sexta-feira, 26 de abril de 2024

Crítica – Último Ato

 

Análise Crítica – Último Ato

Review – Último Ato
O que fazer para unificar uma nação profundamente polarizada depois que uma parcela do país tentou violentamente abolir o Estado? É uma pergunta que se aplica aos Estados Unidos de hoje (e também ao Brasil, infelizmente), mas no caso da minissérie Último Ato se refere ao fim da Guerra de Secessão dos EUA e como o assassinato do presidente Abraham Lincoln representou um freio nas tentativas de unificar o país, trazendo justiça social e punindo os golpistas.

A trama começa no dia do assassinato de Lincoln (Hamish Linklater) e segue os doze dias da caçada empreendida contra o assassino John Wilkes Booth (Anthony Boyle) pelo ministro da guerra de Lincoln, Edwin Stanton (Tobias Menzies, de Outlander), e pelo detetive Lafayette Baker (Patton Oswalt). Ao mesmo tempo, Stanton luta para que o governo não recue nas reformas pretendidas por Lincoln, principalmente quando o presidente Andrew Jackson (Glenn Morshower), ele próprio um ex-escravagista, parece disposto a capitular às demandas dos ricos do derrotado sul.

A despeito da derrota do sul, a narrativa mostra como os ideais retrógrados defendidos pelos confederados permanecem presentes, com Booth encontrando várias pessoas dispostas a escondê-lo e a ajudar a atravessar o país até Richmond, cidade em que se encontravam as lideranças recentes dos Confederados. Na verdade, não fosse a fratura na perna, sofrida na fuga do teatro onde matou Lincoln, talvez Booth até tivesse conseguido desaparecer, mas o ferimento prejudicava sua mobilidade e tornava difícil que ele se escondesse, já que um homem de muletas chamava a atenção, diminuindo suas opções.

Booth é retratado como um sujeito com delírios de grandeza que crê estar servindo a uma espécie de propósito divino e que ao matar o “tirano” Lincoln será celebrado como o herói que salvou a nação. Conforme a trama avança sabemos mais sobre seu passado e a vida medíocre que ele levou, com sua ação extremista sendo sua chance de fazer alguma coisa relevante no mundo. Essa visão de que seria visto como um herói recebe um duro golpe da realidade quando Booth se esconde entre soldados confederados feridos e imediatamente conta a eles que foi responsável pela morte de Lincoln. Booth claramente fez isso por esperar ser tratado como herói, mas a confissão causa repulsa nos soldados, que o chamam de verme e covarde por ter atirado no presidente pelas costas e resolvido a questão de uma maneira desonrosa. É um exemplo de como pessoas como Booth são usadas por populistas reacionários para fazer seu trabalho sujo crendo que serão vistos como pessoas importantes, mas são relegados à infâmia.

Nesse sentido, é evidente que a série não apenas está falando do passado, mas usando os problemas e erros do passado para falar algo sobre o presente, tal como fez Chernobyl (2019). Não é à toa, inclusive, que um dos líderes dos Confederados repete uma frase de Trump de que poderia atirar em alguém no meio rua e ainda assim não perderia popularidade. O discurso reacionário de outrora é o mesmo de hoje e a falha (ou covardia) em punir os responsáveis pela Secessão e fazer as devidas reformas no país de certa forma permitiu que a ameaça de divisão retornasse no presente.

A morte de Lincoln é tratada aqui como um ponto de virada na história do país, já que sem a liderança que ele exercia, mesmo seus ministros mais leais a seus ideais reformistas tinham dificuldade de levar seus planos adiante por conta do conservadorismo de Andrew Jackson, que preferia negociar com os mesmos golpistas que o teriam matado caso os Confederados tivessem vencido. Tanto que é Jackson a principal força antagonista a Stanton, sempre tentando limitar sua ação ou recusando as reformas que Lincoln propusera. Tanto que Jackson acaba sendo o primeiro presidente do país a sofrer impeachment, ainda que absolvido no julgamento.

A caçada a Booth revela como esses ideais ainda estavam enraizados no país e que a guerra estava longe de acabar, com a principal chance de mandar uma mensagem ao país sendo o julgamento dos co-conspiradores que ajudaram o assassino Lincoln. O procedimento, no entanto, só pune os menores, falhando em atingir os líderes do movimento separatista, uma falha que, de certa forma reverbera ao presente.

Apesar desses paralelos, o encerramento da série soa estranhamente positivo, comemorando a aprovação das leis pretendidas por Lincoln, dando a impressão de que houve de fato justiça sendo feita em relação à Guerra de Secessão a população negra, indo na contramão do que a trama tentou construir de que as concessões e leniência desse período causam repercussões no presente. Imagino que a ideia era de não soar sombrio ou pessimista demais, mas o próprio roteiro constrói a morte de Lincoln como uma grande derrota, então é estranho que o desfecho tente transformar isso em vitória. Seria possível reconhecer os avanços obtidos ao mesmo tempo em que ponderava como a falha em punições exemplares e leis ainda mais reformistas permitiram que os ideais dos confederados permanecessem e motivassem as leis segregacionistas promulgadas por muitos estados do sul anos depois da reconstrução pós guerra.

Apesar de derrapar no final, Último Ato não deixa de trazer ponderações consistentes sobre a tarefa complexa de reunificar uma nação dividida e como a falha em lidar com essa divisão pode trazer consequências futuras.

 

Nota: 8/10


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