quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Crítica - A Grande Jogada


Análise - A Grande Jogada


Review A Grande Jogada
O roteirista Aaron Sorkin construiu uma reputação para si com seus textos que privilegiam os diálogos rápidos e constroem intensos embates verbais entre seus personagens tal como em A Rede Social (2010) e Steve Jobs (2015). Seu estilo de escrita é tão singular que muitas vezes se impõem sobre o estilo dos cineastas que dirigem os filmes feitos a partir dos seus roteiros (como o caso de Steve Jobs), então quando ele anunciou que faria sua estreia como diretor neste A Grande Jogada, havia grande expectativa para conferir o que alguém com uma visão tão particular seria capaz de fazer no comando de uma produção.

A trama é baseada na história real de Molly Bloom (Jessica Chastain), uma ex-esquiadora e estudante de direito que passa a trabalhar organizando partidas de pôquer para celebridades e empresários ricos. Com o tempo, Molly acaba se envolvendo com drogas e chama a atenção de membros da máfia, complicando as coisas para o seu trabalho.

A narrativa alterna constantemente entre o passado e o presente, com a narração rápida de Molly unindo os dois tempos. A velocidade das falas e das mudanças de temporalidade poderiam se tornar algo confuso, mas Sorkin conduz tudo com bastante fluidez, conseguindo tornar compreensível o rápido processo mental de Molly, bem como os termos e situações específicas do pôquer competitivo de modo natural e sem soar forçadamente expositivo.

O filme, no entanto, pertence a Jessica Chastain e como ela faz de Molly alguém que não aceita a derrota, se recusa a ser subjugada por homens, possui um raciocínio afiado e tem um senso de honra bastante particular. De certa maneira não é muito diferente da lobista durona que ela viveu em Armas na Mesa (2017), mas Molly é menos fria e tem uma certa compaixão por seus jogadores, apesar de obviamente estar explorando seus vícios.

Além de Chastain, o ator Michael Cera se destaca ao interpretar um personagem que vai na contramão da sua típica persona em cena. Ele vive um implacável jogador de pôquer que não só aprecia a adrenalina do jogo, como também sente prazer em destruir e humilhar seus oponentes da maneira mais cruel possível. O contraste entre a aparência frágil de Cera e sua convincente conduta implacável contribuem para criar um antagonista memorável.

O filme no entanto, perde força quando se afasta do ágil e tenso submundo do pôquer, no qual fortunas podem mudar de mãos a qualquer momento e ficar devendo às pessoas erradas pode custar ainda mais caro, para se deter no processo criminal contra Molly. A partir daí tudo se torna um drama de tribunal relativamente padrão e sem a mesma tensão ou urgência das cenas do pôquer.

Molly tem uma boa cena com seu rígido pai (Kevin Costner), que a ajuda a perceber as razões de sua conduta, mas no geral o segmento dela lidando com o julgamento não tem a mesma sagacidade ou inspiração do restante do filme. A epifania da protagonista sobre o vazio de sua vida parece vir de modo gratuito, sem uma motivação construída para tal. Com uma protagonista (e sua jornada) tão singular, é decepcionante que o filme resolva encerrar sua história com uma mensagem clichê sobre superar as dificuldades que parece saída de um comercial de empresa de seguros.

Apesar de nem sempre conseguir manter seu ritmo tenso e ágil, A Grande Jogada é uma competente estreia de Aaron Sorkin como diretor, beneficiada tanto pelo seu texto afiado quanto pela performance magnética de Jessica Chastain.


Nota: 7/10


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