segunda-feira, 23 de julho de 2018

Lixo Extraordinário – Birdemic: Shock and Terror


Análise - Birdemic: Shock and Terror


Resenha - Birdemic: Shock and Terror
Eu já falei de muitos filmes ruins, mas é bem possível que nenhum até agora consiga ser tão técnica e artisticamente mal concebido quanto o pavoroso Birdemic: Shock and Terror. Se você sempre quis saber como seria Os Pássaros (1963) se Alfred Hitchcock fosse totalmente incompetente, esse filme oferece uma resposta para essa pergunta.

A trama é centrada em Rod (Alan Bagh), um jovem vendedor de software que acabou de fechar um grande contrato e está prestes a abrir sua própria empresa. Ele conhece a jovem modelo Nathalie (Whitney Moore) e ambos se apaixonam, mas o romance dos dois é interrompido quando os pássaros começam a atacar os seres humanos.

A primeira coisa que chama a atenção é a total falta de ritmo da montagem e quase ausência de decupagem das cenas. A maioria dos planos se alonga mais do que deveria sobre os rostos dos personagens e fachadas de prédios, com o filme demorando alguns segundos para cortar mesmo depois das conversas entre os personagens já terem terminado. O melhor exemplo de como o filme não tem a menor noção de decupagem ou como usar a montagem para conferir ritmo e dar andamento à trama deve ser a sequência que vemos Rod ir trabalhar. Normalmente um filme nos mostra um personagem saindo de casa e já corta para uma imagem dele chegando em seu local de trabalho, afinal, se nada relevante para a trama ou desenvolvimento do personagem acontece no trajeto, não há razão para gastar tempo e dinheiro filmando cenas que não irão servir para nada.

Birdemic, no entanto, não opera sob esta lógica e nos mostra Rod saindo de casa, Rod entrando no carro, Rod manobrando o carro para fora da garagem, Rod dirigindo até um posto de gasolina, abastecendo o carro, depois vários planos do seu carro no trânsito, seguido de um plano com seu carro parando no estacionamento do local de trabalho para, finalmente, mostrar Rod entrando no prédio em que trabalha, ufa. Tudo isso deve durar uns cinco minutos ou mais, sem qualquer diálogo, sem qualquer função de estabelecer o personagem ou a trama e coisas assim se repetem ao longo do filme inteiro, fazendo-o ter mais tempos mortos que um filme iraniano, com a diferença de que esse tipo de ocorrência é proposital no cinema iraniano e aqui parece ser pura incompetência.

A impressão que fica é que se eu fosse cortar todo o excesso, planos inúteis ou planos que se estendem demais, Birdemic teria apenas uns quarenta minutos de duração. O resultado é uma narrativa que nunca vai a lugar nenhum, que demora a engrenar, já que o ataque só acontece com quase uma hora de filme, cujo efeito é deixar o espectador completamente entediado.

O departamento sonoro não se sai muito melhor. Boa parte das cenas externas ou em locação é cheia de ruído ininteligível, provavelmente porque ninguém se preocupou em verificar se os microfones estavam captando os ruídos do ambiente, mas nem é isso o que torna o trabalho sonoro de Birdemic ruim. O mais bizarro é que o filme parece ciente da presença desses ruídos indesejados, fazendo-os desaparecer quando os personagens falam. Isso provavelmente aconteceu porque perceberam que ficava difícil compreender os diálogos por conta do restante dos barulhos e pediram para os atores redublarem suas falas durante a pós-produção, colocando os diálogos “limpos”, mas mantendo o resto da chiadeira incômoda pelo restante da cena, o que não faz o menor sentido.

Se eles tinham a possibilidade de refazer o som todo em pós produção, não havia motivo de manter o som ruim da captação original, podiam descartá-lo e substituir por uma música de fundo ou refazer alguns efeitos sonoros também em pós-produção para inseri-los na mixagem final. Na verdade, em alguns momentos é possível perceber que alguns sons, como o de passos, foram inseridos a posteriori, mas eles não parecem combinar com as ações dos personagens. Um exemplo é a cena de Rod caminhando por uma calçada no início do filme e o som dos passos dele mais parece que ele está caminhando sobre britas ou um terreno menos firme ao invés da sólida calçada de concreto sobre a qual as imagens o mostram.

E o que dizer dos pássaros digitais extremamente toscos que atacam os personagens? Criados por uma computação gráfica artificial que os faz parecerem saídos de algum jogo do primeiro Playstation, as aves geram mais risos do que medo toda vez que aparecem em cena. O visual ruim é piorado pelo fato de que na maioria das vezes as aves ficam simplesmente paradas no ar ao redor dos personagens, balançando lentamente suas asas (acho que ninguém que trabalhou no filme sabe como pássaros funcionam), assim, nunca temos a sensação de que as aves estão de fato atacando os personagens conforme eles balançam os braços a esmo, como se fossem bonecos infláveis de posto de gasolina, para afastá-las.

Além disso, ocasionalmente os pássaros exibem habilidades fora do normal que nunca são efetivamente citadas ou reconhecidas pelo roteiro. Na primeira vez que os animais atacam a cidade, eles voam na direção das casas explodindo assim que as tocam, como se estivessem cheios de explosivos. Em outro momento, um grupo de aves cospe o que parece ser ácido em um grupo de humanos, matando-os instantaneamente, mas isso nunca mais é citado, nem o filme se dá o trabalho de explicar como as aves explodem coisas ao se chocarem com elas.

Tudo isso até poderia render uma porcaria divertida ao estilo The Room (se bem que o filme do Tommy Wiseau parece uma obra-prima perto da quantidade de defeitos técnicos de Birdemic) se o texto e os atores não fossem tão vazios. Se em The Room (2003) o exagero e a canastrice dos atores tornava tudo engraçado, aqui os atores são tão mecânicos que nem riso eles conseguem produzir.

Boa parte dos diálogos gira em torno das mesmas coisas, com os personagens falando sobre suas aspirações profissionais ou Rod falando sobre o quanto gosta de Nathalie e essas conversas nunca vão a lugar algum e não desenvolvem nenhuma narrativa ou personagem. Os atores mais parecem um bando de robôs tentando se passar por humanos, do que indivíduos reais dotados de motivação e sentimento. Na cena em que Rod comemora o fato de ter se tornado milionário mais parece que ele está celebrando o fato de ter vencido no par ou ímpar, tamanha a sua falta de entusiasmo.

Quando o ataque dos pássaros começa na última meia hora, a trama adota uma estrutura de road movie, com Rod e Nathalie tentando se afastar do “apocalipse aviário”. Em suas viagens o casal fortuitamente se encontra com cientistas e ambientalistas que dão longas explicações sobre o ataque dos pássaros está relacionado com o aquecimento global. São diálogos excessivamente expositivos, que martelam de modo artificial a mensagem que o filme tenta passar sobre preservação ambiental. O pior é quando as falas tentam associar elementos reais do aquecimento global com os eventos do filme, o que não funciona porque, primeiramente, as explicações para “apocalipse” do filme são absurdas e em segundo porque os atores que a proferem se comportam como instrutores de videoaula que tomaram uma alta dose de calmantes, já que em nenhum momento eles parecem alarmados ou afetados pelas inúmeras mortes que estão acontecendo ao redor deles.

Eu também não poderia deixar de mencionar as inúmeras menções que o filme faz à ONG Imagine Peace, colocando cartazes ou pessoas vestindo camisas contendo o nome e endereço virtual da instituição em várias cenas (eles financiaram o filme? O diretor Justin Nguyen é um fã da entidade?) como se a menção à ONG imediatamente amarrasse e se conectasse aos temas de preservação ambiental que o filme tenta (incompetentemente) desenvolver.

Birdemic: Shock and Terror é um dos filmes mais incompetentes, principalmente em termos de montagem e som, que tive o desprazer de assistir em toda minha vida. Com uma produção tosca, ausência de ritmo, de trama e atuações inanes, o filme nem serve para nos fazer rir de sua ruindade. É tão mal realizado e cheio de problemas técnicos que fazem os outros filmes explorados poresta coluna parecerem ótimos por comparação. Birdemic chegou a ganhar uma continuação em 2013, mas considerando o quanto esse daqui é ruim acho que nem vou me arriscar. A vida é curta demais.


Trailer

Nenhum comentário: