terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Crítica – Valor Sentimental

 

Análise Crítica – Valor Sentimental

Review – Valor Sentimental
É interessante como nossas memórias, nossas histórias pessoais e afetos estão muito conectados a objetos, a lugares. Coisas que quando retornamos a elas nos levam de volta a diferentes momentos de nossas vidas. Em Valor Sentimental o diretor Joachim Trier explora como a arte mobiliza essas relações com espaços, tempos, memórias e afetos.

Histórias que contamos

A narrativa acompanha Nora (Renate Reinsve, do excelente A Pior Pessoa do Mundo) uma atriz que tem uma relação distante com o pai, o diretor de cinema Gustav (Stellan Skarsgard). Um dia Gustav procura Nora dizendo que escreveu para ela o papel de protagonista em seu próximo filme e que ele será filmado na antiga casa da família em que Gustav cresceu e na qual criou as filhas. Nora recusa, afirmando que não consegue dialogar com o pai e Gustav segue para fazer o filme sem ela. Gustav contrata a jovem atriz estadunidense Rachel (Elle Fanning) para o papel que seria de Nora e consegue financiamento de uma plataforma de streaming. Quando Gustav e Rachel vão para a casa da família, o processo de ensaios mexe tanto com as memórias dele quanto com as das filhas Nora e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas).

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Drops – Jovens Mães

 

Análise – Jovens Mães

Review – Jovens Mães
Dirigido pelos irmãos Dardenne, Jovens Mães se beneficia de sua abordagem naturalista ao acompanhar o cotidiano de cinco garotas que acabaram de se tornar mães e estão vivendo em um abrigo de mulheres. Há algo de previsível nas histórias contadas, no entanto, o filme acerta no clima de realidade vivida e na construção do universo emocional das personagens.

De repente mãe

Jessica (Babette Verbeek) está prestes a parir, mas busca sua mãe biológica para saber porque ela a deu para adoção. Ela tem certeza de que não faria o mesmo com sua filha por nascer, mas age de maneira intempestiva ao perseguir respostas sobre seu passado. Perla (Lucie Laruelle) espera o namorado e pai de seu recém nascido sair do reformatório, mas logo vê que ele não tem interesse em construir uma família. Naima (Samia Hilmi) está de saída do abrigo e parece a mais ajustada do grupo. Julie (Elsa Houben) lida com seus vícios e tenta recuperar a vida junto com o namorado. Ariane (Janaina Halloy Fokan) quer dar o seu bebê para adoção, mas Natalie (Christelle Cornil), sua mãe alcoólatra e abusiva, tenta manipular a garota a deixar a criança com ela.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Crítica – Pluribus

 

Análise Crítica – Pluribus

Resenha Crítica – Pluribus
Nova série de Vince Gilligan, criador de Breaking Bad, Pluribus estreou cercada de mistério. Só se sabia que era uma ficção científica e que seria estrelada por Rhea Seehorn, com quem Gilligan trabalhou em Better Call Saul. O primeiro episódio fazia parecer mais uma trama de invasão alienígena, mas logo a narrativa se desloca de elementos familiares do gênero para falar de questões mais contemporâneas. Aviso que o texto contem SPOILERS da temporada.

Júbilo coletivo

Na série, cientistas encontram uma mensagem vinda do espaço. A mensagem traz uma sequência de DNA. Eles sintetizam essa sequência e começam a experimentar em ratos, mas logo um pesquisador é mordido e sua primeira ação é infectar o maior número de pessoas possível. Descobrimos que todos os “infectados” se unem em uma espécie de mente coletiva que vive em plena harmonia, mas alguns humanos se mostram imunes ao processo. Carol Surka (Rhea Seehorn) é uma entre cerca de uma dúzia de pessoas ao redor do mundo que é imune à infecção da mente coletiva. O coletivo não parece inicialmente hostil, disposto a ajudar Carol e conversar com ela, mas a escritora desconfia deles, principalmente porque no processo de “união” sua companheira, Helen (Miriam Shor), morre.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Crítica – Um Natal Surreal

 

Análise Crítica – Um Natal Surreal

Review – Um Natal Surreal
De início não me interessei muito por Um Natal Surreal. Parece mais uma daquelas comédias natalinas que inundam streamings sempre que chegam as festas de fim de ano, a única coisa que me atraiu a ele foi a presença de Michelle Pfeiffer. Infelizmente a estrela não consegue sozinha carregar uma produção tão sem alma.

Natal materno

A trama parte de uma ideia interessante. Narrativas de Natal são sempre centradas em figuras masculinas, nos pais de família, com as mulheres tendo pouco espaço e seu trabalho para fazer as comemorações familiares sendo invisibilizado. Assim, a narrativa foca Claire (Michelle Pfeiffer) uma mãe de família que está dobrando os esforços para as festas já que todos os seus filhos estão vindo para casa. Ela pede que os filhos façam um vídeo indicando ela para uma competição de mães no programa de auditório de Zazzy Tims (Eva Longoria), mas eles a ignoram. Quando seus filhos, Channing (Felicity Jones), Taylor (Chloe Grace Moretz) e Sammy (Dominic Sessa, de Os Rejeitados) chegam em casa eles continuam a ignorá-la, esquecendo Claire em casa quando vão em um passeio em família. Farta de ser menosprezada, ela decide viajar sozinha no natal.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Crítica – Avatar: Fogo e Cinzas

 

Crítica – Avatar: Fogo e Cinzas

Review – Avatar: Fogo e Cinzas
Depois do bacana Avatar: O Caminho da Água (2022), este Avatar: Fogo e Cinzas dá a impressão de que o diretor James Cameron está se repetindo. Originalmente esses dois filmes seriam uma história só, mas Cameron preferiu dividir em dois e é visível que tudo foi pensado junto, já que esse filme traz os mesmos temas, conflitos e até situações do anterior.

Fogo selvagem

Depois dos eventos do segundo filme, Jake (Sam Worthington), Neytiri (Zoe Saldana) e o resto da sua família lidam com a perda do filho. As coisas se complicam quando o suprimento de oxigênio de Spider (Jack Champion) começam a dar problemas e Jake pensa que talvez seja melhor que o humano vá morar no esconderijo dos demais humanos que se aliaram aos Na’vi. Na viagem eles são atacados por saqueadores da tribo do fogo liderados por Varang (Oona Chaplin) e Spider fica sem oxigênio. Para que ele não morra, Kiri (Sigourney Weaver) usa sua conexão com Eywa para ajudá-lo e fungos da floresta se entranham no corpo dele, permitindo que ele respire o ar de Pandora. Isso torna Spider dos humanos no planeta, já que a autonomia das máscaras de oxigênio facilitaria a colonização. Para capturar o garoto, Quaritch (Stephen Lang) forma uma aliança com Varang e ambos se unem para encontrar o esconderijo de Jake.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Crítica – Foi Apenas um Acidente

 

Análise Crítica – Foi Apenas um Acidente

Review – Foi Apenas um Acidente
Dirigida por Jafar Panahi, a produção iraniana Foi Apenas um Acidente é uma reflexão poderosa sobre os impactos da violência e do autoritarismo, ponderando como essas marcas afetam a vida das pessoas e pequenos eventos podem servir de gatilhos para traumas antigos. É simultaneamente bem acessível na complexidade moral e política que tenta discutir, mas denso e duro de acompanhar por conta das vivências duras que narra.

Memórias do cárcere

A trama começa com uma família dirigindo à noite, um homem, uma mulher e sua filha pequena. O homem (Ebrahim Azizi) acidentalmente atropela um cachorro e para em uma oficina para consertar o carro. O mecânico, Vahid (Vahid Mobasseri), se assusta com a chegada do homem, reconhecendo o som da prótese que ele tem na perna como o mesmo do carcereiro que o torturou na prisão anos atrás. Vahid então decide seguir o homem e o sequestra na rua, levando ao meio do deserto para enterrá-lo vivo e se vingar do que foi feito com ele. O homem, no entanto, nega ser Eghbal, afirmando que perdeu a perna cerca de um ano atrás e mostrando a Vahid que suas cicatrizes de amputação são recentes. Em dúvida, Vahid procura outros companheiros de cárcere para se certificar de que aquele é mesmo Eghbal antes que possa completar sua vingança.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Crítica – It: Bem-Vindos a Derry

 

Análise Crítica – It: Bem-Vindos a Derry

Review – It: Bem-Vindos a Derry
Quando foi anunciado, esperei o pior da série It: Bem-Vindos a Derry. Era o tipo de projeto que soava como mais um prelúdio caça-níqueis feito para capitalizar em cima de uma produção conhecida em uma Hollywood cada vez mais aversa a riscos e nem mesmo a presença de Andy Muschietti, responsável pelos dois It: A Coisa, no comando da série me empolgava. Fui conferir a estreia por pura curiosidade e fui imediatamente fisgado. Claro, a aversão a riscos e explorar o sucesso de um nome conhecido pode de fato ter sido o gatilho para que o projeto fosse aprovado, mas o resultado final é muito bom.

Cidade do Medo

A narrativa se passa na Derry da década de 60. O major Leroy Hanlon (Jovan Adepo) chega na cidade para uma missão secreta na base militar do local. Lá ele conhece Dick Halloran (Chris Chalk), um aviador com dons sobrenaturais que aparentemente está ajudando os militares a encontrar algo nos subterrâneos da cidade. Ao mesmo tempo um grupo de crianças liderados por Lilly (Clara Stack) tenta investigar a morte de um garoto local, mas esbarram em Pennywise (Bill Skarsgard) como o responsável pelo desaparecimento de crianças na cidade. Will (Blake Cameron James), filho de Leroy eventualmente se juntando ao grupo, conectando os dois núcleos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Crítica – Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

 

Análise Crítica – Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Review – Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out
O primeiro Entre Facas e Segredos (2019) é um divertido suspense que brincava com os clichês da era de ouro do romance policial e nos apresentava a um interessante protagonista no excêntrico detetive Benoit Blanc. O segundo filme, Glass Onion (2022), dobrou a aposta na sátira apresentando um mistério que fazia piada em cima dos excessos barrocos desse tipo de narrativa e como esse encadeamento de reviravoltas grandiloquentes muitas vezes é feito para parecer mais inteligente do que se é, dando a impressão de algo complexo quando na verdade é simples, como a “cebola de vidro” que dá título ao filme. Já este Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é o mais sério dos três, ainda que muito autoconsciente dos clichês com os quais trabalha e faça graça com ele.

Os crimes do padre Jud

A trama acompanha o jovem padre Jud (Josh O’Connor, de Rivais) que é enviado para uma paróquia remota chefiada pelo amargo monsenhor Wicks (Josh Brolin), um sacerdote conservador que tem prazer em constranger os membros da congregação. Quando Wicks é assassinado durante uma missa, sendo encontrado no pequeno armário ao lado do altar, as autoridades tem dificuldade de resolver crime, já que ele estava em um espaço fechado e ninguém tinha acesso a ele. Nesse momento chega o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) para ajudar o padre a resolver o mistério.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Crítica – Jay Kelly

 

Análise Crítica – Jay Kelly

Review – Jay Kelly
A todo o momento em nossas vidas estamos adequando nosso comportamento ao contexto nos quais nos inserimos, adotando diferentes posturas nos diferentes espaços. Na prática, construímos diferentes performances do nosso “eu”. Novo filme de Noah Baumbach, Jay Kelly examina como o nosso senso de si pode se perder em meio a essas performances constantes.

O cara interpretando um cara

Jay Kelly (George Clooney) é um bem-sucedido astro do cinema. Ele é famoso, ele é bem reconhecido, mas seu trabalho já não lhe dá a mesma satisfação de antes. Ele também sente que os anos dedicados à carreira o afastaram das filhas Jessica (Riley Keough), com quem tem uma relação conturbada, e a caçula Daisy (Grace Edwards) que está prestes a sair de casa. A crise de Jay se agrava quando ele reencontra Timothy (Billy Crudup), um antigo colega de teatro e amigo. O papel que catapultou Jay ao estrelato veio por acaso, quando ele acompanhou Timothy em um teste e o diretor ignorou Timothy e se interessou por Jay. No reencontro Timothy ainda revela um ressentimento por Jay ter obtido um sucesso que acreditava pertencer a ele. Tudo isso faz Jay repensar seu lugar na indústria e ele abandona o set do seu mais recente projeto para ir ficar com Grace que viajou para a Europa com amigas. O agente de Jay, Ron (Adam Sandler), resolve acompanhar o cliente para que ele não se meta em problemas.

A citação a Sylvia Plath que inicia o filme deixa evidente que o foco da narrativa é a dificuldade de ser você mesmo e encarar quem se é quando é muito mais fácil ser outra pessoa (criando uma performance de si) ou vivendo em fuga de si. Jay, com toda sua aura de astro, é alguém que passou tantos anos performando uma identidade, agindo como o grande astro que todos esperam que ele seja, que perdeu de vista quem ele realmente é por trás de todo esse comportamento construído ao longo de vários anos.

George Clooney é uma escolha precisa para interpretar um astro carismático e respeitado, convencendo desde o início do magnetismo pessoal de Jay e como ele seria capaz de se tornar uma grande estrela. Além do carisma, Clooney traz ao personagem uma melancolia e vulnerabilidade que certamente vem de suas próprias experiências em Hollywood e como o topo pode ser um lugar solitário. Ao lado dele está um eficiente Adam Sandler que evoca o mesmo tipo de sujeito neurótico e cheio de raiva contida que costuma interpretar em suas comédias, mas se lá ele normalmente descamba para a caricatura, aqui o texto e a condução de Baumbach dão ao personagem elementos para que ele tenha mais camadas. Alguém que é tão devotado ao seu principal cliente e tão focado em fazer o que ele demanda que as linhas entre o pessoal e o profissional se borraram e ambos perderam a capacidade de separar as coisas.

Viagem interior

Ao longo da viagem pela Europa, Jay rememora a juventude, lembrando os momentos marcantes da carreira, mas também seus fracassos, em especial a relação distante com Jessica, que ressente o pai por preferir suas famílias da ficção do que com sua filha real. A dor dela é sentida principalmente na cena em que ela diz ter se emocionado mais com pai vendo ele interpretar um pai de família no cinema do que em qualquer uma das poucas interações reais que teve com ele. A escolha de colocar Jay para caminhar em meio aos próprios flashbacks, como se assistisse alguém encenar sua vida e fosse um espectador da própria história ajuda a comunicar a dissociação que há entre quem ele é de fato e a sua persona midiática.

Por mais que o texto e o elenco construa bem o dilema dos personagens, o material não afasta a sensação de que o drama existencial de Jay nunca soa como uma grande crise que vai trazer mudanças ou riscos severos para o personagem. Mesmo que ele de fato abandone o filme e desista de atuar, ele ainda vai ser um milionário com uma vida bastante confortável, então profissionalmente não há nada em risco. No plano pessoal é a mesma coisa. Por mais ele tenha sido um pai ausente, não se reconectar com as filhas nesse momento específico não soa como algo que o fará perdê-las para sempre, principalmente por ele ter meios e recursos para contatá-las quando bem entender. Assim, a narrativa nunca consegue transmitir que essa crise é o ponto de virada irreversível do personagem que o texto tenta nos convencer que é.

Mesmo com essa sensação de que falta drama, Jay Kelly se sustenta pelo carisma de George Clooney e pelo modo como pensa sobre a natureza performática da identidade.

 

Nota: 7/10


Trailer

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Crítica – Tron: Ares

 

Análise Crítica – Tron: Ares

Review – Tron: Ares
Sempre achei a franquia Tron mal aproveitada. É um universo muito interessante, mas como os filmes sempre rendem abaixo do esperado, esse universo nunca decolou de fato. O primeiro filme, lançado em 1982, inovava com cenários e personagens completamente digitais, algo muito novo para época, mas os avanços tecnológicos fizeram um filme envelhecer mal. Uma continuação só viria quase trinta anos depois com o bacana, mas subestimado, Tron: O Legado (2010), que atualizou como esse universo computadorizado seria em um mundo ainda mais digital, mas também não teve o resultado esperado na bilheteria. Agora, quinze anos depois, temos mais um filme da franquia com este Tron: Ares, que infelizmente não fez valer o tempo de espera.

Guerreiros digitais

Na trama, a tecnologia evoluiu para ser possível trazer elementos do mundo digital para o nosso mundo. Há uma espécie de corrida tecnológica entre a Encom, empresa criada por Kevin Flynn (Jeff Bridges) e hoje chefiada por Eve Kim (Greta Lee, de Vidas Passadas e The Morning Show) e a Dillinger Systems, criada pelo rival de Flynn na época do primeiro filme e hoje liderada por Julian Dillinger (Evan Peters). As duas empresas buscam um meio de trazer permanentemente recursos digitais para o mundo real, já que qualquer elemento trazido para o nosso mundo dura apenas cerca de meia hora. Quando Eve descobre elementos para criar o “código da permanência” em meio a antigos arquivos de Kevin Flynn, Julian traz para o mundo real seu programa de segurança Ares (Jared Leto) para caçar Eve e recuperar o código. O contato com Eve, no entanto, faz Ares questionar sua programação.