quarta-feira, 20 de julho de 2022

Crítica – Medida Provisória

 

Análise Crítica – Medida Provisória

Review – Medida Provisória
É muito significativo dos tempos em que estamos vivendo que o texto da peça Namíbia, Não!, escrita por Aldri Anunciação seja hoje talvez mais atual do que na época em que foi escrito. A peça é adaptada neste Medida Provisória por Lázaro Ramos, em sua estreia como diretor, sendo que Lázaro também atuou na peça de teatro.

A trama se passa em um futuro próximo no qual o governo decide deportar de volta para a África todos os cidadãos afrodescendentes. A medida é tratada como uma espécie de reparação histórica para a diáspora da escravidão, mas na verdade é uma ação higienista que visa se livrar de toda a população negra do Brasil. Em meio a isso, o advogado Antônio (Alfred Enoch) e o primo André (Seu Jorge) se refugiam no apartamento de Antônio já que as autoridades não podem invadir um domicílio em mandado. Capitu (Taís Araújo), esposa de Antônio, foge do hospital no qual trabalha depois de ser quase capturada e se refugia em um esconderijo com outras pessoas negras que tentam evitar captura.

A situação opera como uma metáfora para o modo que a população negra foi tratada de maneira truculenta pelo Estado brasileiro ao longo dos séculos, sempre tratando os negros como cidadãos de segunda classe, indesejados, criminalizados e um estorvo para a nação. Sintetizando os séculos de maus tratos e políticas racistas, o filme evoca desde as imagens de brutalidade policial contemporânea, como na cena em que André é levado pelos policiais, aos escravos fugidos de outrora, a exemplo do momento em que Capitu foge pela mata e a própria ideia do “afrobunker” que Capitu lembra ser um análogo aos quilombos.

A trama lembra como essas políticas excludentes não existem sem a anuência e colaboração dos cidadãos, algo exemplificado pela personagem de Renata Sorrah, cujas falas preconceituosas inicialmente evocam aquele racismo casual que vemos cotidianamente e tendemos a considerar “menos grave” que formas mais violentas ou explícitas de racismo. Porém, conforme a trama progride e ela trabalha ativamente para entregar os protagonistas ao governo, vemos como esse tipo de pessoa pode ser perigosa se dada a oportunidade.

Por outro lado, o filme nunca consegue dar uma dimensão plena do terror de ser capturado, expulso do próprio pais e ser levado a um lugar desconhecido. Na vontade de abarcar muitas questões que envolvem a vivência da população negra no Brasil ou ideias de identidade e pertencimento, a trama acaba passando muito rápido por certos tópicos ou resolvendo tudo muito fácil. Um exemplo é o “julgamento” de Santiago (Pablo Sanábio, o Charles de Sob Pressão). De início a fala de Capitu demonstra entender a complexidade de como o movimento negro lida com brancos que querem ser aliados da causa, mas logo a fala se entrega a platitudes simples que diluem as nuances desse debate e resolve com muita facilidade algo que é bastante complicado. Inclusive, a montagem que alterna entre o destino final de Santiago e o de André tenta traçar uma simetria que não sei até que ponto é aplicável.

Do mesmo modo, o discurso de Antônio sobre ser brasileiro e não querer ser qualquer outra coisa parece tocar em outro tema que seria central a esse debate sobre negritude no Brasil, inclusive na necessidade de retomar ideais de nação e patriotismo que foram sequestrados do debate público por forças reacionárias. No entanto a fala de Antônio também é marcada por lugares comuns e faz pouco para avançar a conversa sobre essas questões. O texto, por vezes, peca por diálogos com excesso de didatismo, nos quais mais parece que os personagens estão dizendo aquilo para o público do que conversando entre si, transmitindo de maneira mastigada e pouco orgânica as mensagens da narrativa.

Algumas situações também exibem o mesmo problema, funcionando como metáforas pouco sutis, a exemplo da cena em que Berto (Emicida) substitui a arma de um personagem por um livro, martelando de maneira excessivamente óbvia a noção de que é a educação e não o embate físico que vai resolver a questão. Eu entendo que tudo isso vem de boas intenções e de querer tornar o filme, a narrativa e suas ideias acessíveis para um público mais abrangente possível, porém ser acessível não implica martelar sem sutileza os conceitos da obra.

Medida Provisória usa a distopia para retratar o modo como o Brasil tratou a população negra ao longo do tempo e mesmo que não consiga discutir com consistência tudo que ambiciona, traz à baila ideias importantes de serem difundidas.

 

Nota: 6/10


Trailer

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