quinta-feira, 7 de março de 2019

Crítica – Mandy: Sede de Vingança


Análise Crítica – Mandy: Sede de Vingança


Review – Mandy: Sede de Vingança
Dirigido por Panos Cosmatos, este Mandy: Sede de Vingança é daqueles filmes cuja força não vem da história que conta, mas de como ele conta sua história. Em termos de trama é uma narrativa de vingança bem típica, mas em termos de ritmo ou visual é algo singular demais para ser ignorado.

A narrativa é centrada no casal Red (Nicolas Cage) e Mandy (Andrea Riseborough). Os dois vivem de modo pacato em uma cabana na floresta à beira de um lago, mas o cotidiano do casal é brutalmente interrompido com a chegada do culto liderado por Jeremiah (Linus Roache), que sequestra Mandy por pensar que ela terá um papel importante a desempenhar em seu culto. Assim, Red embarca em uma insana jornada de vingança.

Era de se imaginar que um filme com essa premissa fosse enfiar o pé no acelerador desde o início, mas Cosmatos parece entender que a catarse da violência precisa de investimento emocional para acontecer. Assim, a primeira metade do filme caminha lentamente para nos mostrar o cotidiano idílico daquele casal, a vida na natureza sem preocupações ou problemas e o afeto que há entre eles. E o diretor consegue fazer isso com poucos diálogos, se fiando apenas na força de suas imagens, constantemente tratadas com filtros de cor que fazem o azul do lago e o verde da floresta parecerem ainda mais intensos, e no desempenho dos atores, que convocam esse senso de afeto apenas pela maneira como olham um para o outro.

Uma vez instaurado o conflito, o tom muda dramaticamente e o que era um olhar idílico sobre a vida de um casal se torna uma jornada delirante rumo à loucura conforme Red leva à cabo sua vingança. Tons de vermelho e roxo dominam a fotografia fazendo tudo parecer um pesadelo demoníaco ou filmado diretamente nos buracos mais profundos do inferno enquanto o operador de câmera estava sob efeito de ácido. Essas paisagens infernais delirantes dão um tom expressionista ao filme e esse tom também se traduz nas interpretações, em especial a de Nicolas Cage.

Eu já falei aqui várias vezes (como no meu texto sobre O Sacrifício) sobre a tendência que Cage tem em exagerar e sair devorando o cenário enlouquecidamente em suas escolhas de atuação. Em geral isso resulta em uma interpretação fora do tom do filme que acaba por quebrar a imersão, mas aqui a performance surtada de Cage casa perfeitamente com a história que Cosmatos tenta contar e com a mistura intensa de dor, raiva, desespero, loucura e delírios entorpecidos experimentados pelo protagonista. Os delírios, por sinal, são mostrados em sequências animadas que parecem saídos diretamente da revista francesa Metal Hurlant.

Na verdade, muito da segunda parte soa como algo que poderia estar na capa de um disco de heavy metal, como o insano machado forjado por Red com as criaturas sinistras em motocicletas que acompanham o culto de Jeremiah. O filme não economiza na violência em suas cenas de ação e matança e cria situações de puro exagero grotesco como um duelo de motosserras, mas nunca soa como um mero exploitation justamente por ter se dado ao trabalho de dar contexto a toda essa violência.

O conflito com Jeremiah tenta falar sobre o pavor existencial da humanidade. O vilão é alguém desesperado por encontrar um grande propósito para a própria vida, querendo provar a todos, incluindo a si mesmo, que é alguém importante, um enviado divino com uma missão gloriosa a cumprir. Enquanto isso, Red e Mandy vivem a tranquilidade de uma vida em contato com a natureza, ciente do quanto ela pode ser simultaneamente bela e terrível. Essa visão sobre a natureza dual da existência, da beleza e da violência, é imitada pela própria estrutura da narrativa. É como se Cosmatos quisesse nos lembrar para aceitar o mistério da vida com tudo de positivo ou negativo que há nela ao invés de embarcarmos em uma busca por propósito que nunca nos dará respostas plenas ou caminhos delimitados para nossa existência.

Imagino que Mandy será daqueles filmes que dividirá opiniões e colocará os espectadores em polos extremos em relação a como se sentem diante do filme. É uma experiência pouco convencional sobre a dualidade da existência, ancorada por um senso estético singular e a entrega insana de Nicolas Cage no papel principal.


Nota: 9/10

Trailer

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