sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Crítica - Hades

Análise Crítica - Hades

Review - Hades
Nunca fui muito fã dos chamados roguelikes games que colocam o jogador em uma série de desafios completamente randomizados em termos de inimigos, estrutura de fases e itens para tentar vencer tudo de uma vez só. Nesses jogos, morrer significa recomeçar do início sem qualquer coisa (dinheiro, upgrades, etc) conquistada durante a jornada, embora alguns games do gênero ofereçam alguns módicos upgrades permanentes. Sempre me pareceu um gênero que não respeitava muito o tempo do jogador, usando a ideia de recomeçar para alongar artificialmente o jogo.

Ainda assim, resolvi conferir este Hades (disponível para Switch e PC) porque gosto muito do trabalho da desenvolvedora Supergiant Games (responsável por Bastion, Transistor e Pyre) e fiquei bem surpreso com o que encontrei. Não só os elementos de roguelike conseguem ser desafiadores sem, no entanto, eliminar o sentimento de progresso ao oferecer uma boa quantia de upgrades permanentes, como também a estrutura repetitiva do game é trazida para dentro da estrutura narrativa do jogo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Rapsódias Revisitadas – Vou Rifar Meu Coração

Resenha – Vou Rifar Meu Coração

Review – Vou Rifar Meu Coração
Música brega. O termo que designa todo um gênero musical já traz consigo um juízo de valor negativo. Afinal a palavra brega se refere a algo sem modos, sem cortesia, de conduta indelicada. Ainda assim milhões de pessoas escutam essas músicas, cantores do gênero tem legiões de fãs e canções do gênero permanecem na memória coletiva do cancioneiro popular brasileiro. Dirigido por Ana Rieper, o documentário Vou Rifar Meu Coração tenta entender a razão desse tipo de música ser tão adorada e o que está por trás dos discursos que inferiorizam e vilipendiam esse tipo de música.

O filme se divide em duas frentes. Temos entrevistas com fãs do gênero no interior do Brasil nas quais essas pessoas falam como se sentem representadas por essas músicas e como elas contam histórias parecidas com as de suas vidas ou suas experiências amorosas. Também há conversas com cantores do gênero, como Wando, Nelson Ned, Amado Batista, Lindomar Castilho e Agnaldo Timóteo que falam sobre suas composições e a respeito do tratamento negativo que no mundo da música.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Crítica – Aprendiz de Espiã

 

Análise Crítica – Aprendiz de Espiã

Review – Aprendiz de Espiã

Aprendiz de Espiã segue a tradição de filmes como Um Tira no Jardim da Infância (1990) e Operação Babá (2005) de colocar um astro de ação brucutu na companhia de criança para fazer uma comédia de ação. A natureza formulaica não deveria ser, em si, um impeditivo para algo divertido e carismático, mas ele não tem muito a oferecer além de uma narrativa previsível e cenas copiadas de outros filmes.

Na trama, o durão agente JJ (Dave Bautista) é colocado para vigiar a família de um criminoso internacional que está foragido. JJ, no entanto, acaba se aproximando da garota Sophie (Chloe Coleman) e da mãe dela, Kate (Parisa Fitz-Henley) e daí tudo transcorre sem surpresas. É óbvio que na aproximação de JJ e Sophie um aprenderá com o outro, JJ se torna menos bruto e com mais traquejo social, Sophie aprende a ter mais confiança em si mesma.

Bautista dá ao seu agente uma vulnerabilidade por baixo de sua fachada dura, enquanto que Coleman demonstra uma inesperada sabedoria sem exatamente cair nos clichês de criança precoce genérica. Apesar da química, a relação dos dois é prejudicada pelo roteiro, no qual a aproximação de JJ da família de Sophie se dá muito por chantagens emocionais e manipulações da menina para forçar uma aproximação entre JJ e a mãe dela. Essa “operação cupido” da garota deveria ser adorável, mas da maneira como é construída soa mais ardilosa e manipulativa do que fofa.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Rapsódias Revisitadas – Um Clarão nas Trevas

 

Análise Crítica – Um Clarão nas Trevas

Review – Um Clarão nas Trevas
Lançado em 1967 adaptando uma peça escrita por Frederick Knott, Um Clarão Nas Trevas chama atenção pela construção do suspense e por seu trabalho de uso do som. A trama é centrada em Susy (Audrey Hepburn) uma mulher que se tornou cega há pouco tempo e ainda está se acostumando a viver sem a visão. O marido de Susy, Sam (Efrem Zimbalist Jr), chega de viagem trazendo uma boneca, sem saber que o brinquedo está cheio de drogas escondidas dentro dele.

Isso coloca o pacato casal na mira de bandidos, que invadem a casa para conseguir a boneca. Susy, no entanto, chega mais cedo em casa e os três criminosos, Roat (Alan Arkin), Mike (Richard Crenna) e Carlino (Jack Weston), resolvem tirar vantagem da cegueira de Susy montando um ardil para convencê-la de que a boneca é prova do envolvimento de Sam em um crime, convencendo a mulher a dizer para eles onde a boneca está.

Muito da tensão acontece do fato de termos acesso a mais informação do que a protagonista. Sabemos de antemão que Roat, Mike e Carlino estão mentindo para enganar Susy e tememos pela personagem por ela não saber o que se passa e não perceber que eles estão tirando vantagem da cegueira dela, tentando silenciosamente vasculhar o apartamento enquanto um deles a mantem distraída. Situado em praticamente uma única locação, a narrativa usa esse espaço limitado a seu favor, criando uma sensação de clausura em relação a Susy, literalmente confinada, ainda que sem saber, nesse espaço com pessoas que desejam lhe fazer mal.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Crítica – O Diabo de Cada Dia

 

Análise Crítica – O Diabo de Cada Dia

Review – O Diabo de Cada Dia
Fiquei curioso para conferir este O Diabo de Cada Dia, produção original da Netflix, por trazer o ator Tom Holland em um tipo de personagem que é bem diferente de tudo que ele fez em sua carreira até aqui. Podia ser um ponto de virada para o ator, mas embora o filme o ajude a mostrar seu alcance como intérprete, nem todos os seus elementos funcionam como deveriam.

A trama adapta um romance (que não li) de Donald Ray Pollock, acompanhando múltiplos personagens ao longo de quase duas décadas em pequenas cidades no interior dos Estados Unidos e as histórias de violência experimentadas por cada um deles. Eventualmente acaba focando em Arvin (Tom Holland), um jovem órfão com propensão a um comportamento violento e como isso inevitavelmente será a sua perdição.

A narrativa é contada com muitas idas e vindas no tempo, inclusive com um narrador (o próprio Pollock) adiantando os destinos de certos personagens, contando como eles morrem já nos primeiros instantes que os vemos. Essa escolha não necessariamente contribui para o andamento da trama, já que faz tudo soar excessivamente fragmentado e bagunçado. O filme poderia contar tudo em ordem cronológica que não faria a menor diferença.

Conheçam os vencedores do Emmy 2020

Vencedores do Emmy 2020


A entrega dos Emmy, premiação máxima da televisão dos Estados Unidos, aconteceu ontem, 20 de setembro. Por conta da pandemia do COVID-19 a cerimônia precisou se adequar a um formato virtual e contou com algumas séries dominando suas respectivas categorias. Entre as séries de comédia Schitt’s Creek levou todos os prêmios em que concorriam. Sucession ganhou a maioria dos prêmios na categoria de série de drama, mas a grande surpresa foi a vitória de Zendaya como melhor atriz por Euphoria. Na categoria de minisséries a grande vencedora foi Watchmen, recebendo inclusive o prêmio de melhor minissérie.

Confiram abaixo a lista completa de indicados com os vencedores de cada categoria destacados em negrito.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Crítica – O Dilema das Redes

Análise Crítica – O Dilema das Redes

Review – O Dilema das Redes
Quando escrevi sobre Privacidade Hackeada (2019) mencionei que o documentário perdia de vista qual era a questão principal da desinformação que circulava nas redes. O documentário de 2019 focava no fato de que as redes digitais eram usadas pela extrema direita para disseminar desinformação, no entanto o mais preocupante não é a postura política de quem faz esse tipo de coisa e sim o quanto isso é fácil de fazer por qualquer um com dinheiro o bastante para direcionar publicações em rede, podendo moldar o comportamento das pessoas em qualquer direção (política, psicológica, de consumo) com os dados fornecidos por essas grandes empresas de internet. Este O Dilema das Redes compreende um pouco melhor o problema no cerne da discussão sobre privacidade digital e uso de dados de usuários.

O documentário é centrado em Tristan Harris, ex-funcionário do Google que em meados dos anos 2000 fez um manifesto sobre a necessidade dessas tecnologias de redes digitais serem mais humanizadas, menos predatórias e menos focadas em estimular que o usuário compre coisas ou passe o maior tempo possível diante da tela. Seu manifesto não causou nenhuma mudança na empresa, mas fez ele e outros desenvolvedores do Vale do Silício se unirem em repensar essas tecnologias. Assim, o documentário entrevista Tristan e outros ex-funcionários de empresas de tecnologia para entender como funcionam essas plataformas e os problemas inerentes a elas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Crítica – A Duquesa: 1ª Temporada

Análise Crítica – A Duquesa: 1ª Temporada

Review – A Duquesa: 1ª Temporada
Com um conteúdo levemente autobiográfico inspirado na experiência da comediante canadense Katherine Ryan vivendo em Londres como mãe solteira, A Duquesa tenta equilibrar comédia e drama ao construir uma insólita relação entre mãe e filha. O resultado, porém, acaba sendo um pouco irregular. 

Na trama segue o cotidiano Katherine (Katherine Ryan) e da filha Olive (Katy Byrne), enquanto Katherine tenta navegar a complicada relação que tem com o pai de Olive, Shep (Rory Keenan), um músico decadente, e com o desejo de ter mais um filho. Em meio a isso também está Evan (Steen Raskopoulos), namorado mais recente de Katherine com quem ela pensa em ter algo mais sério.

A força da série está mesmo na dinâmica entre a protagonista e a filha, na construção do forte laço de afeto que há entre as duas e também nas situações absurdas que elas se envolvem. Muito da comédia deriva do fato de Olive muitas vezes demonstrar uma maturidade superior à da mãe e a garota Katy Byrne convence como uma menina que demonstra ter uma sabedoria bem maior que a sua idade.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Crítica – A Babá: Rainha da Morte

 

Análise Crítica – A Babá: Rainha da Morte

Review – A Babá: Rainha da Morte
O primeiro A Babá (2017) era uma comédia de terror que brincava com alguns clichês do gênero, mas nunca embarcava completamente no exagero e absurdo que sua premissa sugeria. Esses problemas desaparecem neste A Babá: Rainha da Morte que enfia tanto o pé no acelerador do absurdo que em muitos momentos a trama sequer faz muito sentido. O que não me incomodou o tanto que imaginei que incomodaria, já que tudo é realmente divertido.

Na trama, Cole (Judah Lewis) ainda está traumatizado pelos eventos que ocorreram no primeiro filme. Pior, ninguém acredita na versão dele e todos acham que ele está louco, dos pais aos colegas de escola que constantemente zoam o garoto. Melanie (Emily Alyn Lind) é a única que acredita nele, então quando Melanie chama Cole para a casa no lago de sua família, o jovem prontamente aceita. O que ele não imaginava é que teria de enfrentar mais um ritual satânico.

A natureza hiperbólica e absurda dos personagens já se faz sentir nos primeiros minutos quando Cole conversa com o conselheiro da escola sobre os eventos do primeiro filme e ouve do terapeuta que a solução para os problemas dele é transar. É uma fala inacreditável, que jamais seria dita por um conselheiro escolar do mundo real (ainda mais do jeito que o personagem fala no filme), mas que funciona aqui por conta do regime de absurdo no qual o filme se inscreve.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Drops – A Química que há Entre Nós

 

Análise Crítica – A Química que há Entre Nós

Review – A Química que há Entre Nós
Drama adolescente sobre primeiro amor, despertar afetivo, aprendizado sobre dificuldade e angústias da juventude em geral, este A Química que há Entre Nós não tem nada que já não vimos antes. Ainda assim ele se sustenta pelo cuidado com o qual trata seus temas.

Na trama, Henry (Austin Abrams) conhece Grace (Lili Reinhart, a Betty de Riverdale), uma garota que acabou de se transferir para seu colégio. Grace acaba entrando para a equipe do jornal da escola do qual Henry faz parte. Henry se interessa por Grace, mas tem dificuldade de se aproximar dela por conta da natureza retraída da garota, que parece não querer se abrir para ninguém. Aos poucos, Henry vai aprendendo sobre o passado dela e o trauma que Grace carrega consigo.

Em um primeiro momento é uma narrativa sobre o primeiro amor, sobre como Henry é tomado por esse sentimento arrebatador de estar apaixonado por alguém e de fazer tudo para concretizar esse sentimento. É tudo bem típico desse tipo de história, sem nada muito diferente, mas razoavelmente bem conduzido.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Crítica – Marvel’s Avengers

 

Análise Crítica – Marvel’s Avengers

Review – Marvel’s Avengers
Quando escrevi sobre o beta de Marvel’s Avengers mencionei como as missões da história pareciam promissoras, mas todo o segmento multiplayer parece genérico e repetitivo. Pois agora com o jogo completo em mãos posso dizer que ele confirma minhas esperanças e também meus temores.

Na trama, depois de uma catástrofe que acontece durante o lançamento de um novo aeroportaviões, os Vingadores são considerados criminosos e dissolvidos. Uma nova organização a AIM surge para tentar restaurar o dano causado pelos Vingadores e lidar com o surgimento dos inumanos em decorrência da névoa terrígena liberada durante o incidente com os Vingadores. Cinco anos depois do incidente uma jovem inumana chamada Kamala Khan descobre provas dos segredos sombrios da AIM e da inocência dos Vingadores e tenta encontrar os heróis.

Kamala é a alma e o coração da trama, nos fazendo acompanhar tudo que acontece sob seus olhos de fã e empolgação ingênua em conhecer os Vingadores. A personagem acaba funcionando como a bússola desses heróis, redirecionando-os um para outro de modo a superarem os problemas do passado. É uma história que entende que o mais interessante desses personagens não são seus poderes, mas suas falhas e como isso os une e os faz colidir um com o outro. Também acerta na construção do vilão MODOK. Muitas vezes reduzido ao ridículo nos quadrinhos e séries por conta de sua aparência, aqui MODOK é trabalhado de maneira séria, apresentado como uma ameaça genuína aos heróis.

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Crítica - Sleight

 

Análise Crítica - Sleight

Review - Sleight

Responsável por tornar o ator Jacob Latimore conhecido, esse Sleight, lançado em 2016, é um daqueles pequenos filmes que contorna suas limitações orçamentárias com inventividade e sentimento, nos conquistando a despeito de seus problemas. É uma trama relativamente simples, que não chega a ter nada de grandes novidades, mas cuja construção, mesmo que nem sempre acerte, consegue entregar uma construção satisfatória para vários elementos que vai apresentando aos poucos ao longo da história.

Bo (Jacob Latimore) é um jovem mágico de rua que tenta aperfeiçoar um novo truque envolvendo ímãs para dar a impressão de telecinese. Ele mora sozinho com a irmã, Tina (Storm Reid) depois da morte dos pais e para se sustentar, acaba trabalhando para o traficante Angelo (Dulé Hill). Aos poucos, Bo vai sendo arrastado por Angelo para o lado mais violento do trabalho e começa a pensar em alternativas para se sustentar. O jovem mágico também conhece Holly (Seychelle Gabriel), por quem se apaixona e inicia um relacionamento.

As primeiras cenas demonstram o talento do protagonista com mágica e também criam uma aura de mistério acerca do estranho dispositivo de que Bo tem em seu braço e o que ele pretende com aquilo. Aos poucos a trama vai nos dando informações sobre o que é aquilo e o que ele pretende com um experimento tão arriscado. Quando finalmente o vemos colocar a estranha engenhoca em ação no clímax, tudo é bastante empolgante, já que o acompanhamos em tentar fazer aquilo funcionar ao longo de todo filme.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Crítica – Narciso em Férias

Análise Crítica – Narciso em Férias


Review – Narciso em Férias
Não sabia o que esperar deste Narciso em Férias, documentário sobre o período em que o cantor Caetano Veloso passou preso durante a ditadura militar brasileira. Imaginei que fosse ser um produto bastante quadrado, com entrevistas de Caetano e as pessoas próximas a eles na época, imagens de arquivo, documentos e outras estratégias comuns em documentários sobre o passado histórico. Assistindo ao filme não encontrei nada disso, mas uma proposta relativamente diferente (embora não seja nova) de lidar com essa questão da memória, testemunho e imagem como evidência.

O documentário abre com Caetano falando da noite em que foi preso, narrando que ninguém deu voz de prisão a ele ou qualquer coisa parecida, apenas que ele tinha sido chamado para depor. A fala ilustra as arbitrariedades do regime e como pessoas eram detidas sob falsos pretextos e sem o devido processo legal, atropelando direitos civis e liberdades individuais.

O documentário segue com apenas Caetano em cena. Não há qualquer outra imagem no filme, exceto pelo finalzinho que exibe closes da transcrição do interrogatório de Veloso na época (e lido pelo próprio ao longo do documentário), além de Caetano. Ninguém mais é ouvido, nenhuma outra fonte de imagem, captada pelo filme ou pré-existente é mostrada. É uma escolha corajosa, já que ter apenas uma pessoa falando por cerca de oitenta minutos poderia resultar em algo extremamente moroso, mas o filme parece confiar na capacidade de oratória de seu protagonista (e Caetano é, de fato, um ótimo narrador) e na força da história que ele conta.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Crítica – Estou Pensando em Acabar com Tudo

 

Análise Crítica – Estou Pensando em Acabar com Tudo

Review – Estou Pensando em Acabar com Tudo
Escrito e dirigido por Charlie Kaufman a partir do livro de mesmo nome de autoria de Iain Reid, este Estou Pensando em Acabar com Tudo se apresenta como um suspense, mas não é um suspense típico. A tensão não vem exatamente de uma ameaça externa, de um inimigo que ameace os personagens, a tensão vem das próprias ansiedades da protagonistas conforme ela mergulha cada vez mais em seus pensamentos.

Na trama, a protagonista (Jesse Buckley) está indo com o namorado, Jake (Jesse Plemons), para conhecer os pais dele que ainda moram na pequena cidade rural em que Jake nasceu. Ao longo do trajeto, ela começa a pensar em terminar tudo com Jake e vai aos poucos tentando elencar, em sua mente, razões para continuar ou terminar com o namorado, dando início a um longo mergulho em sua psique.

Se no início parece que estamos diante de um típico filme de discussão de relacionamento, depois que o casal chega na casa dos pais de Jake fica evidente que o modo como a trama é narrada é qualquer coisa menos convencional. Como é comum nos materiais produzidos por Charlie Kaufman, realidade e subjetividade se misturam ao ponto em que não sabemos mais separar as duas coisas.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Crítica – Killing Eve: 3ª Temporada

Análise Crítica – Killing Eve: 3ª Temporada

Review – Killing Eve: 3ª Temporada
Em sua terceira temporada, Killing Eve continua sendo uma das melhores séries em exibição atualmente graças a sua combinação de suspense, drama e um pouco de comédia que se sustenta por diálogos afiados e personagens excêntricos. Esse terceiro ano foca nas consequências dos eventos da segunda temporada e como os envolvidos tentam se reerguer depois do ocorrido.

Após perder tudo no final da temporada anterior e ainda por cima ser baleada por Villanelle (Jodie Comer), Eve (Sandra Oh) passa a ter uma vida discreta, evitando chamar atenção para si mesma, mas não esqueceu sua obsessão com a assassina russa e continua a investigá-la, bem como a misteriosa organização por trás dela conhecida como Os Doze. No MI6 Carolyn (Fiona Shaw) também lida com as consequências da operação fracassada no final do segundo ano, tendo sido rebaixada e seus atos constantemente analisados, ela continua investigando Os Doze por conta própria. Os caminhos de Eve e Carolyn voltam a se cruzar quando o filho de Carolyn comete suicídio sob circunstâncias suspeitas, com as duas tentando descobrir o que realmente aconteceu. Já Villanelle volta a trabalhar com uma antiga mentora e tenta subir na hierarquia dos Doze.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Crítica - Amor Garantido

Análise Crítica - Amor Garantido

Review - Amor Garantido
Com o sucesso da comédia romântica adolescente Ela é Demais (1999), Rachael Leigh Cook se tornou uma das queridinhas do gênero no final da década de noventa. Com o tempo, no entanto, ela foi se afastando do estrelato, fazendo filmes de menos visibilidade. Quando vi que ela estaria neste Amor Garantido, comédia romântica produzida pela Netflix, imaginei que esse seria o retorno dela em grande estilo ao gênero que a consagrou. Infelizmente, porém, isso não acontece e o resultado é um produto morno que nunca diz a que veio.

Na trama, Susan (Rachael Leigh Cook) é uma advogada que tem um pequeno escritório na cidade de Seattle. Um dia ela é procurada por Nick (Damon Wayans Jr) que quer processar um site de encontros que garantiria aos seus usuários encontrar o amor verdadeiro em até mil encontros. Nick já está muito próximo dessa marca, mas até então não encontrou o amor.

A trama em si soa um pouco absurda e difícil de crer pelo fato de Nick ter saído com quase mil mulheres em um intervalo de quase dois anos e dele ter documentado extensivamente cada um desses encontros. Ainda assim, poderia render uma boa discussão sobre como, nesses tempos de interação em meios digitais, amor e afeto estão sendo reduzidos a um mero produto a ser comprado e vendido com o toque de um botão. O filme, no entanto, nunca constrói muito em cima desses temas e o desfecho acaba sendo incomodamente conformista e contraditório, ao mesmo tempo dizendo que não há garantias no amor, mas com os personagens se tornando garotos-propaganda do site de relacionamentos que processaram.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Crítica – O Assassinato de Nicole Simpson

 

Análise Crítica – O Assassinato de Nicole Simpson

Review – O Assassinato de Nicole Simpson
Ocorrido na década de 90, o julgamento do atleta e ator O.J Simpson pelo assassinato da ex-esposa, Nicole, movimentou a atenção da mídia dos Estados Unidos. Nos últimos anos Hollywood se debruçou a analisar esses eventos, produzindo retratos amplos e complexos sobre o caso. Na ficção tivemos a excelente minissérie O Povo Contra O.J Simpson, parte da série de antologia American Crime Story capitaneada por Ryan Murphy. No documentário tivemos o vencedor de Oscar O.J Made in America (2017).

Digo tudo isso para mostrar a vocês que existem alternativas muito melhores para entender o caso do que este O Assassinato de Nicole Simpson, uma tentativa rasteira e sensacionalista de retratar os últimos dias de Nicole feita pelo diretor Daniel Farrands, que já tinha conduzido o péssimo A Maldição de Sharon Tate (2019), também sobre um assassinato real e igualmente apelativo e raso.

A trama acompanha os últimos dias de Nicole Brown Simpson (Mena Suvari) antes de ser assassinada. Vemos a relação dela com as amigas Faye (Taryn Manning) e Kris (Agnes Bruckner), ao mesmo tempo em que acompanhamos a presença e ameaças constantes de O.J (Gene Freeman) a Nicole. O filme também mostra Nicole tendo um caso com um pintor que reformava a casa dela, Glen (Nick Stahl) e usa isso para tentar reescrever a história e dizer que Nicole talvez tenha sido morta por Glen Rogers (e não por O.J), o “Casanova Killer” um serial killer real que estava em atividade em Los Angeles na época. Deixando em dúvida quem teria sido o real assassino ou se O.J e Glen colaboraram na morte (algo do qual não há qualquer prova).

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Crítica – Quase Uma Rockstar

 

Análise Crítica – Quase Uma Rockstar

Review – Quase Uma Rockstar
Baseado em um romance de Matthew Quick (que também escreveu O Lado Bom da Vida), este Quase Uma Rockstar, produção original da Netflix, é quase uma versão adolescente de Gênio Indomável (1997). A trama é centrada em uma jovem extremamente talentosa que se afunda em seus traumas e inseguranças, perigando desvanecer na obscuridade e desperdiçar seus talentos. Como outras histórias escritas por Quick e boa parte dos filmes adolescentes da Netflix, tudo aqui é conduzido com uma aura de otimismo e por mais que existam momentos genuínos de drama, este é essencialmente um feel good movie.

A narrativa é centrada em Amber (Auli’i Cravalho, a voz da Moana), uma jovem que está terminando o ensino médio e está prestes a entrar em uma prestigiosa faculdade de música, a mesma que fora frequentada por seu falecido pai. Amber é ativa em sua comunidade, ajudando a escola a conseguir verba para seus programas de artes, trabalhando em um abrigo para idosos e sendo voluntária para ensinar gratuitamente inglês para imigrantes. Apesar da boa vontade e de ajudar muita gente, ela própria está em uma situação precária. Amber e a mãe, Becky (Justina Machado, de One Day At a Time), estão sem teto e dormem escondidas em um dos ônibus da escola de Amber.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Crítica – Control: AWE

 

Análise Crítica – Control: AWE

Review – Control: AWE
Já falei antes sobre como o game Control é excelente na construção estética e atmosférica de seu universo enigmático e estranho. Este AWE (ou EMA em português) segunda, e talvez última, expansão do jogo sedimenta essa impressão ao mesmo tempo em que conecta seu universo ao do game Alan Wake (que, confesso, não joguei), também da desenvolvedora Remedy.

A trama da expansão leva Jesse ao Setor de Investigação, uma nova área da Casa Antiga. Depois de receber mensagens telepáticas de Alan Wake, Jesse descobre que o Dr Emil Hartman (que aparece nos games do Alan Wake) está vagando pelos corredores do Setor como uma aberração gigantesca e deformada. Cabe a Jesse conter a ameaça antes que ela fique livre para vagar pela Casa Antiga.

O Setor de Investigação traz a mesma estética de arquitetura brutalista dos ambientes da campanha principal que contribuem para um sentimento de claustrofobia, opressão e estranheza, no entanto não tem nada de muito diferente do que vimos antes durante a campanha, não tendo exatamente uma identidade própria, como as cavernas e espaços abertos de Fundação, o DLC anterior.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Cobra Kai e os problemas da nostalgia

Crítica - Cobra Kai

Review Cobra Kai
Não tive nenhum interesse em Cobra Kai quando a série foi anunciada. A ideia de continuar a história de Karate Kid (1984) sob a perspectiva de Johnny Lawrence, o vilão o do filme original, parecia ser só mais um desses reboots caça-níquel que Hollywood vinha fazendo nos últimos anos. Produtos que não tinham nada a dizer ou fazer sobre essas propriedades e existiam apenas para explorar cinicamente o afeto do público por essas histórias e ganhar dinheiro.

A nostalgia, o olhar para o passado, eram reduzidos a produtos de consumo por engodos como O Rei Leão (2019) ou Jogador Nº 1 (2018), que desfiam coisas das quais gostamos na infância diante dos nossos olhos com nenhum outro objetivo além de nos fazer lembrar de nossa juventude, sem ter nada a dizer sobre isso. Temporadas recentes de South Park até fizeram piada com essa tendência nostálgica com as Member Berries, frutas que fazem as pessoas reviver as memórias de infância e que colocam quem come em uma espécie de torpor nostálgico.

Como South Park bem aponta, essa tendência consiste de um passadismo alienante, feito para nos manter dóceis consumindo em silêncio, gratos por podermos esquecer os problemas do mundo por algumas horas e lembrarmos de uma época em que éramos mais ingênuos e felizes. Imaginei que Cobra Kai fosse ser mais um nessa onda de revival oitentista, mas estava enganado. Cobra Kai é a antítese de todo esse movimento da indústria e vê esse apego a uma nostalgia acrítica não como um refúgio, mas como algo que impede as pessoas de amadurecerem. Posteriormente, o longa animado A Vida Moderna de Rocko: Volta ao Lar (2019) também adotaria uma postura crítica diante da atual onda nostálgica. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Crítica – Tammy: Fora de Controle

 

Análise Crítica – Tammy: Fora de Controle

Review – Tammy: Fora de Controle
Este Tammy: Fora de Controle parece incerto do que quer fazer com suas personagens. De um lado toda a trama de duas mulheres no fundo do poço embarcando juntas em uma viagem parece algo mais propenso ao drama. Por outro, o filme tem a clara intenção de ser uma comédia escrachada cheia do humor físico característico da atriz Melissa McCarthy. Claro, seria possível tentar juntar as duas coisas e fazer algo com uma pegada de comédia dramática, mas as coisas nunca se encaminham nessa direção.

Na trama, Tammy (Melissa McCarthy) perde o emprego em uma rede de fast food e chega em casa para descobrir que o marido a está traindo com a vizinha. Ela decide sair de casa e embarca em uma viagem com Pearl (Susan Sarandon), sua avó alcoolátra.

Poderia ser uma história sobre essas duas mulheres em seus pontos mais baixos se reconectando e ajudando uma a outra a se reerguer, mas o texto nunca dá espaço para desenvolver de maneira consistente as relaçôes ou personalidades de ambas. Sabemos muito pouco sobre elas ou o tipo de relação que tem para nos importarmos com o que acontece ou estabelecermos qualquer conexão.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Rapsódias Revisitadas – Capcom vs SNK 2

 

Resenha Crítica – Capcom vs SNK 2

Review – Capcom vs SNK 2
Na década de 90 o filão dos jogos de luta era dominado pelas desenvolvedoras Capcom (de Street Fighters, Darkstalkers e outros) e SNK (de King of Fighters, Fatal Fury e outros), então quando ambas se juntaram para anunciar que fariam um jogo de luta com personagens das duas empresas e que cada uma faria seu próprio jogo, a expectativa foi lá em cima. A Capcom fez dois games: o primeiro Capcom vs SNK, lançado em 2000, e Capcom vs SNK 2 (ou CvS 2 como foi apelidado) em 2001. Já a SNK, que na época passava por problemas financeiros, entregou apenas SNK vs Capcom: Chaos.

Dos três, CvS 2 acaba sendo o melhor por conta da variedade de personagens e mecânicas e é dele que vamos falar aqui. Apesar de originalmente lançado para Playstation 2 e outros consoles da mesma geração, ele também ficou disponível no Playstation 3 na linha de clássicos do PS2 (que eram basicamente jogos de PS2 emulados no PS3). Explico isso porque a versão que usei para escrever esse texto foi justamente a de PS3, que não tem o componente online da versão de PS2.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Crítica – Acordar Negro (Black Wake)

 Análise Crítica – Acordar Negro (Black Wake)


Review – Acordar Negro (Black Wake)
Muito antes de ser lançado, este Acordar Negro já chamava atenção na internet por marcar a estreia da modelo brasileira Nana Gouvea como atriz e em uma produção feita nos Estados Unidos ainda por cima. Ao lado de nomes conhecidos como Eric Roberts e Tom Sizemore, o terror parecia ser um veículo para lançar a brasileira internacionalmente. Isto é, até os primeiros trailers saírem e ficar evidente que se tratava de uma produção tosquíssima que no máximo poderia ser uma poderia divertida. O resultado final, porém, não consegue ser nem isso.

A trama é centrada em Luiza (Nana Gouvea), uma psicóloga chamada pelo governo dos Estados Unidos para tentar entender uma série de mortes misteriosas que vem acontecendo em partes diferentes do país. Seus colegas parecem não entender o que está acontecendo, mas ela demonstra certeza que as respostas estão nas estranhas anotações encontradas com um mendigo que estava envolvido com uma das primeiras vítimas.

A história é toda contada com uma estrutura de found footage, como se fosse vídeos de segurança da instalação governamental em que Luiza trabalha ou vídeos amadores feitos pelas pessoas na rua que encontraram os infectados. O problema é que o filme conduz toda essa trama da maneira mais entediante possível. Praticamente não há dramaturgia, tudo é narrado ao invés de mostrado para nós, já que boa parte das cenas do filme são vídeos gravados por Luiza para explicar as provas que coletou.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Crítica – Pathfinder: Kingmaker Definitive Edition

 

Análise Crítica – Pathfinder: Kingmaker Definitive Edition

Resenha Crítica – Pathfinder: Kingmaker Definitive Edition
Quanto escrevi sobre Pathfinder: Kingmaker na época para seu lançamento em PC em 2018 mencionei como o game capturava o espírito de jogos como Baldur’s Gate ou Neverwinter Nights na sua tentativa de simular o funcionamento e abertura de um RPG de mesa. Também comentei os vários problemas do jogo, como mecânicas obtusas e uma série de problemas técnicos. Pois agora Pathfinder: Kingmaker Definitive Edition leva aos consoles (PS4 e Xbox One) o jogo de PC com direito a todos os DLCs lançados e algumas novas mecânicas.

Como ele se sai? Bem, não muito diferente da versão de PC. A trama, a abertura, o escopo do mundo, o senso de exploração e descoberta, bem como a amplitude da customização de personagens continuam sendo o ponto alto da experiência e fazem do jogo um título que precisa ser conferido por fãs do gênero. O fato de vir com todo conteúdo pós lançamento da versão de PC ajuda a dar mais opções, como novas raças, classes de personagem e histórias.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Crítica – Queen & Slim

 

Análise Crítica – Queen & Slim

Review – Queen & Slim
Histórias sobre casais em fuga das autoridades não são exatamente novidade em Hollywood, Fritz Lang já contara uma história como essa em Vive-se Só Uma Vez (1937). A história real do “amor bandido” de Bonnie Parker e Clyde Darrow foi imortalizada em Bonnie & Clyde: Uma Rajada de Balas (1967). Na década de noventa essa trama ganhou um viés feminista em Thelma & Louise (1991). Agora a diretora Melina Matsoukas e a roteirista Lena Waithe (a Denise de Master of None) usam essa história para falar de preconceito e racismo neste Queen & Slim.

A narrativa acompanha o casal Queen (Jodie Turner-Smith) e Slim (Daniel Kaluuya), que estão no primeiro encontro juntos. Quando voltam para casa são parados por um policial e a escalada da agressividade do evento coloca os dois em fuga. Agora esse casal que mal se conhece precisa se unir para se manterem vivo e fugirem da polícia.

A jornada do casal mostra o temor constante da comunidade negra em ser alvo da brutalidade policial, sendo constantemente tratados pelas autoridades de maneira agressiva, como se fossem criminosos, mesmo quando não fizeram nada. Claro, o casal inevitavelmente comete um crime, mas é resultado de uma tentativa de autodefesa e não de agressividade ou mau caratismo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Crítica – A Cor que Caiu do Espaço

Análise Crítica – A Cor que Caiu do Espaço


Review – A Cor que Caiu do Espaço
Dos mesmos produtores do excelente Mandy: Sede de Vingança (2018) e baseado em um conto de H.P Lovecraft, este A Cor que Caiu do Espaço traz a bizarrice e o temor do desconhecido que são típicos das obras do escritor. Por outro lado, os personagens em si parecem não existir para qualquer outra coisa que além de serem submetidos à situação apresentada e assim não nos envolvemos com a situação como deveríamos. 

A narrativa é centrada na família liderada por Nathan (Nicolas Cage), que vive em uma propriedade isolada na floresta da fictícia cidade de Arkham. Quando um estranho meteorito cai na propriedade, fenômenos e criaturas estranhas começam a acontecer, posando uma ameaça para a família e também para o resto da cidade.

A trama começa sem pressa, apresentando o cotidiano pacato da família, aos poucos vai apresentando eventos estranhos, que nos fazem suspeitar que algo está errado, até que tudo explode numa ameaça explicita. Esse clima de tensão e estranhamento é o principal mérito do longa, ampliado principalmente pela direção de arte.