sexta-feira, 10 de julho de 2020

Crítica – Sombras da Vida


Análise Crítica – Sombras da Vida

Review Crítica – Sombras da VidaEste Sombras da Vida é basicamente uma história de fantasma contada do ponto de vista do próprio fantasma ao invés daqueles assombrados por ele. É menos uma história de terror ou mistério e mais um drama existencial que tenta entender o que é ser um fantasma.

A trama segue o casal interpretado por C (Casey Affleck) e M (Rooney Mara). Quando C morre em um acidente de carro, ele volta para sua casa como um fantasma, daqueles com um lençol branco na cabeça, para observar o luto da esposa. A existência do fantasma se estende ao longo dos anos e ele continua a habitar a casa mesmo depois da esposa ter se mudado do imóvel.

É um filme com poucos diálogos, que se constrói muito a partir das imagens para nos dar a dimensão do isolamento e solidão de seus personagens, seja a esposa enlutada interpretada por Rooney Mara, seja no fantasma que vaga pelas eras. O som é um elemento que ajuda a destacar a solidão e o isolamento dos personagens, seja pelos ruídos ambientes com insetos ou vento que explicitam o vazio daquele lugar, seja pelo uso de efeitos sonoros em volume considerável para mostrar as quebras nesse silêncio.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Lixo Extraordinário – Reféns



Análise Crítica – Reféns

Review – Reféns
Lançado em 2011, este Reféns é mais um filme de suspense sobre invasão domiciliar na qual uma família de classe alta tem sua residência invadida por bandidos cruéis atrás de seus bens, sendo agredida e torturada pelos criminosos. Parecia ser um filme bem clichê e, na verdade, é bem clichê, mas o problema é que sequer consegue fazer isso direito.

A narrativa é centrada na família de Kyle (Nicolas Cage). Um dia a casa dele é invadida por um quarteto de ladrões que querem o dinheiro vivo e as joias que ele e a esposa, Sarah (Nicole Kidman), guardam na casa. Com medo que os ladrões os matem quando conseguirem o que querem, Kyle se recusa a abrir o cofre, ao mesmo tempo que teme que a filha, Avery (Liana Liberato), chegue em casa e seja também feita de refém.

A primeira coisa que salta aos olhos é como todos os personagens do filme, sem qualquer exceção, são incrivelmente burros. Os ladrões usam os nomes reais, mostram o rosto para as vítimas e só lembram de amarrar os reféns depois do filme já ter passado da metade. Já os reféns também são idiotas ao extremo. Quando Avery volta para casa e percebe os ladrões, ao invés de tentar sair pela janela do quarto por onde entrou ela desce e tenta sair pela frente, o que obviamente a faz ser pega.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Crítica – Feel the Beat

Análise Crítica – Feel the Beat

Review – Feel the Beat
Feel the Beat, produção original da Netflix, tem uma trama bem presa a lugares-comuns. Apresenta uma narrativa sobre uma jovem que perde sua grande chance na Broadway e acaba voltando para sua cidade natal no interior e precisa reconstruir a vida. Já vimos inúmeros filmes com premissas parecidas e Feel the Beat não sai muito do traçado desse tipo de filme.

Na trama, April (Sofia Carson) é uma jovem dançarina com aspirações de fazer sucesso na Broadway. Depois de um mal entendido com uma poderosa diretora, April vê sua carreira acabar praticamente antes de começar. Sem chances, ela retorna a sua cidade natal. Uma chance de retornar à dança aparece quando sua antiga professora de dança, Barb (Donna Lynn Champlin, a Paula de Crazy Ex-Girlfriend), que a chama para ajudar o estúdio de dança em uma competição nacional. Assim, April tentará usar a competição para ganhar notoriedade e retornar a Broadway, mas as desajustadas alunas de Barb podem dar mais trabalho do ela esperava.

É claro que ao longo da competição ela irá aprender com as alunas a ser mais humilde e as alunas aprenderam a importância da dança. É evidente que terão uma escola rival composta por esnobes com técnica impecável, mas sem o coração das alunas desajustadas de April. É lógico que no clímax April terá que escolher entre o sucesso na Broadway que tanto almeja e a lealdade a suas alunas. É tudo extremamente previsível, mas, ainda assim, o filme consegue envolver graças ao carisma do elenco.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Drops – 7500



Filmes que acontecem em um único espaço e com poucos personagens precisam encontrar meios de fazer a trama render com o número limitado de sets e personagens que tem em mãos. Esse 7500, produção da Amazon Prime estrelada por Joseph Gordon-Levitt quase consegue, mas tem dificuldades com o final.


Na trama, Levitt é Tobias, co-piloto de um voo saindo de Berlim com destino a Paris. Quando terroristas tentam invadir a cabine do avião e o piloto é gravemente ferido, cabe a Tobias fazer um pouso de emergência em segurança enquanto o resto dos terroristas tenta invadir sua cabine.

O filme trabalha a tensão aos poucos, começando com uma sensação de normalidade, passando por uma impressão de que algo está estranho até finalmente tudo explodir em uma situação de perigo constante. O som é um elemento fundamental para a construção da tensão aqui, já que o barulho das incessantes pancadas dos terroristas tentando invadir porta da cabine serve como um constante lembrete do perigo que todos correm ali.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Control e a construção de atmosfera em games



Desenvolvido pela Remedy, os mesmos criadores de Alan Wake e Quantum Break, Control foi lançado em agosto de 2019, mas só agora eu consegui jogá-lo e fiquei impressionado pelo como o game consegue criar uma atmosfera singular de estranheza e mistério. Na trama do jogo, a protagonista Jesse está em busca do irmão que foi levado por agentes do governo quando eram crianças. A busca leva Jesse ao prédio do misterioso Departamento Federal de Controle, uma espécie de departamento secreto voltado para pesquisar e defender a população de ameaças paranormais.

Ao chegar no prédio sede do departamento, Jesse descobre que o lugar foi invadido por uma força sobrenatural chamada de Ruído. O prédio é também uma locação mística, conhecido como A Casa Antiga, e por conta da invasão se fechou do mundo exterior. Agora Jesse precisa enfrentar a ameaça se quiser descobrir o que aconteceu com o irmão.

A narrativa trabalha para deixar o jogador imerso em um universo no qual o sobrenatural está sempre presente, mas nunca é plenamente compreendido e guarda em si todo tipo de ameaça inimaginável. Na mitologia do jogo objetos comuns como geladeiras e televisores podem ser imbuídos de força sobrenatural ou possuídos por entidades e causar enorme estrago ao mundo humano.

Control brutalist architecture
A arquitetura brutalista de Control
A sensação de estranheza vem muito do design dos espaços, já que tudo é feito seguindo uma arquitetura brutalista. É um movimento arquitetônico das décadas de 50 e 60 e privilegiava de maneira radical o que eles chamavam de “verdade estrutural” das edificações. Ou seja, era uma arquitetura que trabalhava para expor e nunca esconder seus elementos estruturais, deixando o concreto, a madeira ou o metal completamente expostos e com um mínimo de ornamentação.

No jogo, os corredores, paredes e espaços de concreto ou metal cru ajudam a construir a impressão de espaços estéreis, desolados, desprovidos de humanidade. A esterilidade também é fruto de escolhas na paleta de cores, que pende para tons frios, em baixa saturação. As superfícies angulosas, com poucas curvas e linhas retas dão a impressão de algo mecânico, não natural. Sem janelas ou qualquer meio de ver o mundo fora da Casa Antiga, os espaços são fechados, claustrofóbicos, opressivos. Parece um simulacro de nosso mundo, algo que remete a ele, mas, ao mesmo tempo é externo a ele. Essas escolhas de direção de arte operam justamente para transmitir esse desconforto e estranheza.

A maneira como a história é contada também contribui para esse universo enigmático, no qual nada é plenamente desvendado ou compreendido. Sabemos que o Ruído é uma entidade sobrenatural hostil e alguns documentos encontrados ao longo do jogo fornecem alguma explicação sobre o passado do departamento, o funcionamento de objetos de poder ou do plano astral, mas nada é plenamente explicado, o que ajuda a vermos essas entidades como forças de uma dimensão desconhecida e além de nossa compreensão. O fato do estranho zelador, Ahti, ser capaz de transitar por aparentemente qualquer lugar da Casa Antiga, por exemplo, nunca é explicado. A quantidade de informação que recebemos é suficiente para que os elementos do universo não soem vagos ou frouxos, mas não o bastante para acabar completamente com a aura de mistério que cerca tudo aquilo.
Contro the hiss
O líquido vermelho que simboliza a interferência do Ruído

Certas opções estéticas contribuem para denotar o quanto essas forças sobrenaturais afetam a mente de Jesse. É comum ao longo da história o uso de jump cuts (cortes abruptos na imagem) para a inserção de planos rápidos com os rostos de alguns personagens, imagens de um líquido vermelho inundando a tela, como que para denotar o Ruído corrompendo o pensamento de Jesse, ou imagens de uma pirâmide preta invertida que se comunica com Jesse.

Outra escolha importante é a de inserir cenas e vídeos com atores reais. Ao longo da trama, Jesse encontra vídeos do setor de pesquisa do departamento ou tem visões com o antigo diretor do DFC. Essas cenas são performadas por atores reais, de carne e osso, não por modelos digitais. A disjunção entre real e digital habitando o mesmo universo e o fato dos personagens não perceberem a diferença do regime de registro contribui para o sentimento de que estamos em um lugar em que realidades, dimensões e universos colidem. Isso fica evidente também em algumas cenas perto do final no qual Jesse varia brevemente entre seu modelo digital e a atriz real (Courtney Hope) na qual a aparência e voz da personagem se baseiam.

Control the board quotes
As falas do Conselho
A maneira como o jogo apresenta alguns diálogos é outro fator que contribui para o senso de estranhamento e incompreensão. Nas conversas com a entidade conhecida como “O Conselho” (a pirâmide invertida que aparece nas visões da personagem), as falas desse ser são transmitidas em ruídos ininteligíveis. Só é possível compreender o que está sendo dito por conta das legendas, mas essas legendas apresentam várias palavras entre barras, como se não houvesse uma tradução exata para a fala da entidade e as legendas estivessem tentando aproximar esse discurso da nossa linguagem a partir de múltiplos sinônimos, embora também os termos entre barras ocasionalmente apareçam como contraditórios entre si.

As falas do Conselho são tipo: “Você/Nós empunha a arma/você”. E essa imprecisão de termos ou do que exatamente ele está querendo dizer para Jesse ajuda a vermos esse “personagem” (por falta de uma designação melhor) como uma entidade localizada em um plano de existência tão distante do nosso que é impossível compreendê-la plenamente. As escolhas estéticas que estruturam a linguagem de sua fala são feitas justamente para exibir essa dificuldade de compreensão.

Com todos esses elementos, Control consegue deixar o espectador imerso em seu estranho e enigmático. De algum modo, o jogo e a maneira como a história é conduzida me lembraram bastante os trabalhos do diretor David Lynch, em especial Twin Peaks. Control é um ótimo exemplo de como estética e construção de atmosfera são capazes de criar uma experiência bem singular.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Rapsódias Revisitadas – Miss Tacuarembó


Resenha Crítica – Miss Tacuarembó

Review – Miss TacuarembóLançado em 2010, o filme uruguaio Miss Tacuarembó parece aquele musical bem tradicional sobre uma mocinha sonhadora em busca do sonho de ser cantora. De certa forma é isso, mas, ao mesmo tempo, o modo relativamente autoconsciente com o qual conta essa história acaba fazendo dele algo mais que isso.

Na trama, a jovem Natalia Cristal (Natalia Oreiro) sempre sonhou em ser uma cantora de sucesso, desde sua infância na pequena cidade de Tacuerembó até quando se mudou para a Argentina. Ela acredita ter conseguido sua chance quando é chamada para participar do reality show “Tudo por um Sonho”, mas na verdade isso é um pretexto da produção para promover um encontro entre ela e sua mãe adotiva, Haydeé (Mirela Pascual), a quem Natalia não vê há anos.

A história é contada sob o enquadramento do reality show, com Natalia e Haydeé contando a história delas para a excêntrica apresentadora do programa, Patricia (Rossy de Palma). As idas ao passado curiosamente tem a fotografia carregada em tons de sépia, conferindo as imagens um aspecto de foto antiga, desgastada, denotando que estamos diante de uma memória.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Crítica – Pequenos Incêndios Por Toda Parte


Análise Crítica – Pequenos Incêndios Por Toda Parte

Review – Pequenos Incêndios Por Toda Parte
Em seu primeiro episódio, a minissérie Pequenos Incêndios Por Toda Parte, adaptação do romance de mesmo nome de Celeste Ng, parece ser mais uma daquelas narrativas do “salvador branco”, aquela em que uma pessoa branca privilegiada ajuda uma pessoa negra que aparentemente é incapaz de ajudar a si mesma juntas as duas aprendem valiosas lições uma com a outra. A indústria hollywoodiana adora esse tipo de história, muitas vezes premiando esses filmes que colocam pessoas negras como figuras passivas que precisam de um branco para lutarem pelo que querem, já vimos isso em Um Sonho Possível (2009) ou em Green Book (2019) e essa minissérie parecia ser mais um exemplar desse clichê anacrônico. O texto a seguir contem SPOILERS para a série.

Digo “parecia” porque, na verdade, ela é qualquer coisa menos isso. A trama usa esse premissa batida para virá-la ao avesso, para mostrar que a “salvadora branca” não é a heroína da história, mas a vilã. Que esse tropos não é progressista, mas uma força de manutenção do status quo, feito para que tudo continue igual, expiando a culpa de uma elite branca pelas desigualdades, mas sem promover uma transformação real, mantendo as minorias no lugar que as elites reservaram a elas.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Drops - Sócias em Guerra


Análise Crítica - Sócias em Guerra

Review - Sócias em GuerraContando com nomes como Tiffany Haddish e Salma Hayek, esperava que esse Sócias em Guerra fosse ao menos divertido, mas o que encontrei foi um produto vazio, que raramente faz rir. Na trama, Mia (Tiffany Haddish) e Mel (Rose Byrne) são amigas de infância que juntas abriram uma empresa de cosméticos. Quando a empresa está com problemas financeiros, elas recebem uma oferta da megaempresária Claire Luna (Salma Hayek) para adquirir parte da empresa delas. No processo de aquisição Claire começa a jogar uma sócia contra a outra, colocando em risco a amizade das duas.

Haddish e Byrne conseguem convencer como duas pessoas que se conhecem a vida inteira, mas o roteiro muitas vezes pesa tanto a mão na imaturidade e estupidez das duas que é difícil se importar com elas. Isso fica evidente em situações cômicas sem sentido, como quando elas tentam roubar um drone no escritório de Claire. Elas estavam prestes a se encontrar com uma pessoa que poderia salvar o negócio delas e a primeira coisa que tentam fazer enquanto esperam para entrar na reunião é roubar algo que nem precisam? Qual o motivo disso?

terça-feira, 30 de junho de 2020

Crítica – Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars

Análise Crítica – Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars

Review Crítica – Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars
De certa forma este Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars acaba sendo similar a outras comédias protagonizadas por Will Ferrell. Tal como em Ricky Bobby: A Toda Velocidade (2006) e Escorregando para a Glória (2007), é uma história sobre um sujeito faz uma dupla com outra pessoa igualmente excêntrica para participar de uma competição em um nicho muito específico.

Na trama, Lars (Will Ferrell) e Sigrit (Rachel McAdams) tem uma banda juntos e sonham em participar do festival Eurovision (uma competição real que existe desde 1956), que reúne músicos de toda Europa em uma competição musical, representando a Islândia, pais natal deles. Quando uma série de acidentes bizarros elimina todos os outros músicos islandeses que tentavam entrar no festival, Lars e Sigrit tem a chance de realizar o sonho deles.

O problema no filme nem é parecer demais em termos de premissa com outros feitos por Ferrell e sim não conseguir nos envolver com esses personagens. Ferrell aqui e ali consegue colocar uma frase de efeito divertida, mas muito da comédia, como a relação entre Lars e o pai (Pierce Brosnan), e outros elementos não funcionam.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Crítica – A Despedida


Análise Crítica – A Despedida

Review – A DespedidaLidar com o luto não é fácil, ainda mais quando sabemos que uma pessoa querida tem pouco tempo de vida. Quando sequer podemos contar pra essa pessoa o pouco tempo que se tem ou se despedir adequadamente, tudo pode ser ainda mais difícil. É esse o conflito central de A Despedida.

Na trama, Billi (Awkwafina) viaja de volta para China para ir ao casamento de um primo depois de descobrir que avó, Nai Nai (Shuzhen Zhao) foi diagnosticada com um câncer severo e aparentemente tem apenas três meses de vida. Chegando lá, descobre que os parentes optaram por não contar para a avó do seu estado de saúde, para que ela aproveite melhor seus últimos dias sem se preocupar. Billi, no entanto, fica dividida com essa escolha, já que não poderá se despedir adequadamente da avó e provavelmente não conseguirá voltar à China para visitá-la uma outra vez.

A diretora Lulu Wang conduz tudo com muita sutileza, deixando que os personagens comuniquem seus sentimentos mais com os corpos e gestos do que com as palavras. Há muitos momentos de silêncio, seja em cenas coletivas ou em segmentos em que Billi está sozinha, que enfatizam a natureza contemplativa do dilema da protagonista, entre seu sentimento individual de ser capaz de se despedir da avó e o seu compromisso com a coletividade familiar para manter os ânimos da avó.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Crítica – The Sinner: 3ª Temporada


Análise Crítica – The Sinner: 3ª Temporada

Review – The Sinner: 3ª Temporada
Quando falei sobre a segunda temporada de The Sinner, mencionei que apesar de construir um mistério envolvente não dizia muito sobre a questão da culpa que a primeira temporada já não tivesse feito. Essa terceira temporada começa instigante, mas vai aos poucos perdendo força. Avisamos que o texto pode conter SPOILERS.

Na trama, o detetive Harry Ambrose (Bill Pullman) é chamado para investigar uma batida de carro que termina com a morte do motorista, mas o passageiro, um professor de escola particular chamado Jamie (Matt Bomer), sobrevive. Aparentemente parece só um acidente causado pela imprudência do motorista, mas Ambrose desconfia que Jamie conscientemente deixou o amigo, Nick (Chris Messina), morrer.

O ator Chris Messina traz uma presença imprevisível e ameaçadora para Nick. O modo como o personagem consegue afetar e manter o controle sobre Jamie cria um mistério envolvente sobre o que teria acontecido no passado deles ao ponto em que Nick consegue manipular o professor com tanta facilidade e que traumatiza Jamie ao ponto em que ele opta por deixar Nick morrer. Matt Bomer convence da instabilidade que se instaura em Jamie a partir do momento em que Nick volta para sua vida e também da culpa que se instala nele depois de deixar o antigo amigo morrer, o que volta ao tema central da série que é a culpa.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Rapsódias Revisitadas – Um Dia De Fúria

Resenha – Um Dia De Fúria

Análise Crítica - Um Dia de Fúria
Apesar de ser mais lembrado pelos dois filmes do Batman que dirigiu, o diretor Joel Schumacher também conduziu muitos filmes marcantes nas décadas de 80 e 90, como O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (1985), Os Garotos Perdidos (1987) e Um Dia de Fúria (1993), o filme que revisitaremos hoje nessa coluna.

A trama segue um trabalhador (Michael Douglas) que abandona o carro em um engarrafamento e decide ir andando para casa, já que é aniversário da filha. Ao longo do caminho, ele não encontra nada além de hostilidade e responde a isso de maneira agressiva, criando ainda mais violência e espalhando o caos por onde passa.

A narrativa opera em vários níveis de crítica à sociedade e cultura dos Estados Unidos e como o resultado de um grupo social com essa estrutura e valores é uma receita para o desastre. A primeira coisa que chama atenção é o individualismo. Praticamente todas as pessoas com as quais o protagonista se encontra veem apenas o próprio lado e tentam se impor diante do protagonista. O que resulta nessas interações não é uma conversa, uma troca, mas um duelo em que um tenta forçar o outro a fazer o que quer e no qual o mais agressivo sai vitorioso. Uma sociedade na qual as pessoas só se preocupam consigo mesmas.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Crítica – Wasp Network: Rede de Espiões



Análise Crítica – Wasp Network: Rede de Espiões

Review – Wasp Network: Rede de Espiões
Dirigido por Olivier Assayas e adaptando um livro escrito pelo brasileiro Fernando Morais baseado em uma história real, este Wasp Network: Rede de Espiões tinha, ao menos no papel, tudo para dar certo. Para quem não conhece a obra de Morais, ele é um dos melhores escritores de não-ficção do Brasil, tendo escrito biografias de figuras como Olga Benário e Assis Chateaubriand, ambas adaptadas para o cinema em Olga (2004) e Chatô: O Rei do Brasil (2015). O produto final, porém, acaba deixando a desejar graças a uma série de escolhas relativas à estrutura narrativa.

Adaptando o livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, escrito por Morais, a trama acompanha um grupo de agentes da inteligência cubana que viajam aos Estados Unidos na década de noventa com o intuito de se infiltrarem em organizações anticastristas para impedirem ataques ao governo cubano. Entre esses agentes estão os pilotos Rene (Edgar Ramirez) e Juan Pablo (Wagner Moura) e o burocrata Gerardo (Gael Garcia Bernal).

O livro escrito por Morais era uma espécie de “James Bond do subdesenvolvimento”, com os personagens precisando lidar tanto com as dificuldades de manterem uma história falsa sobre si e todas as implicações disso, como também com os recursos limitados da ilha para fazerem seu trabalho. O filme comandado por Assayas, no entanto, acaba carecendo tanto de suspense quanto de drama.

terça-feira, 23 de junho de 2020

Crítica – Kidding: 2ª Temporada


Análise Crítica – Kidding: 2ª Temporada

Review – Kidding: 2ª Temporada
Depois de uma excelente primeira temporada em que a série Kidding levou seu protagonista provavelmente até o fundo do poço de onde os sentimentos reprimidos dele poderiam levá-lo, essa segunda temporada parece voltada a mostrar o esforço do personagem em se reerguer. Em muitos casos é difícil que uma série com um ano de estreia tão bom consiga manter o nível em temporadas posteriores, mas essa segunda consegue ser tão boa quanto a primeira.

A narrativa retoma exatamente no ponto em que a primeira temporada acabou. Depois de atropelar Peter (Justin Kirk), o namorado de Jill (Judy Greer), Jeff (Jim Carrey) decide doar o próprio fígado para salvar a vida dele. Ao mesmo tempo, Deirdre (Catherine Keener) dá prosseguimento ao processo de divórcio do marido e tenta ajudar Jeff a reerguer o programa de televisão.

Se o mote da primeira temporada era descer ao fim da cachoeira e entender as decisões que levaram a essa queda, o mote da segunda parece ser o da reparação. Em como, depois das coisas serem inevitavelmente destruídas, é possível reconstruir as coisas, em que medida existe a possibilidade de reparação. Claro que, tal qual a primeira temporada, os personagens permaneçam sujeitos falhos, que nem sempre tomam as melhores ou mais louváveis decisões.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Crítica – A Comédia dos Pecados


Análise Crítica – A Comédia dos Pecados

Review – A Comédia dos PecadosO Decamerão escrito por Boccaccio no século XIV representava uma importante ruptura do olhar artístico de sua época. Nele, não era mais o divino, o metafísico que movia os personagens, não era o amor espiritual que estava em jogo. Eram os valores terrenos, carnais, da natureza que motivavam seus personagens, tirando as histórias do metafísico e da moral medieval e inserindo essas tramas no domínio do realismo. Este A Comédia dos Pecados é levemente baseado nos escritos de Boccaccio tenta exatamente parodiar essa transição do discurso medieval para o discurso realista recorrendo ao deboche e ao absurdo.

A trama se passa em um convento no interior da Itália medieval e é centrado em um grupo de freiras que começa a ficar instável por conta da clausura. As coisas se complicam com a chegada de Massetto (Dave Franco), que chega no convento fugindo de nobre que quer matá-lo. Massetto finge ser surdo-mudo e começa a trabalhar no convento, mas a lascívia das freiras e as confusões que se instalam tornam difícil que ele consiga manter a farsa.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Crítica - Pokémon: Isle of Armor


Análise Crítica - Pokémon: Isle of Armor

Review - Pokémon: Isle of Armor
Quando escrevi sobre Pokémon Sword/Shield mencionei como ele refinava muitos elementos problemáticos que passaram tempo demais intocados pela franquia, ainda que a ausência da possibilidade de trazer todos os monstrinhos para o game fosse um pouco limitadora. Pois a primeira expansão dos dois jogos, Isle of Armor traz de volta mais uma centena de criaturas de gerações anteriores, além de um novo espaço para explorar.

A trama da expansão é bem simples, o protagonista viaja para a ilha do título para treinar no Dojo local e, no processo, se envolve com os testes impostos pelo mestre Mustard, conhece um novo pokémon lendário em Kubfu e um novo rival na forma de Clara ou Avery, dependendo da sua versão do jogo. A história é bem simples e breve, podendo ser completada em duas ou três horas se o jogador for direto para os objetivos.

A trama aponta para uma expansão de elementos da mitologia da região de Galar, em especial a misteriosa energia Dynamax, mas não oferece muito em termos de desenvolvimento do universo. O novo (ou nova) rival, independente da versão, é mais irritante do que qualquer outra coisa, constantemente tentando menosprezar o protagonista com trocadilhos toscos envolvendo o tipo de pokémon em que se especializam, o que fica cansativo bem rápido. Por outro lado, mestre Mustard e sua esposa Honey (mostarda e mel, sacaram?), além do resto das figuras da ilha, são carismáticos o suficiente para evitar que tudo seja entediante.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Crítica – Kidding: 1ª Temporada


Análise Crítica – Kidding: 1ª Temporada

Review – Kidding: 1ª TemporadaEu não sabia exatamente o que esperar de Kidding. Fui assistir por conta do elenco encabeçado por Jim Carrey e por algumas cenas que viralizaram na internet por conta de sua inventividade visual. O que encontrei foi uma excelente mescla de drama e comédia que examina as consequências do trauma na psique humana.

Na trama, Jeff Picles (Jim Carrey) é um famoso apresentador infantil que há anos conduz um programa educativo televisivo com marionetes em uma emissora de acesso público. Jeff fica devastado com a morte de um de seus filhos em um acidente de carro e tem dificuldade em lidar com o próprio luto, principalmente porque sua esposa, Jill (Judy Greer), se separa dele e Jeff vê tudo desmoronar ao seu redor. Ao invés de processar todos esses sentimentos, Jeff os engole a seco e tenta manter a personalidade otimista e gentil de seu personagem televisivo, o Sr. Picles, o que obviamente só agrava seu estado mental.

Poucos atores dariam conta de um personagem como Jeff da maneira que Jim Carrey faz aqui. O ator dá conta das múltiplas facetas do apresentador de maneira bastante natural, transitando entre a personalidade lúdica e brincalhona do Sr. Picles quanto seu lado mais depressivo e autodestrutivo. Jeff, no entanto, não é o único de sua família com problemas emocionais. Seu pai, Seb (Frank Langella), e sua irmã, Deirdre (Catherine Keener) também tem seus próprios problemas emocionais.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Crítica - Downhill


Análise Crítica - Downhill

Review - DownhillO filme sueco Força Maior (2014) foi uma das melhores produções do ano em que foi lançado, vencendo prêmios no Festival de Cannes e sendo indicado a outras premiações internacionais como o Globo de Ouro. Como é comum acontecer, ele ganhou um remake hollywoodiano neste Downhill que, como a maioria dos remakes hollywoodianos de filmes internacionais premiados, parece não ter muito a dizer ou acrescentar ao que o original já fez.

Na trama, o casal Pete (Will Ferrell) e Billie (Julia Louis-Dreyfus) está passando férias nos alpes suíços com os filhos. Quando uma das áreas externas do resort é atingida por uma pequena avalanche e Pete corre sozinho, abandonando Billie e os filhos no local, isso muda completamente a dinâmica da família.

A ideia aqui, tal como no original, é ser uma comédia ácida sobre a natureza individualista do ser humano. Tratar de como rapidamente nos despimos de nosso viés de civilidade e humanismo quando as coisas apertam e passamos a nos preocupar apenas consigo mesmos. Algumas cenas chave do original estão presentes aqui de maneira bem semelhante, em especial a cena em que Pete e Billie revelam o que aconteceu no momento da avalanche para um casal de amigos e tudo explode uma discussão absurda em que Pete tenta racionalizar as próprias ações justificando que não fez nada errado.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Crítica – Superman: Entre a Foice e o Martelo


Análise Crítica – Superman: Entre a Foice e o Martelo

Review – Superman: Entre a Foice e o MarteloLançado em 2003 para o selo Elsewords da DC, que contava histórias de seus super-heróis em universos paralelos, Superman: Entre a Foice e o Martelo imaginava o que teria acontecido se Kal-el tivesse caído na União Soviética ao invés de nos Estados Unidos. O resultado da obra de Mark Millar era uma das melhores histórias do personagem, que mostrava um amplo entendimento do que tornava o Superman tão singular ao mesmo tempo em que celebrava seu legado. Pois agora a Warner decidiu adaptar a história neste longa animado Superman: Entre a Foice e o Martelo e o resultado é quase tão bom quanto o material original.

Na trama, depois de ser revelado ao mundo, a existência do Superman soviético amplia ainda mais as tensões da Guerra Fria e os temores dos Estados Unidos com a expansão soviética. Para tentar conter a ameaça, o governo dos EUA recorre à sua mente mais brilhante: Lex Luthor. A partir de então acompanhamos as décadas de rivalidades entre as duas potências mundiais a partir da rivalidade entre Lex e o Superman.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Crítica – Destacamento Blood


Análise Crítica – Destacamento Blood

Resenha Crítica – Destacamento Blood
Spike Lee provavelmente não imaginou que Destacamento Blood, seu filme mais recente, seria lançado bem em meio a uma série de protestos sobre racismo e violência estatal contra a população negra dos Estados Unidos. Chegando via Netflix durante um momento político e um contexto de recepção que torna seus temas ainda mais relevantes, é difícil negar a força do trabalho de Lee aqui, ainda que tenha suas falhas.

Na trama, um grupamento de soldados negros que combateu junto na guerra do Vietnã retorna ao país nos dias de hoje para recuperar o corpo de um companheiro de farda que morreu em combate na selva. Eles também tem um segundo motivo: recuperar uma mala de ouro que resgataram de um avião de transporte da CIA e enterraram na floresta.

A narrativa, em essência, trata sobre duas guerras ou duas lutas que, para os personagens, nunca acabaram. Eles continuam vivendo o Vietnã, carregando em si todos os traumas e arrependimentos da guerra, assim como continuam vivendo a luta contra o racismo, por terem sido jogados em uma guerra para lutar, morrer e defender um país que os trata como cidadãos de segunda classe.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Drops – Férias Frustradas



Análise Crítica - Férias Frustradas

Review - Férias FrustradasFuncionando simultaneamente como uma continuação e um reboot do filme de 1983, este novo Férias Frustradas não tem lá muita trama e o arco dos personagens é previsível, mas tem momentos suficientemente divertidos para valer a experiência.

A narrativa acompanha a família Griswold liderada por Rusty (Ed Helms). Percebendo que seus filhos e esposa não estão com vontade de ir para o destino de férias habitual da família, ele decide repetir a viagem que fez na infância (nos eventos do Férias Frustradas original) e levar a família em uma viagem de carro através do país para o parque de diversões Walley World. Logicamente nem tudo dá certo ao longo da viagem e a família se coloca em muitas confusões.

A trama em si é bem previsível, com a família eventualmente colocando as diferenças de lado e aprendendo a cuidar melhor um do outro. O texto também tem sua parcela de furos e algumas incoerências, mas não chega a ser nada que quebre a imersão, principalmente porque não é o tipo de filme que assistimos pela história.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Drops – Doce Argumento

Análise Crítica – Doce Argumento

Review – Doce ArgumentoDoce Argumento é uma daquelas comédias bem lugar-comum que inundam constantemente o catálogo da Netflix, partindo da tradicional premissa do casal que se detesta, mas eventualmente descobre que se ama sem, no entanto, oferecer nada de novo ou diferente a esse clichê batido.

Na trama, Bennett (Jacob Latimore) e Lona (Sami Gayle) disputam a liderança do clube de debate da escola e são rivais desde a juventude. Ambos contam com a vitória no campeonato estadual de debate como meio de entrarem em uma boa universidade, mas quando não se classificam individualmente, tentam entrar como dupla. Ao trabalharem juntos, obviamente colocarão as diferenças de lado e vão descobrir que tem tudo a ver um com o outro.

Assim como outras comédias românticas da Netflix, a exemplo de Amor em Obras (2019), o principal problema nem é só a trama previsível, mas a completa ausência de drama ou conflito. Imaginamos que a disputa do campeonato será esse elemento, já que ambos contam com a vitória, mas isso é resolvido quando eles passam a competir como dupla. A informação de que as mães dos dois, Amy (Christina Hendricks) e Julia (Uso Aduba), foram rivais no colégio parece indicar que algum conflito surgirá disso, mas nada acontece nessa frente também.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Rapsódias Revisitadas – Pra Lá de Bagdá

Análise Crítica - Pra Lá de Bagdá


Review - Pra Lá de BagdáQuando foi originalmente lançado em 1998 a comédia de maconheiros Pra Lá de Bagdá não fez muito sucesso. Foi massacrada pela crítica e não rendeu muito em termos de bilheteria. Com o tempo, no entanto, acabou se tornando meio que um filme cult, provavelmente por ter algumas cenas realmente memoráveis ou pelo ganho de popularidade do comediante Dave Chappelle, que não era tão conhecido quando o filme estreou e hoje é um artista premiado.

Em essência Pra Lá de Bagdá é mais uma comédia de maconheiros ao estilo daquelas estreladas por Cheech e Chong, por exemplo. Na trama, Thurgood (Dave Chappelle) trabalha como faxineiro em uma empresa farmacêutica que faz experiências com maconha medicinal. Quando o amigo dele, Kenny (Harland Williams), é preso, Thurgood e seus outros companheiros de apartamento, Scarface (Guillermo Diaz, o Huck de Scandal) e Brian (Jim Breuer) decidem roubar a maconha do laboratório para vender nas ruas e levantar dinheiro para pagar a fiança de Kenny.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Crítica – The Looming Tower


Análise Crítica – The Looming Tower

Review – The Looming Tower
Depois dos ataques de 11 de setembro muitas teorias da conspiração começaram a pipocar. De inferências que foi tudo feito em acordo entre o governo dos EUA e a família real saudita, a proposições de que apenas o ataque às torres foi real e todo resto encenado. A verdade, no entanto, pode ser muito mais simples, como sugere o premiado livro-reportagem O Vulto das Torres, escrito por Lawrence Wright, que serviu de inspiração para esta minissérie The Looming Tower, produção da Hulu que chega ao Brasil via Amazon Prime.

A começa ainda no final da década de noventa e é centrada em John O’Neill (Jeff Daniels), especialista em contraterrorismo do FBI. John começa a prestar atenção na ameaça potencial de Osama Bin Laden e da Al-Qaeda graças a ajuda do agente Ali Soufan (Tahar Rahim), um libanês criado nos EUA que entende a filosofia dos radicais islâmicos. O FBI, no entanto, não é a única agência de olho neles, com a CIA também possuindo uma divisão própria dedicada a coletar informações sobre a rede liderada por Bin Laden. O problema é que ao invés de cooperarem, as duas agências brigavam pela jurisdição dos casos e ocultavam informações uma da outra e isso basicamente permitiu que os atentados acontecessem.