quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Crítica – Fanático

 

Review – Fanático

Análise Crítica – Fanático
Dirigido por Fred Durst (vocalista e líder da banda Limp Bizkit) e escrito a partir de um argumento do próprio Durst, este Fanático tenta falar sobre Hollywood como um espaço que destroça as pessoas, sobre fãs, desilusões e sonhos partidos, mas parece não saber como falar disso ou o que especificamente quer tratar dentro desses temas. O resultado é uma trama extremamente rasa, mal estruturada, que sofre tanto pelas más escolhas de roteiro e excessos do ator John Travolta como o protagonista.

A narrativa é centrada em Moose (John Travolta), um homem com problemas mentais que trabalha como artista de rua em Los Angeles e caça autógrafos de celebridades. Ele é fã principalmente do astro Hunter Dunbar (Devon Sawa) e sonha em conhecê-lo. Quando isso finalmente acontece, Dunbar trata mal Moose, que fica obcecado em fazer Dunbar gostar dele.

O primeiro problema que salta aos olhos é que nunca fica claro em quem devemos depositar nossa simpatia. Apesar do filme tentar pintar Moose como alguém no espectro do autismo, sem noção de certas convenções sociais, também deixa evidente que ele é extremamente agressivo quando contrariado e desde o início percebemos ele como um sujeito perigosamente instável. Já Hunter é tão desnecessariamente babaca com quase todos ao redor dele que é difícil se importar com o que Moose possa fazer com o astro.

O filme até tenta humanizar Hunter pela relação do ator com o filho, mas é muito pouco para fazer o personagem angariar alguma simpatia.  Se, talvez, Hunter tivesse sido gentil com Moose e isso fosse o gatilho pra Moose forçar uma aproximação as coisas poderiam funcionar. Na verdade, ao longo do filme os personagens são bem estagnados, não exibindo qualquer aprendizado ou transformação conforme a trama se desenrola.

O texto exibe muitas decisões questionáveis envolvendo a construção de Moose como personagem. Uma delas é o fato dele trabalhar em Hollywood Boulevard fantasiado de policial britânico para tirar fotos com turistas. Para quem não conhece Los Angeles, nessa rua muitos artistas de rua se fantasiam de personagens ou personalidades do cinema como Marilyn Monroe, Charlie Chaplin ou Homem-Aranha e interagem com os turistas em troca de gorjetas. Não faz sentido que Moose se fantasie de policial inglês, já que isso não se refere a nenhum personagem hollywoodiano. Imagino que o filme usou isso para mostrar que Moose não entende como as coisas funcionam, que é alienado e deslocado.

Isso, no entanto, entra em contradição com várias condutas e diálogos do próprio Moose, que recrimina outros artistas de rua por práticas desonestas ou ações que nada tem a ver com o ideal de Hollywood. Mais de uma vez o personagem diz adorar e respeitar Hollywood e a partir disso fica evidente que ele tem sim uma ideia muito clara do que Hollywood é ou deveria ser, não justificando que a fantasia dele seja uma decisão fruto de seu deslocamento daquela realidade.

Outra questão estranha é a amizade dele com a fotógrafa Leah (Ana Golja). Leah parece ser muito mais jovem do que realmente é, tendo a aparência de uma menor de idade, não convencendo como uma paparazzi calejada (isso é um problema de quem fez a escalação do elenco, não da atriz, diga-se de passagem). A amizade entre ela e Moose nunca soa orgânica ou dotada de uma motivação específica. Faria sentido se ela fosse uma sobrinha ou filha que está de olho nele para mantê-lo longe de problemas ou se ela fosse também uma fã esquisita como ele ainda que com mais noção de limite. Do jeito que está, no entanto, não há qualquer motivo específico para que essa fotógrafa da indústria do entretenimento que trabalha até em festas de estúdio tenha amizade com alguém como Moose.

Em alguns momentos a fotógrafa menciona a ingenuidade de Moose, mas nas cenas com Leah o protagonista age de maneira tão instável e agressiva (em parte pelos excessos da atuação de Travolta) que é difícil crer que ela se manteria perto dele, mesmo que por pena. É estranha a decisão de colocar narrações em off de Leah em vários momentos. Não só por ela ser uma personagem com pouca presença, como pelas narrações não terem muito a dizer além de explicar o que as imagens já mostram.

Assim como em alguns de seus outros filmes recentes, como igualmente desastroso Gotti: O Chefe da Máfia (2018), Travolta demonstra estar dando tudo de si e acreditando no personagem, mas muitas vezes pesa tanto a mão na composição de Moose que soa caricato e tudo descamba para o humor involuntário. Parte da culpa também está no roteiro, que enche o personagem de diálogos constrangedores ou o coloca em situações em que ele é meramente exposto como um ser aberrante ao invés de alguém digno de pena ou simpatia.

A direção em muitos momentos parece soltar as rédeas de Travolta, deixando-o livre para improvisar falas e ações em longas tomadas com poucos cortes que não tem nada a dizer sobre Moose além de mostrar o quanto ele é uma figura bizarra e caricatural. Esses momentos de improviso deveriam servir para mostrar Moose como sujeito limitado, mas adorável, no entanto os excessos de Travolta fazem o personagem variar entre o ridículo e o assustador. Já que mencionei os diálogos constrangedores do filme, não posso deixar de apontar a acidentalmente hilária cena de Hunter no carro com o filho e menciona como Limp Bizkit (a banda do diretor) fazia uma música incrível. Uma cena que parece não ter qualquer propósito de existir além de massagear o ego de Fred Durst.

Há uma tentativa de entender o passado do protagonista em um flashback de Moose criança assistindo filmes de terror na tv enquanto é negligenciado pela mãe. Na cena ele não parece ter qualquer problema mental, sendo apenas um garoto solitário que busca refúgio nos filmes. A questão é que isso não se conecta de maneira nenhuma com o que sabemos do presente do personagem e como é o único vislumbre do passado dele, mais confunde do que explica as razões dele ser assim.

Todos esses problemas descambam em um desfecho desastroso no qual o filme se torna um plágio ruim de Louca Obsessão (1990), com Moose invadindo a casa de Hunter e amarrando-o numa cama. O final propriamente não tem sentido algum, mas para explicar os problemas do desfecho (SPOILERS a seguir) eu preciso mencionar alguns eventos que vieram antes. Em uma das tentativas de invadir a casa de Hunter, Moose mata a empregada do astro hollywoodiano e foge do local deixando o cadáver da mulher no jardim da casa. Um fato que a narrativa não volta a mencionar por cerca de 50 minutos até uma das últimas cenas.

No final do filme, que se passa uns dois dias depois do assassinato da empregada, Hunter se solta da cama e luta com Moose, arrancando os dedos de uma mão e furando o olho do seu fã obsessivo. Moose foge e a campainha da porta de Hunter toca. É a polícia acompanhada do jardineiro de Hunter, que notificou as autoridades do cadáver putrefato da empregada deixado ao relento. Hunter é então preso pela polícia e o vemos ser conduzido silenciosamente até a viatura.

Nada disso faz sentido. Primeiro: como dias se passaram sem Hunter ver um cadáver em seu jardim? O corpo não estava oculto em um canto nem nada parecido, foi largado em uma área aberta visível de dentro da casa. Para a reviravolta funcionar, Moose precisaria ter escondido o cadáver em alguns arbustos para que então fosse encontrado pelo jardineiro. Segundo: como Hunter se mantem tão sereno ao ser preso pela polícia se ele sabe ser inocente e sabe quem provavelmente matou a empregada? Para a cena ter um mínimo de nexo, Hunter deveria estar esperneando e gritando ao ser levado pela polícia. Terceiro: como a polícia prende Hunter sem ouvi-lo? Afinal, ele é uma celebridade com recursos financeiros e uma prisão errada poderia dar problemas, bastava uma olhada na casa ou nos ferimentos de Hunter para dar alguma credibilidade à versão dele.

Mesmo que a polícia não acreditasse, eventualmente veriam que o sangue na casa não pertence à empregada e sim a outra pessoa, sem falar que Moose postou fotos em rede social dele dentro da casa de Dunbar, o que também provaria a versão de Hunter. Ou seja, diante de tudo que a trama nos dá, é muito difícil crer que Hunter de fato terminaria preso pela morte da empregada e, desta maneira, todo o enquadramento trágico que o filme tenta dar à cena da prisão não tem efeito algum.

Eu entendo, no papel, as intenções por trás desse final. Imagino que a ideia era mostrar Hunter sendo punido por sua soberba e por maltratar seus fãs, mostrando que sem os fãs artistas não sobrevivem. A prisão de Hunter seria uma espécie de ironia trágica. O problema (além dos já apontados furos de lógica e de roteiro) é que dadas as atitudes de Moose, o texto acaba, de certa forma, dando razão a Hunter no modo como ele tratou Moose. O protagonista era de fato um sujeito instável e perigoso e Hunter não estava completamente errado em ameaçar Moose cada vez que o via no portão de sua casa.

Do mesmo modo, imagino que o final de Moose deveria conter algum tipo de ironia trágica, com os ferimentos dele aparentemente permitindo que ele prosperasse como artista de rua se fantasiando de pirata. De novo, é uma escolha estranha de enquadramento narrativo, já que o filme parece tratar Moose como um coitado inofensivo quando ele está longe disso. A perspectiva dele estar solto deveria ser assustadora já que qualquer outra celebridade poderia ser vítima dele agora. Além disso, pelo que já expliquei, é pouco crível que a polícia não prenda por conta do que fez na casa de Hunter.

Com uma trama que parece não saber exatamente o que quer dizer sobre os temas que trata, inconsistente e até contraditória nos arcos narrativos que desenvolve e uma interpretação exagerada de John Travolta que beira o autoparódico praticamente nada (exceto a fotografia) funciona neste Fanático.

 

Nota: 2/10


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