terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Crítica - O Insulto


Análise  O Insulto


Review  O Insulto
Em um tempo de tensões políticas elevadas fica fácil se entrincheirar em nossas certezas e considerar que aqueles que pensam diferente são monstros que estão completamente errados que precisam ser eliminados. O problema dessa conduta é que isso não resolve nada, apenas escala os conflitos e agrava a situação. A ideia de que essa falta de esforço em tentar alcançar o outro cria boa parte dos problemas de hoje é o centro deste O Insulto.

A narrativa se passa no Líbano começa com um incidente aparentemente banal. O mestre de obras Yasser (Kamel El Basha), que é um imigrante palestino, está fazendo reparos na rua. Quando ele tenta consertar a calha irregular do apartamento de Toni (Adel Karam), Toni quebra o novo cano e derruba água suja sobre Yasser. Irritado com a atitude aparentemente sem sentido Yasser xinga Toni, deixando-o revoltado. Toni decidir ir ao chefe de Yasser para que ele obrigue o palestino a se desculpar. A partir disso as coisas escalam ao ponto de ficar fora de controle, revelando profundas cicatrizes e tensões entre os libaneses cristãos e os palestinos.

A história de Yasser e Toni serve de metáfora para o próprio ambiente político do Líbano (e de certa forma do mundo) com a presença de políticos ultra conservadores se apoiando cada vez mais em um discurso de ódio contra imigrantes e minorias. Apesar de lidar com muitos elementos da história política e cultural do Líbano, o filme nunca perde o foco na jornada dos dois personagens e trata com maturidade e cuidado as questões morais complicadas que emergem conforme começamos a saber mais sobre o passado de cada um deles.

Se Toni parece inicialmente um preconceituoso desprezível, quando conhecemos seu passado compreendemos melhor os fatores que o tornaram assim (embora isso não torne sua atitude correta). Igualmente quando conhecemos o passado de Yasser descobrimos que ele não é a vítima inocente e ingênua que se pensava e embora seu comportamento tenha relação com décadas de opressão sistêmica isso não necessariamente torna justificável seus atos de agressão. Dessa forma, o filme lembra que nem sempre certo e errado, vítima e algoz, bom ou mau não são conceitos tão simples de definir, principalmente em um contexto social e político tão delicado quanto o daquela região.

Conforme as coisas evoluem para algo maior e saem do controle de Toni e Yasser cada um também passa a exibir uma certa medida de preocupação com o outro, já que eles percebem estar se tornando joguetes nas mãos de forças políticas maiores e a exposição torna eles e suas respectivas famílias em alvos de extremistas de várias orientações políticas diferentes. Isso ajuda dar mais complexidade a eles e evita que eles se tornem caricaturas unidimensionais definidas apenas por sua nacionalidade.

Apesar do cuidado do texto em lidar com uma situação tão delicada, ocasionalmente derrapa em alguns momentos, principalmente em relação aos personagens secundários. A informação de que os advogados de Toni e Yasser é tratada como uma grande reviravolta, mas não tem impacto algum na narrativa e não faz nenhuma diferença. A maneira como esse dado é apresentado é bem esquisita, por sinal, já que não fazia sentido algum que a juíza apontasse o parentesco naquela situação.

Há também o problema de que alguns personagens mudam de atitude e personalidade do nada, sem que isso seja devidamente construído. Um exemplo é o modo como o advogado de Toni fala em suas declarações de encerramento do processo. Durante todo o filme ele se comportou como uma caricatura de reacionário, com um discurso de ódio inflamatório que o tempo todo tenta justificar que não há problema em oprimir minorias. Ainda assim, a declaração dele ao fim do processo é estranhamente conciliadora, como se o personagem tivesse passado por uma mudança que nunca é mostrada pelo filme e contradiz o que foi estabelecido sobre ele até então.

A reação do público que assiste ao julgamento e o resto da população também é estranha e artificialmente conciliadora. Era compreensível que o veredito fosse agradar tanto Toni quanto Yasser, já que eles tinham se acertado um com o outro, mas o mesmo não pode ser dito da população que assistia ao julgamento. Durante todo o filme a plateia do tribunal se manifesta de forma bastante agressiva de ambos os lados e imagens das ruas mostram um conflito e tensão social igualmente efervescente, no entanto, ninguém parece se importar muito com o veredito e é estranho que extremistas de ambos os lados não se exaltassem com a resolução dos juízes. Assim, a narrativa parece querer dar uma solução muito fácil a um problema bastante complicado, o que tira a força do cuidadoso discurso construído até então.

Ainda assim O Insulto não deixa de ser um filme necessário para o atual contexto, lembrando a importância da alteridade e de tentar dialogar ao invés de se fechar em certezas.

Nota: 7/10


Trailer

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