segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Crítica – Abigail e a Cidade Proibida


Resenha Crítica – Abigail e a Cidade Proibida


Review – Abigail e a Cidade Proibida
Quando escrevi sobre o pavoroso Mentes Sombrias (2018) e o recente Máquinas Mortais (2019) mencionei como esses filmes demonstravam o esgotamento da fórmula de universos distópicos autoritários com tramas infanto-juvenis sobre resistência e independência. Pois a mensagem aparentemente não chegou na Rússia, já que este Abigail e a Cidade Perdida, co-produção entre Rússia e Estados Unidos, repete preguiçosamente todos os elementos típicos deste tipo de história salpicando algumas pitadas de Harry Potter.

A trama gira em torno da jovem Abigail Foster (Tinatin Dalakishvili), ela cresceu em uma cidade cercada por uma grande muralha e governada por um Estado autoritário que justifica seu controle excessivo como a única maneira de manter uma perigosa doença sob controle e seu pai foi capturado ainda quando a protagonista era criança sob a acusação de estar infectado. Logicamente o governo está mentindo e os infectados são, na verdade, pessoas com poderes especiais. No esforço para descobrir o que aconteceu com o pai, Abigail se junta à Resistência (porque claro que há uma resistência) liderada por Bale (Gleb Bochkov) e Stella (Ravshana Kurkova)

O primeiro problema é a construção frouxa de todo o universo ficcional. A premissa sobre um estado que persegue os diferentes poderia gerar alguma discussão sobre autoritarismo ou preconceito, mas o texto nunca avança nesses temas nem tem nada a dizer sobre eles que já não tenhamos ouvido antes e melhor dito. A narrativa nunca define claramente o que são os “especiais”, se é magia, mutação ou qualquer coisa no meio disso. Também não consegue explicar como esses poderes funcionam além de nos dizer que os “especiais” precisam usar aparatos conhecidos como “mecanismos” para canalizar seus poderes. Existem três tipos de mecanismo, cada um com uma forma geométrica diferente e gerando um efeito diferente, mas como ou porque as coisas são assim nunca é dito e todo o funcionamento da magia soa como arbitrário.

A trama também não tem lá muita criatividade nos usos possíveis dessa magia, que é limitada a raios que podem ser disparados em inimigos ou feixes contínuos usados para mover objetos. Assim, falta impacto e encantamento com todo esse universo mágico, algo que também é prejudicado pela visual pouco inspirado dos cenários, uma cidade cinzenta arruinada genérica, nem nada que ajude a lhe tornar singular sob qualquer aspecto.

Muitas informações sobre a mitologia do mundo também são inconsequentes e sem impacto. Em uma cena, alguém fala sobre como as fadas viviam em conjunto com os humanos naquele universo, mas fugiram para seu próprio mundo. É de se imaginar que isso terá alguma repercussão na trama, que esse mundo das fadas será visto, visitado ou de alguma maneira impactará os eventos, mas não, a informação é completamente irrelevante.

Abigail não tem qualquer traço de personalidade discernível além de sua obsessão em encontrar o pai e com isso há muito pouco pelo que torcer ou se apegar a ela. É curioso que a trama simplesmente esquece da mãe dela durante longos trechos, sendo curioso que Garrett (Artyom Tkachenko), o governante local, não tente usar a mãe da protagonista como refém ou qualquer coisa do gênero, mas a personagem é irrelevante. Teria sido melhor dizer que Abigail não conheceu a mãe do que inserir uma figura materna que não parece ter qualquer impacto sobre a protagonista.

Se Abigail é unidimensional, os coadjuvantes se saem ainda pior, confinados a papeis excessivamente expositivos que os tornam mais dispositivos de roteiro do que sujeitos plenamente realizados. Eles explicam não só o funcionamento daquela sociedade, mas seus próprios sentimentos e relações, tudo é tido, mas praticamente nada é mostrado. Se não houvessem diálogos mencionando que Bale e Stella era um casal seria impossível deduzir isso pela performance dos atores ou as cenas construídas entre eles, já que nada dá a entender esse relação.

Além disso, os coadjuvantes mudam de personalidade e conduta por pura conveniência da trama. Apesar de se dizer apaixonada por Bale, Stella o entrega para o governo sem qualquer motivo convincente. A personagem diz que Bale estava se tornando um tirano, mas nada do que vimos sugere isso. Além disso, a conduta da personagem soa terrivelmente ingênua, afinal qual seria a alternativa para libertar a população oprimida de um governo autoritário além de uma revolução? Apesar da traição, Stella retorna ao clímax apenas para sacrificar a própria vida para salvar Bale, uma ação que, mais uma vez, carece de qualquer motivação, afinal da última vez que vimos Stella ela tinha acabado de entregar o amante para os inimigos.

A relação entre Bale e Abigail também muda de acordo com os caprichos da trama. No início Bale trata mal a protagonista o tempo todo e rejeita todas as ideias que ela tem, dizendo que ela coloca o pai antes da revolução. Ao final, entretanto, Bale apoia todas as decisões de Abigail e diz para ela confiar nos próprios instintos, uma mudança de atitude que não faz sentido considerando que Abigail continua movida primeiramente pelo desejo de saber o que aconteceu com o pai. Menos sentido ainda é o romance que acontece entre os dois personagens ao final, que nunca soa merecido. Falando em final, o clímax é esvaziado de qualquer senso de urgência ou perigo pelas constantes inserções de flashbacks de Abigail com o pai que fazem tudo ficar truncado, arrastado e moroso.

Vazio, inconsistente e entediante Abigail e a Cidade Perdida é a pior coisa feita por Rússia e Estados Unidos desde a Guerra Fria.

Nota: 1/10


Trailer

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