quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Crítica – Máquinas Mortais


Análise Crítica – Máquinas Mortais


Review Crítica – Máquinas MortaisQuando escrevi sobre o péssimo Mentes Sombrias (2018) falei sobre como o subgênero da “distopia adolescente” já estava desgastado e parecia não dar sinais de renovação. Eis que chega aos cinemas Máquinas Mortais, mais uma aventura jovem baseada em uma obra literária sobre um mundo distópico, dessa vez há o nome de Peter Jackson, responsável pelas trilogias O Senhor dos Anéis e O Hobbit, na produção e no roteiro, mas nem mesmo Jackson consegue resgatar esse filão das suas estruturas cansadas e repetitivas, fazendo de Máquinas Mortais mais uma distopia genérica.

A trama se passa em futuro no qual a humanidade foi quase que inteiramente dizimada e as poucas cidades que restaram vagam o mundo como fortalezas móveis em busca de recursos que estão cada vez mais escassos, destruindo umas as outras para se manterem funcionando. Em meio à tudo isso está Hester Shaw (Hera Hilmar), uma jovem misteriosa que invade a cidade móvel de Londres para assassinar o cientista Thaddeus Valentine (Hugo Weaving) para vingar a morte da mãe.

É impressionante como o texto escrito por Jackson, Fran Walsh e Philippa Boyens, o mesmo trio responsável pela colossal tarefa de adaptar os três O Senhor dos Anéis em forma de roteiro, consiga fazer a trama parecer tão truncada e arrastada. O roteiro joga longos diálogos expositivos atrás de longos diálogos expositivos sem permitir que criemos qualquer conexão com aqueles personagens porque o filme nos diz o tempo todo quem eles são e como eles estão se sentindo, mas nunca dá espaço para que vejamos eles demonstrarem seus sentimentos ou conexões.

Dessa forma, fica difícil se importar com o romance entre Hester e Tom (Robert Sheehan) porque ele acontece apenas porque o roteiro decidiu que tinha que acontecer, nunca dando uma motivação plausível para o romance nem nos mostrando nos personagens a existência desse afeto. O mesmo acontece com a complicada relação entre Hester e o ciborgue Shrike (Stephen Lang): o texto nos informa que ele é importante para garota e que os dois foram muito próximos, mas nunca percebemos ou sentimos essa proximidade. Não ajuda que a atriz Hera Hilmar pese a mão no estoicismo da personagem, fazendo Hester soar mais inexpressiva do que durona.

É curioso que Hugo Weaving, que nos últimos anos chegou a criticar em entrevistas os papéis de vilão que fez em blockbusters como o primeiro Transformers (2007) ou Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), tenha aceitado fazer um personagem tão vazio. Valentine é aquele tipo de vilão que é maligno sem motivo nenhum. Em um dado momento ele diz que é impossível que cidades móveis como a dele consigam conviver com a cidade estática de Shan Guo a leste do mundo, mas ele nunca dá uma razão para essa convivência pacífica ser impossível. Em outra cena, ainda no início do filme, ele joga Tom para fora da cidade simplesmente por ele ter falado com Hester, sendo que o garoto não tinha nenhuma informação que pudesse prejudicar os planos do vilão e não havia nenhuma motivação razoável para Valentine fazer aquilo exceto para mostrar ao público o quanto ele é mau.

O único personagem minimamente interessante é Shrike, cuja motivação para caçar Hester lhe dá alguma complexidade ao ter como finalidade algo que é, na mente dele ao menos, um ato de piedade com a garota. O ciborgue, no entanto, é completamente desperdiçado, não sendo nada além de um obstáculo para os protagonistas e cujas ações não tem repercussão alguma no desenvolvimento da trama. Sério pessoal, ele poderia ser removido por completo que ainda assim tudo no filme aconteceria do mesmo jeito.

Outros personagens desaparecem por completo durante o filme apesar da trama sugerir que eles seriam de alguma importância. Um exemplo é o mecânico Bevis Pod (Ronan Aftery), que ajuda Katherine Valentine (Leila George), filha de Thaddeus, a descobrir os planos malignos do pai e logo depois some sem deixar vestígio e nunca mais é citado. Outro exemplo é Herbert (Andrew Lees) que uma promoção ao vilão depois de informá-lo do local em que Tom escondia tecnologia militar antiga. Era de se imaginar que o personagem se tornaria uma figura importante, que estivesse ao lado de Valentine durante a batalha final, mas não, nós nunca mais o vemos depois dele vender as informações ao vilão.

As grandes cidades móveis impressionam pelo seu senso de escala e pelo design que torna crível que essas gigantescas máquinas possam existir e se deslocar do modo como fazem e a perseguição inicial é hábil em estabelecer o poderio delas. É uma pena, no entanto, que daí em diante a trama não consiga criar nada de interessante em termos de ação.

Em muitas cenas a ação é atrapalhada pela montagem frenética, com um excesso de cortes que faz tudo parecer excessivamente fragmentado, como na luta em um mercado de escravos ou quando Shrike ataca uma fortaleza voadora. Outro problema é que a violência do filme é muito “limpa” e sem muito sangue ou qualquer elemento mais explícito pouco sentimos que estamos no deserto brutal, sanguinário e implacável no qual as pessoas precisam recorrer até mesmo ao canibalismo, algo próximo a Mad Max: Estrada da Fúria (2015), que o texto tenta sugerir.

Muito das razões para a ação não funcionar também tem a ver com o desenvolvimento frouxo do universo da trama. Afinal, se existem cidades que prosperam sem serem máquinas móveis, porque essas grandes máquinas existem? Se é possível viver de modo fixo, porque as pessoas se apoiam nessas grandes máquinas que precisam de muitos recursos para se manterem móveis? Isso nunca é explicado na trama (os livros explicam, mas o filme precisa funcionar por si só e não depender da leitura do material original) e assim é difícil ficar imerso no universo proposto.

É igualmente difícil se importar com os riscos envolvendo a cidade de Shang Guo, já que nem a tínhamos visto até cinco minutos antes da batalha final começar e como passamos pouco tempo no lugar ou com seus habitantes, não há nenhum tipo de conexão que dê peso dramático ou afetivo para o embate final. Tudo poderia render uma discussão sobre o modo irresponsável com o qual a raça humana gasta os recursos naturais ou nossa obsessão pouco saudável por tecnologia bélica, mas as questões são tratadas de modo raso demais para render qualquer discussão.

Arrastado, desinteressante e vazio, Máquinas Mortais é mais um filme a mostrar que Hollywood devia dar um tempo das distopias adolescentes. É aquele tipo de filme que você sai do cinema se perguntando porque alguém achou uma boa ideia fazê-lo.


Nota: 4/10

Trailer

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