre uma nuvem de astrófagos próxima à estrela investigada se vê em meio a uma imensidão de luzes e cores.

Por outro lado, a narrativa nunca deixa de lado a perspectiva de que o espaço é um lugar perigoso e letal, no qual o mínimo equívoco ou erro de cálculo pode fazer tudo ir abaixo. Esse senso de perigo está sempre presente toda vez que Grace precisa caminhar fora de sua nave, como na sequência em que ele sai para coletar amostras depois de voar perigosamente próximo a um planeta. Esses momentos não apenas servem para construir tensão ou suspense, como também reforçam a exaltação à ciência e a astúcia humana, já que cada incursão bem sucedida funciona como testamento da nossa capacidade de fazer o impossível.

É esse equilíbrio entre otimismo, tensão, drama e comédia que faz de Devoradores de Estrelas uma ficção científica tão competente em celebrar o melhor que a humanidade pode ser.

 

Nota: 9/10


Trailer

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