segunda-feira, 12 de março de 2018

Crítica - Em Pedaços


Análise Em Pedaços


Review Em Pedaços
Assistir a este Em Pedaços não é uma experiência fácil. O diretor alemão de origem turca Fatih Akin tece uma trama permeada por dor, solidão, desamparo e injustiça na qual não há nenhuma medida de conforto a ser encontrada. A trama acompanha Katja (Diane Kruger), uma mulher alemã casada com um homem turco que perde o marido e o filho em um atentado terrorista.

O filme tenta construir um discurso sobre a ascensão de forças ultraconservadoras e fascistas na Europa, analisando como as estruturas de poder da Alemanha tratam imigrantes como criminosos mesmo quando eles são as vítimas do crime. A narrativa, porém, não avança muito nesse tema, preferindo meramente apontar a existência dessas estruturas opressivas que dão margem à ampliação do discurso de ódio. Deixando de lado o exame sobre o racismo no país, o diretor prefere focar no luto e sofrimento da protagonista diante de sua perda súbita.

Diane Kruger é mais que hábil em nos convencer do desamparo de Katja, uma dor tão intensa e tão profunda que ela parece simplesmente anestesiada, como se todo aquele sentimento fosse demais para que ela conseguisse processar. A câmera de Akin raramente desvia seu olhar de Kruger e não poupa seu espectador de presenciar o sofrimento insuportável da protagonista. Por mais que seja eficiente, em especial pela verdade da atuação de Kruger, por vezes me peguei pensando se o filme não estava passando dos limites de uma estética realista crua e entrando no domínio do puro exploitation. Digo isso porque mesmo quando já ficou evidente a dimensão do sofrimento da personagem, o filme insiste em colocar o dedo na ferida de tal forma e com tanto detalhamento gráfico que não tenho certeza se elas estão ali para reforçar algum argumento ou apenas para chocar.

Em um determinado ponto, o filme se torna um tenso suspense de tribunal conforme Katja acompanha o julgamento dos suspeitos e o filme exibe as estratégias de ambos os lados, inclusive o modo como a defesa simplesmente tenta atacar a credibilidade de Katja e sua família, praticamente culpando a vítima. Mesmo em meio à tensão alguns problemas emergem, em especial o modo como o álibi falso dos suspeitos é facilmente aceito. Eu entendo que o argumento do filme é de que o sistema é estruturado para prejudicar os imigrantes, mas é difícil de acreditar que a acusação tenha se contentado com o mero livro de protocolo de um hotel, em especial depois de estabelecer que o dono do hotel é um simpatizante neonazista, sem pedir um exame nos passaportes dos personagens.

O terço final mantém a tensão em alta conforme Katja decide se irá buscar vingança ou não. A trama parece arrastar o clímax mais do que deveria, mas ainda assim ele funciona por transmitir a desolação de que o ciclo de violência está longe de acabar e mesmo o revanchismo não é capaz de fornecer um alento ou catarse diante de tanta destruição.

Em Pedaços acaba se sustentando mais pelo trabalho intenso de Diane Kruger do que pelo texto e direção de Fatih Akin. O diretor muitas vezes pesa a mão no sofrimento da protagonista e se contenta em tratar a questão da ascensão do fascismo de maneira superficial.

Nota: 6/10


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