sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Crítica - American Horror Story: Cult

Análise American Horror Story: Cult


American Horror Story: Cult Review
Fiquei bastante intrigado quando o showrunner Ryan Murphy anunciou que este American Horror Story: Cult, sétima temporada de sua série de antologia de terror, iria abordar o resultado das últimas eleições dos Estados Unidos. Por um lado essa escolha poderia render uma ótima sátira social, por outro a proximidade histórica com os eventos trazia o risco de algo raso, sem a plena compreensão do impacto desses eventos.

A temporada é bem competente ao evocar o clima de tensão social que tomou conta dos EUA durante e depois da eleição, no qual pessoas de ambos lados do espectro político passaram a usar o alinhamento político como principal e talvez única maneira de medir o caráter dos outros. Em meio disso tudo está Ally (Sarah Paulson), uma eleitora de Hillary Clinton que viu suas várias fobias saírem de controle desde a derrota nas eleições. O caminho de Ally e sua esposa Ivy (Alison Pill) se cruza com o de Kai (Evan Peters), um jovem eleitor de Donald Trump que parece ter votado no político não por crer exatamente nele, mas por desejar o clima de tensão e insegurança que se instauraria no país com sua vitória.

A primeira metade da temporada é ótima ao satirizar os dois lados, com os republicanos sendo um bando de preconceituosos violentos enquanto que os democratas são ultra sensíveis e se ofendem ou se assustam com qualquer coisa. Esse clima de tensão é evidenciado pelas aparições de palhaços sinistros e os carros que passam à noite pela vizinhança borrifando algo misterioso no quintal das casas. Será que tudo isso é real ou fruto de paranoia? Será que Kai tem algum grande plano maligno ou tudo é uma grande trollagem?

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Crítica - Arábia

Análise Crítica - Arábia


Review Arábia
Não sei exatamente explicar o motivo, mas algo em Arábia me fez lembrar de Vidas Secas, tanto o romance de Graciliano Ramos quanto a adaptação para o cinema de 1963 de Nelson Pereira dos Santos. Talvez seja nos títulos, ambos remetendo a uma aridez hostil. Talvez seja nas jornadas de ambos protagonistas, homens brutos, endurecidos por uma vida difícil, em constante trânsito em busca de trabalho. Talvez seja o senso de que esses personagens andam em círculos e nada irá melhorar para eles. De todo modo, Arábia é um retrato do cotidiano do trabalhador brasileiro tal como Vidas Secas fora, guardadas as devidas proporções, claro.

A trama começa acompanhando André (Murilo Caliari) um jovem que mora com o irmão mais novo no interior de Ouro Preto. Seus pais estão sempre viajando, mas ele é ajudado pela tia que trabalha como enfermeira em uma fábrica próxima. Um dia sua tia precisa cuidar de um operário que teve um acidente, Cristiano (Aristides de Souza), e pede a André que vá até a casa do operário para pegar algumas roupas. Lá André encontra um caderno com anotações de Cristiano no qual ele relata sua vida e o filme passa a seguir a história do operário.

Vencedores do XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema



O XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema terminou ontem, 15 de novembro, e após a sessão de encerramento que apresentou o longa-metragem Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans, foram entregues os prêmios das mostras competitivas. O filme Café com Canela foi um dos mais mencionados durante as premiações. Confiram aqui a lista completa:

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Crítica - Liga da Justiça

Análise Liga da Justiça


Review Liga da JustiçaO recente Mulher Maravilha mostrou que a Warner/DC podia aprender com os erros dos filmes anteriores. Já este Liga do Justiça, embora tenha sua parcela de problemas, continua a colocar o universo cinematográfico da DC nos eixos ao introduzir novos heróis e apostar na dinâmica entre eles.

A trama começa quando o Batman (Ben Affleck) começa a detectar aparições de criaturas alienígenas ao redor do mundo e suspeita que um ataque ao planeta está à caminho. Ao mesmo tempo a ilha das amazonas é atacada pelo Lobo das Estepes (voz de Ciaran Hinds), um guerreiro alienígena que veio à Terra para recuperar três Caixas Maternas, artefatos de grande poder escondidos em nosso planeta desde tempos imemoriais. A rainha Hipólita (Connie Nielsen) avisa Diana (Gal Gadot) da ameaça iminente e ela e Bruce tentam reunir outros seres especiais para combater a ameaça.

O começo do filme é bem acelerado e bagunçado conforme a trama tenta dar conta de introduzir ao menos três novos personagens e seus núcleos de coadjuvantes nas menos de duas horas de projeção. A narrativa corre para colocar todas as suas peças no tabuleiro, engatando uma cena cheia de diálogos explicativos depois da outra no qual muito é dito, mas pouco é sentido em relação aos dilemas de cada herói, já que é tudo muito rápido.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Crítica - Antonio Um Dois Três

Análise Antonio Um Dois Três


Review Antonio Um Dois Três
Em Antonio Um Dois Três, o jovem português Antonio (Mauro Soares) não sabe o que quer da vida. Ele pensa em voltar a morar com o pai, pensa em tentar voltar com a ex-namorada, pensa em largar a faculdade, mas não sabe o que fazer. Tudo muda quando ele conhece a brasileira Débora (Deborah Viegas) e ele tem a certeza de que quer ficar com ela. A brasileira, no entanto, tem uma viagem marcada para a Rússia e eles não podem ficar juntos. Aí é que o filme dá sua principal guinada e recomeça tudo do zero. Como o título diz, o filme se divide em três segmentos nos quais Antonio tenta ficar com Débora.

A estrutura remete bastante a Corra Lola, Corra (1998) do alemão Tom Tykwer que também "resetava" algumas vezes a linha temporal dos eventos até que a protagonista acertasse o que tinha que fazer. O longa de Tykwer também já trabalhava esses elementos de tentativa e erro, mas este Antonio Um Dois Três tenta usar isso para falar também de uma juventude à deriva, que não sabe o que fazer da vida e constantemente tenta se reinventar.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Crítica - Inhumans: Primeira Temporada

Análise  Inhumans: Primeira Temporada


Review  Inhumans: Primeira Temporada
Quando terminei de assistir esta primeira temporada de Inhumans a primeira coisa que pensei foi: "Eu deveria ter parado de assistir depois do episódio duplo de estreia". Isso porque os dois episódios que abrem a série (e foram exibidos juntos) são tão desastrosos que já ficava evidente que as coisas não melhorariam dali em diante, mas teimosamente (ou masoquisticamente) insisti em continuar.

A segunda e terceira temporadas de Agents of SHIELD já tinham sugerido a existência da família real dos Inumanos e uma cidade fora da Terra no qual a espécie viveria oculta da raça humana e esta série aborda justamente a cidade lunar de Attilan e a família real liderada por Raio Negro (Anson Mount) e Medusa (Serinda Swan). A narrativa começa quando Maximus (Iwan Rheon, o Ramsay de Game of Thrones), irmão mais novo de Raio Negro, articula um golpe contra o trono e Raio Negro, bem como o restante da família real, acabam fugindo para a Terra. A trama tinha potencial de ser uma espécie de Game of Thrones no espaço, cheia de intriga palaciana e personagens moralmente ambíguos, mas sequer chega perto de atingir esse efeito.

Crítica - Café com Canela

Análise Café com Canela


Review Café com Canela
Há uma cena no final da animação Ratatouille (2007) em que o personagem Anton Ego experimenta uma comida feita pela dupla de protagonistas e cada mordida imediatamente o transporta a um momento passado de sua vida. A analogia com essa cena é a melhor maneira que tenho para descrever minha experiência com este Café com Canela, um filme cheio de sentimento e delicadeza sobre a vida no Recôncavo da Bahia e sobre a superação do luto.

A trama é centrada em Margarida, uma mulher que perdeu o filho anos atrás e vive em isolamento. Em paralelo há também a história de Violeta, uma jovem que vende quitutes pela cidade e cuida de sua avó adoentada. Essas duas histórias, bem como algumas de pessoas próximas a essas duas protagonistas, vão aos poucos se cruzando.

A primeira coisa que salta aos olhos é como o filme acerta no clima da vida no Recôncavo. Com tantas produções para cinema e televisão que retratam o interior da Bahia e seus personagens com um viés de mera caricatura ou exotismo, é um alívio ver uma produção que trata esses indivíduos como seres humanos, com dores, alegrias, com vidas tão banais que parece que poderíamos simplesmente encontrar com aquelas pessoas na rua ou ouvir a respeito delas de um conhecido. Essa sensação de verdade está nos personagens, na maneira como eles falam, na música que remete aos ritmos do lugar, na beleza com a qual as paisagens são filmadas, nos sons ambientes ou no senso de comunidade que se constrói entre os personagens. O filme não permite que se veja o Recôncavo, mas que se sinta como é viver ali.

sábado, 11 de novembro de 2017

Crítica - La Manuela

Análise Crítica - La Manuela


Review - La Manuela
O que exatamente leva alguém a considerar um lugar como seu lar? Como se dá a construção dessa sensação de "pertencimento"? Mais importante que isso, o que fazer quando se torna impossível retonar a esse lar? Como um exilado lida com isso? São essas perguntas que o documentário La Manuela, dirigido por Clara Linhart.

O documentário acompanha a jornada de Manuela Picq, professora e ativista franco-brasileira que é presa no Equador durante um protesto de grupos indígenas. O governo equatoriano a acusa de imigração irregular embora ela esteja no país há quase uma década trabalhando como professora. Seus familiares e amigos começam a suspeitar que o questionamento de seu status de imigração pelo governo pode ser uma manobra política, tanto pelo envolvimento de Manuela com o movimento indígena como pela sua relação amorosa com Carlos, uma das principais lideranças do movimento.

A narrativa demora um pouco a encontrar seu rumo e decidir que história quer contar a respeito do que ocorre com Manuela. De início parece querer se debruçar sobre a família dela e sua busca por informações, mas precisa repensar sua abordagem depois que Manuela é solta e retorna ao Brasil depois de perder seu visto. A partir de então tenta abordar a questão indígena do Equador, tenta trazer uma crítica à esquerda latinoamericana que teria abandonado parte de suas agendas políticas para se manter no poder. O filme passa muito rápido por questões políticas e ideológicas relativamente complicadas e com isso acaba simplificando muita coisa. A narrativa, no entanto,  se "encontra" de fato quando decide se debruçar sobre a própria Manuela e como ela se sente frente ao seu exílio e a impossibilidade de retornar a um país que transformou em lar.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Crítica - Horizon Zero Dawn: The Frozen Wilds

Análise Horizon Zero Dawn: The Frozen Wilds


Resenha Horizon Zero Dawn: The Frozen Wilds
O exclusivo para Playstation 4 Horizon Zero Dawn foi um dos melhores lançamentos de 2017 com sua narrativa envolvente, universo singular e jogabilidade desafiadora que colocava o usuário para caçar poderosos animais robóticos. Assim sendo, eu tinha altas expectativas para esta primeira expansão, Horizon Zero Dawn: The Frozen Wilds e ela não me decepcionou.

A trama da expansão se passa em paralelo à narrativa principal e leva a heroína Aloy a uma nova área chamada de "O Corte". Situada ao norte do mapa e consistindo de um ermo gelado habitado pela tribo nômade dos Banuk, com quem Aloy encontrou brevemente no jogo-base. Os Banuk estão sendo massacrados por uma entidade autodenominada Daemon que está controlando as máquinas da região e tornando-as mais poderosas e perigosas. A trama se debruça um pouco sobre o funcionamento das religiões no universo de Horizon e qual o papel e importância da crença neste universo hostil.

Crítica - Pela Janela

Análise Crítica - Pela Janela


Review Pela Janela
Os chamados road movies costumam tecer tramas sobre buscas, sobre pessoas em uma jornada para encontrarem algo sobre si mesmas ou para si mesmas. Este Pela Janela segue o molde típico deste formato narrativo, mas conquista pela sua natureza contemplativa e pela delicadeza com a qual acompanha a jornada de sua protagonista.

A trama é centrada em Rosália (Magali Biff), uma operária que é demitida da fábrica na qual trabalhava depois de mais de 30 anos no emprego. Seu irmão, José (Cacá Amaral) tenta consolá-la e resolve levar Rosália junto com ele em uma viagem de carro que precisará fazer até a Argentina.

É um filme com poucos diálogos e pouca música prezando mais pelo uso de ruídos e sons ambientes para ressaltar os silêncios dos personagens. Essa escolha reflete o momento contemplativo e de exame interno de sua protagonista, mas que diz muito através de suas imagens e da atuação de Magali Biff que evoca uma constante melancolia e estranhamento.